Na trincheira e na poesia*

Os políticos burgueses sempre se referem à juventude como “o futuro da nação”. Atrás dessas velhas promessas se esconde o medo desses senhores em ver seus negócios explodidos pelas futuras gerações.

Por ainda não fazerem parte da estrutura da sociedade, os jovens sempre tiveram resistência em se integrar ao modo de produção capitalista como mão-de-obra barata dos grandes empresários nacionais ou estrangeiros.
Esse descompasso entre os anseios da juventude e a oferta mesquinha dos donos do mundo serviu como um rastilho de pólvora para grandes mobilizações ou até de revoluções.

Em novembro de 2005 assistimos turbulentas manifestações na periferia francesa, onde jovens de 14 a 20 anos, muitos de descendência árabe, viravam e ateavam fogo em tudo que viam pela frente reivindicando emprego e educação e protestando contra o racismo. O governo Chirac logo se apressou em decretar estado de emergência, proibindo a livre circulação de pessoas, fechando espaços de convivência e usando do toque de recolher.

Quando as coisas pareciam ter voltado a normalidade explodiram novas mobilizações, agora unificando os jovens de periferia, estudantes universitários e secundaristas e trabalhadores contra o Contrato para o Primeiro Emprego (CPE) do governo Chirac e Villepin. O Contrato para Escravidão, como foi apelidado, permitiria a demissão sem justificativa e custo para jovens de até 26 anos.

Resultado: mais de 3 milhões de pessoas nas ruas, 60 universidades públicas em greve, 300 escolas ocupadas, cerca de mil manifestantes presos, duas greves gerais e um governo derrotado.

Mas a juventude francesa já deu demonstrações de força em outros momentos da história. Tudo começou quando estudantes de Nanterre ocuparam o alojamento feminino da universidade e exigiram o direito de dormir com as suas namoradas. Foi o suficiente para desencadear radicais mobilizações em Paris e demais cidades da França contra o autoritarismo da chamada V República e por melhores condições de ensino. Começava o movimento que ficou conhecido como Maio de 68. Frases do tipo “Sejamos realistas, exijamos o impossível”, “Enforcar o último burguês nas tripas do último burocrata” e “É proibido proibir” são marcas dessa época.

O mais rico desse processo foi a sua aliança com a classe operária. Os trabalhadores da Renault e de outras fábricas que engrossaram as manifestações e foram decisivos na convocação da greve geral.

A influência do Maio de 68 não se restringiu ao continente europeu. Aqui no Brasil, o movimento estudantil se enfrentou heroicamente contra a ditadura militar e protagonizou a famosa passeata dos Cem Mil. A década de 60 marcou toda uma geração. Centenas de estudantes foram presos, torturados e mortos nos porões da ditadura em defesa das liberdades democráticas.

No coração do império
Nos EUA, debaixo do nariz do Tio Sam, a juventude encabeçou as mobilizações contra a Guerra do Vietnã e foi determinante para a derrota do império nas florestas dos vietcongues. O sentimento de indignação dentro dos EUA se expressou também no terreno da cultura através do movimento hippie, que tinha suas bases no questionamento do modo de vida burguês. Hoje a juventude norte-americana está a frente da luta contra a guerra no Iraque.

Cravos nos fuzis
Depois de quase meio século de um regime de inspirações fascistas, Portugal se libertava em 1974 da ditadura de Marcello Caetano. A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, foi impulsionada principalmente por oficiais intermediários da hierarquia militar que se organizaram no Movimento das Forças Armadas (MFA).
As camadas jovens, que se sentiam mais vitimadas pela continuidade da guerra nas colônias, se organizaram para por fim a colonização de Angola, Guiné e Moçambique. O cravo tornou-se símbolo da Revolução, porque na manhã do dia 25 de abril, em meio às comemorações da derrubada da ditadura, um personagem anônimo distribuiu cravos vermelhos e os soldados os colocaram na ponta das espingardas, dando um toque de poesia à revolução.

Jovens revolucionários
A abnegação foi a marca registrada dos militantes que dirigiram a Revolução Russa de 1917. Muitos deles ingressaram muito cedo na luta contra o czarismo e assumiram rapidamente responsabilidades de dirigentes. Sverdlov, o mais brilhante organizador do Partido Bolchevique, entrou no partido aos 16 e aos 17 já dirigia a organização em Sormovo. Trotsky começou aos 17 e em 1905 tornou-se presidente do Soviete de Petrogrado com apenas 25 anos.

Essa foi a geração que construiu o primeiro Estado Operário da história. Os ensinamentos, a dedicação e a ousadia de Lênin, Trotsky e Sverdlov não foram apagados pela contra-revolução stalinista, e nem serão pelos neo-reformistas de hoje.

Em uma carta de Trotsky à Conferência da Liga da Juventude Socialista, o revolucionário dá a medida exata da importância da juventude para o partido revolucionário. Nela Trotsky dizia: “Um partido revolucionário deve necessariamente basear-se na juventude. Inclusive pode-se dizer que o caráter revolucionário de um partido pode ser julgado, em primeiro lugar, pela sua capacidade de atrair a juventude da classe trabalhadora para suas bandeiras. O atributo básico da juventude socialista – e tenho em mente a juventude genuína e não os velhos de 20 anos – reside na sua disposição para entregar-se total e completamente à causa socialista. Sem sacrifícios heróicos, valor, decisão a história em geral não se move adiante”. Acreditamos que o ensinamento continua mais atual do que nunca.

* Nome da gestão 2005-2006 do Centro Acadêmico Clarice Lispector, curso de Letras, PUC-SP.
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