O amor e a fúria de nossos tempos

Cartaz do Filme
(foto: Divulgação)

Filme brasileiro de animação conta história do ponto de vista dos que lutam contra os seus opressores

Caso te chamem para ver um filme de animação passado no Brasil, não pense que se trata de mais uma produção hollywoodiana recheada de estereótipos sobre nosso país. Uma história de amor e fúria, filme nacional que estreou em abril, surpreende pela inteligência e sensibilidade. Ele conta a história de um tupinambá que se tornou imortal porque foi escolhido pelo deus Munhã para ser um eterno combatente e líder dos tupinambás contra o reinado anhangá. Há diversas chaves de leitura possíveis para esse filme. Muitos o verão como uma história de amor romântico com enredo histórico. Mas há outra interpetração possível.
 
Troque tupinambás por oprimidos e anhangá por opressores e você terá a linha mestra do enredo do filme. O personagem principal muda de identidade ao mesmo tempo em que passeia por alguns eventos importantes da história do Brasil. E então a luta dos oprimidos contra seus opressores ganha dois combatentes de peso: o imortal tupinambá e a sua companheira Janaína que, mortal, “reencarna” em corajosas mulheres. Ao longo dos 600 anos que a narrativa abrange, os protagonistas se reencontram por diversas vezes e, juntos, travam a luta de seu tempo.
 
Na primeira parte do filme, é abordada a luta dos índios tupinambás contra os colonizadores brancos. Nosso herói tem uma opinião clara: nem portugueses nem franceses, todos são inimigos. Em seguida, a balaiada é contada com sabor e sensibilidade, e o Patrono do Exército Brasileiro fica relegado ao papel de sanguinário exterminador, um autêntico anhangá. Pouco mais de cem anos depois, o exército novamente personifica o mal que o líder tupinambá deve combater. E, ao encontrar sua Janaína, estudante universitária que luta contra a ditadura militar, ele toma a forma de um jovem também guerrilheiro. A última parte do filme se passa no futuro, em 2096, marcado pela luta por água, artigo tão raro quanto fundamental. Mais um mérito do filme: diferente de tantos outros filmes de ficção científica, não há ilusão de que o elevado desenvolvimento científico eliminará a divisão da sociedade em classes sociais. Quanto mais rico, mais água. Os pobres vivem em guetos, longe do “mundo dos Jetsons”, e são reprimidos por milícias privadas. 
 
O filme foge do maniqueísmo. O guerreiro imortal não está imune às contradições da vida. Como na vida real, há momentos de fraqueza, descrença e acomodação. Assim, podemos nos ver espelhados no filme. Não se trata de heróis perfeitos. Trata-se de nós. 
 
Sabemos que a narrativa histórica nunca é neutra, e no filme isto fica muito claro. Não é a História oficial que é contada, mas a História pelo ponto de vista dos que lutam contra seus opressores, cujos heróis não viraram estátuas. É a nossa História, que está sendo escrita todos os dias. Temos um futuro pela frente. De lutas, certamente. De vitórias, talvez. Mas, conforme as palavras do deus Munhã, só vence quem nunca desiste de lutar.