Nem Ianques nem ONU. Fora as tropas de ocupação do Iraque!

Quando fechávamos esta edição as tropas americanas ocupavam Bagdá. Esta é uma primeira avaliação de um processo ainda em curso. Estamos no calor dos acontecimentos e qualquer avaliação mais de fundo deve ser tomada com cautela, devido ao nível de desinformação a que estamos submetidos.

Apesar do lixo que a máquina de propaganda imperialista vomitou pela imprensa burguesa, nunca poderão esconder que o povo do Iraque foi submetido a um verdadeiro genocídio. É uma guerra contra toda uma população. No entanto, o terror espalhado pelas bombas não é a explicação última da forma com que conquistaram Bagdá.

Uma guerra colonial

A possibilidade de uma vitória militar do regime de Saddam, pela via de uma guerra convencional entre dois exércitos estava completamente descartada. A Guerra do Golfo e o bloqueio econômico de 12 anos destruiu mais de 60% da indústria iraquiana. A capacidade de construir e repor equipamentos militares para uma guerra regular não existia.

A tendência mais geral da correlação de forças militar seria determinada pela ação das massas, de sua capacidade de sacrifício ante a superioridade do exército invasor. Pois a guerra, além da arte militar, também coloca o problema fundamental da direção político–militar dos interesses das classes em luta.
A imensa superioridade militar do imperialismo determinava que apenas o “povo em armas” poderia derrotá-lo, ou retardar sua vitória até que as mobilizações no mundo minassem sua retaguarda.

Para chegar neste nível de enfrentamento, as massas devem estar dispostas a todo tipo de sacrifício por suas conquistas sociais e por um futuro livre de opressão. E o regime de Saddam jogava no sentido oposto. Por mais que tenha resistido ao imperialismo, segue sendo uma direção burguesa.

O armamento generalizado da população ameaçaria também o regime de Saddam que, por isso, foi incapaz de organizar uma resistência além das forças militares. Por isso, a resistência em Bagdá foi menor do que a esperada.

Isso demostra uma vez mais que uma direção burguesa é incapaz de levar a fundo uma luta contra o imperialismo sem ameaçar seus próprios interesses. Chama a atenção o fato de que Bagdá, do ponto de vista militar, não era uma cidade preparada para a resistência.

As pontes que permitiram a passagem do exército invasor estavam intactas, não havia minas posicionadas na entrada da cidade ou barricadas. Enfim, a mínima preparação real para enfrentar uma guerra num centro urbano com cinco milhões de pessoas. Tampouco a participação ativa das massas foi substituída por uma ação militar da guarda republicana dentro de Bagdá, que poderia ter utilizado táticas de guerrilha urbana.

Ainda que neste momento não possamos tirar todas as conclusões, evidentemente o caráter de classe do regime de Saddam foi o principal obstáculo ao desenvolvimento de uma resistência massiva.

“O presidente Bush reconhece que a ação contra o Iraque não se relaciona apenas com o Iraque”

Nem bem os mortos de Bagdá eram enterrados, o insuspeito New York Times estampava a ameaçava à Síria e “pesquisas de opinião” diziam que a “população americana” aprovaria uma ação militar contra esse país, que já estava sendo acusado de possuir um “programa de armas químicas e biológicas”.

Apesar das ameaças norte-americanas, ainda é muito cedo para determinar que a provável vitoria militar do imperialismo conduza a uma vitória política.
Os objetivos políticos do imperialismo estão logicamente vinculados ao resultado militar, mas não estão determinados por ele. A chave de toda questão estará na reação das massas dentro e fora do Iraque. Ninguém deve deixar-se enganar pela queda de estátuas respaldadas por um punhado de lacaios que nem de longe refletem a realidade do sentimento das massas no Iraque.

Não está claro como se dará a resistência à ocupação. A preocupação explícita das petromonarquias do golfo, peça-chave da estratégia anglo-americana para a região, é que esta luta se estenda levando estes regimes à crise.

O resultado desta guerra não será medido em dias, pois são os objetivos políticos do imperialismo que o conduz à empresa militar. O sentimento anti-imperialista que comove o mundo determinará o desenvolvimento da luta de classes. O imperialismo não convenceu ninguém dos motivos desta guerra.

Mas a transformação da campanha contra a guerra numa luta anti-imperialista será o resultado de uma batalha política. Quando o PT de São Paulo promove um ato pela “Paz”, sem falar que a dívida externa alimenta a máquina imperialista, conduz o movimento a um beco sem saída, pois não potencializa o sentimento anti-imperialista dos 90% dos brasileiros que estavam contra a guerra. Ou quando o PC do B gasta seu tempo na TV falando de “paz” sem denunciar o imperialismo, a Alca e a colonização do Iraque. Ao contrário, nossa luta contra a guerra é também contra a dominação imperialista no Brasil.

Os negócios de paz da França e Alemanha

A entrada das tropas americanas em Bagdá foi recebida com júbilo pelo presidente Chirac “A França se alegra com a queda de Saddam”. Na guerra, as bases militares americanas na Alemanha foram utilizadas de forma ilimitada. E a França abriu seu espaço aéreo para os caças norte-americanos e ingleses.

Antes mesmo das tropas entrarem em Bagdá, o ministro de assuntos exteriores advertia a Síria para que impedisse a passagem de voluntários. Como aves de rapina, aliam-se aos EUA para garantir que suas empresas participem da “reconstrução” do Iraque.

Mas o Congresso dos EUA vetou a participação de empresas alemãs e francesas nas “tarefas de reconstrução”. Isso aqueceu novamente os discursos dos imperialismos europeus exigindo a “responsabilidade da ONU”. No mesmo sentido, o palhaço Kofi Annan afirma que a experiência da ONU em Kosovo e Timor Oriental a credencia para conduzir os negócios de todos os imperialismos no Iraque.

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