No rolezinho palestino, contra o apartheid israelense

"Rolezinho" em frente à loja que comercializa produtos israelenses
Foto: Sérgio Koei

Semana teve várias atividades de solidariedade ao povo palestino

Atendendo ao chamado da sociedade civil palestina por Boicotes, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel, o PSTU participou em São Paulo de uma ação que integra a campanha no Brasil: o “rolezinho palestino”. O ato ocorreu no dia 30 de março, quando se celebra o Dia da Terra palestino. Na data, no ano de 1976, os palestinos realizaram  uma greve geral e protestos contra a ocupação de terras por Israel na Galiléia, sendo duramente reprimidos. Foi a primeira grande mobilização iniciada dentro das áreas onde hoje se encontra o Estado de Israel, desde sua criação unilateral em 1948 (a “nakba”, catástrofe, para os árabes).

Organizado pela Frente em Defesa do Povo Palestino – a qual o PSTU integra –, o “rolezinho palestino” ocorreu no Shopping Higienópolis, em frente à loja Spicy, que anuncia em seu site a venda de uma máquina de gaseificação caseira da marca Sodastream, com fábrica instalada em assentamento na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel. Na ocasião, um vendedor da loja afirmou aos ativistas que não vende mais Sodastream, muito embora o site da rede continue a anunciar o produto.

A campanha tornou-se conhecida em janeiro último, quando a atriz estadunidense Scarlett Johansson anunciou que seria garota-propaganda da marca. Desde 2007, ela era embaixadora mundial da ONG de Direitos Humanos Oxfam. O contrato foi rompido mediante pressão do movimento BDS.

Como parte da campanha de BDS, uma série de iniciativas têm sido feitas em frente às lojas de todo o mundo que vendem produtos como Sodastream, com vitórias importantes. O rolezinho palestino se inseriu nesse contexto e se inspirou nos movimentos de jovens da periferia brasileira,  que questionaram em janeiro último o apartheid social vigente no país e a privatização da cidade, que torna o ato de freqüentar certos locais um privilégio de poucos. Um paralelo com o apartheid israelense.

África do Sul
Outra analogia, desta vez entre o sistema de segregação de negros na África do Sul de 1948 a 1994, e dos palestinos há 66 anos, foi feita durante a atividade que inaugurou a Semana contra o apartheid israelense no Brasil, no dia 24 de março último, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Iniciativa da Frente Palestina da Universidade de São Paulo (USP), que contou com o apoio da Frente em Defesa do Povo Palestino, a semana fez parte do calendário global que encampou atividades do gênero em centenas de cidades ao redor do mundo. Em São Paulo, seguiu até dia 28 com palestras e debates na USP e na PUC.

Além de abordar o apartheid a partir da África do Sul à Palestina, a semana incluiu entre os temas a Copa de 2014 e o Boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel; roda de conversa com mulheres e LGBTs sobre essa campanha; o relato de experiências de estudantes brasileiros que visitaram a Cisjordânia recentemente; e a situação dos palestinos de Yarmouk, campo de refugiados na Síria, cercado pelo regime sírio há oito meses, sem acesso a alimentos, medicamentos e ajuda humanitária.

Na primeira mesa, o jornalista Arturo Hartmann, diretor do filme “Sobre futebol e barreiras”, realizado na Palestina, apresentou a definição de apartheid como “separação”, “desenvolvimento separado”, bem como a contextualização histórica e uma série de situações na Cisjordânia que mostram sua aplicação no caso palestino. Centrando sua fala no que ocorre nessa parte da Palestina, ele falou sobre planos sionistas que levaram à instituição de bantustões naquelas terras. Entre os exemplos citados pelo jornalista estão o apartheid basicamente territorial em Hebron, o uso discriminatório da água no Vale do Jordão e o que se vê hoje em Jerusalém, “na prática totalmente anexada”, com permissão aos palestinos de viverem em apenas 7,8% do total (somando os lados oeste e leste).

Citando dados da ONG B’TSelem, ele revelou que, de 2004 a 2014, foram demolidas 503 casas palestinas, sendo que a conta sobre essa ação por parte do exército é repassada aos habitantes expulsos de suas propriedades, a menos que derrubem a própria moradia. Consequentemente, do total, 53 palestinos tiveram que arcar com esse ônus. “Existe uma política de segregação em relação às construções palestinas em Jerusalém leste.” Hartmann citou ainda o status diferenciado da população que vive sob ocupação em relação a documentos, com a violação de seu direito de ir e vir dentro de sua própria terra. Mencionou ainda o muro do apartheid, que corta a Cisjordânia, e as consequências aos palestinos. Hartmann apontou que democracia e caráter judeu do Estado são incompatíveis e criam essa situação de apartheid. Em outras palavras, somente em um estado laico seria possível garantir direitos iguais a todos, independentemente de religião ou etnia. Ele concluiu: “A solidariedade internacional é o que resta a esse território. Eu ouvi de palestinos e israelenses que a única coisa boa que tem acontecido é o BDS, porque a situação é dramática. Acho inclusive que apartheid é uma palavra muito amena para as coisas que acontecem ali.

Nesse contexto, a situação dos 1,5 milhão de palestinos que vivem onde hoje é Israel – submetidos a leis racistas e alguns vivendo em aldeias sequer reconhecidas pelo estado, sendo privados de serviços públicos essenciais – foi lembrada pela plateia. Assim como a discriminação enfrentada pelos palestinos e descendentes para entrarem em Israel e a situação vivida pelos milhares de refugiados, cujo direito de retorno as suas terras e propriedades tem sido negado.

Aos sul-africanos Thando Manzi e Hlokosa Montu coube a analogia com o regime que enfrentaram entre 1948 e 1994 em seu país e o que está instituído na Palestina hoje. Estudante de geografia, o primeiro deles contextualizou historicamente a instituição do apartheid ali e ressaltou: “De 1962 a 1983, 3,5 milhões de negros foram removidosde suas casas (para os bantustões);em 1970, a representação política de não brancos foi abolida, privados de cidadania. O governo segregava o acesso à educação, ao trabalho, ao atendimento médico e a outros serviços públicos.” Ele relatou a luta contra o apartheid, as repressões sofridas pelos ativistas e comentou: “Depois vieram as sanções internacionais sobre a África do Sul e essas tornaram extremamente difícil ao governo manter essa estrutura.”

Dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos da África do Sul, Montu contou sua experiência durante o apartheid, destacando que à época havia 4 milhões de brancos e 40 milhões de negros, os quais precisavam ter sempre consigo um passaporte interno. “Havia uma lei que me obrigava todo dia às cinco horas da tarde a sair da cidade onde eu estava (trabalhando) e retornar à cidadezinha onde eu morava. Se eu estivesse numa cidade restrita à população branca e extrapolasse o tempo, eu tinha que mostrar uma carta do meu empregador para que a polícia não me prendesse. E na zona em que eu morava, havia constantes batidas policiais para checar se nossa documentação era equivalente ao lugar onde estávamos. Se éramos encontrados por exemplo num parque com nossas namoradas éramos presos ou expulsos dali.”

Também recuperando a história, ele contou que em 1913 o governo da África do Sul apresentou a chamada Lei da Terra, reservando apenas 13% do total para os negros, os quais foram “expulsos de todas as zonas férteis e áreas mais bonitas do país. Éramos jogados para cultivar as zonas que eram basicamente desertas, e só podíamos entrar nas cidades controladas pelos brancos para trabalhar.” Ele enfatizou: “É a mesma política aplicada pelo Estado de Israel sobre os palestinos, de documentação, de passaportes, assassinatos, prisões em massa, torturas, despejos de zonas férteis para zonas desertas. Mandela dizia que nossa liberdade jamais será completa enquanto os palestinos não forem livres. E tenho clareza que só as massas podem libertar a Palestina. Não podemos confiar nem nos patrões nem nos governos para isso.”

Yarmouk
As massas estão se movendo no mundo árabe, sacudidas por revoluções que tiveram início em 2010 na Tunísia e seguiram para diversos outros países, como Egito, Iêmen, Líbia e Síria. Nesse último país, começaram em 15 de março de 2011. Após três anos de repressão bárbara por parte do ditador Bashar Al Assad, o resultado são cerca de 200 mil mortos, 250 mil desaparecidos, 300 mil presos e mais de 5 milhões de refugiados, incluindo palestinos que lá viviam – dados apresentados por Mohamad Kadri, da Frente em Defesa do Povo Palestino, na atividade sobre a situação dos palestinos diante da revolução na Síria, que encerrou a semana.

Desconstruindo a ideia de que a dinastia Assad é anti-imperialista e pró-palestina, ao apontar inclusive sua participação ao longo da história em massacres dessa população, a ativista síria Sara Al Suri apresentou tal quadro como uma “segunda nakba”. Em todo o país, viviam antes do início da revolução cerca de 500 mil palestinos, sendo 120 mil no campo de refugiados de Yarmouk, instituído em 1957. Tendo se somado nas lutas contra a ditadura, a maioria se viu obrigada a buscar novo refúgio, para escapar da repressão, que tem incluído bombardeios pesados ao campo. Restaram aproximadamente 18 mil em Yarmouk, que vivem sob bloqueio total, tendo que se alimentar de “cães, gatos, grama”.

A solidariedade internacional, apontou Sara, é fundamental para que as revoluções triunfem, caminho para a Palestina livre. “Se Bashar cair, a primeira coisa que vai ocorrer é milhares de pessoas marcharem de Damasco (capital da Síria) a Jerusalém. Eu mesma vou voltar para lá e me somar nessa marcha.”