Na Europa, trabalhadores e a juventude radicalizam luta contra a crise

Na Grécia e Espanha, trabalhadores e estudantes voltam às ruas e colocam os governos na miraEnquanto fechávamos essa edição, o parlamento grego estava prestes a aprovar o segundo pacote de austeridade exigido pelo FMI e pela União Europeia. O novo conjunto de medidas, que inclui aumento nos impostos, cortes no orçamento e privatizações, vai aprofundar o caos social provocado pelo primeiro pacote que deixou, nos últimos dois anos, um rastro de 16% de desempregados no país.
Mas se, por um lado, o governo grego cede às pressões dos organismos multilaterais e das potências europeias, nas ruas a população e a juventude grega também radicalizam os protestos contra o governo do ‘socialista’ George Papandreou. O mesmo acontece na Espanha que, ao lado da Grécia, forma o elo mais fraco da crise europeia, e sente de forma mais intensa os efeitos da crise.

Ainda que de forma desigual, Grécia e Espanha se colocam à frente de um processo de lutas e mobilizações que podem colocar em xeque a União Europeia. Não está descartado, inclusive, o surgimento de crises revolucionárias no continente, o que não se dava desde a Revolução Portuguesa nos anos de 1974 e 1975.

Indignados tomam as praças e as ruas
A Espanha vive um forte processo de mobilizações que irrompeu, sobretudo, através da juventude, o setor mais exposto ao desemprego que, no primeiro trimestre do ano, atingiu a marca recorde de 21%, o mais alto em 35 anos. Entre os mais jovens, esse índice supera os 40%. Resultado de anos de neoliberalismo, agravado com a política de cortes e reformas.
O descontentamento acumulado por anos de recessão explodiu com a faísca provocada pela onda de revoltas árabes. Os jovens, claramente inspirados pela juventude egípcia, saíram às ruas e ocuparam as principais praças das grandes cidades, como Madri e Barcelona. Sob o lema de “Democracia Real Já”, os estudantes realizaram uma primeira onda de ocupações em maio, motivo pelo qual o movimento recebeu o nome de 15-M, cujo epicentro estava na praça Puerta del Sol, em Madri.

Em 19 de junho último, uma nova onda de manifestações superou o ’15-M’, levando quase 300 mil pessoas às ruas em todo o país. O dia ficou marcado como o “19-J”. Além de se expandir, a mobilização ganhou um caráter mais popular e operário, incorporando os bairros e organizações sindicais combativas, além de consignas como “que os capitalistas paguem pela crise”. As mobilizações também começam a falar de “greve geral” contra o governo, palavra de ordem que se choca com a política conciliatória de organizações como a Attac, ou de centrais sindicais como a CCOO e a UGT.

O governo de Zapatero, por sua vez, dá sinais de que não vai arrefecer a política recessiva do governo. Se depender do FMI, ao contrário, vai aprofundar. No relatório anual do fundo sobre o país, divulgado agora em junho, o FMI elogia a política do atual governo, mas pede que a Espanha realize uma reforma trabalhista “mais valente”. Isso significa: redução nos custos das demissões, flexibilização das negociações coletivas e redução dos salários.

O movimento dos ‘indignados’, porém, se prepara para responder na mesma moeda. Várias marchas saíram de diversas partes da Espanha para confluírem em uma grande manifestação no próximo dia 23 de julho na cidade de Madri.

Na Grécia, a luta se aprofunda
Se na Espanha a greve geral começa a ser falada nas ruas, na Grécia os trabalhadores já realizaram, só nesse ano, três greves gerais contra a política de cortes do primeiro-ministro Papandreou. A terceira ocorreu no dia 15 de junho e balançou o governo do Pasok (o partido “socialista” grego). Dezenas de milhares de trabalhadores e estudantes foram às ruas e cercaram o parlamento. As manifestações se juntaram aos milhares de jovens que acampam na Praça Syntagma, no centro de Atenas, num movimento inspirado nos “indignados” espanhóis.

A polícia reprimiu as manifestações, mas não impediu o aprofundamento do desgaste do governo. Papandreou tentou ainda uma manobra política para manter a estabilidade de seu mandato. Chamou todos os partidos de oposição, principalmente o direitista “Nova Democracia”, para a formação de um governo de “unidade nacional”. Em troca, estaria disposto a abrir mão do cargo. O problema é que a pré-condição estabelecida pelo primeiro ministro para isso era a aceitação integral do plano de cortes firmado entre o atual governo e a chamada “troika” (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia). A manobra fracassou e o governo continua em uma situação delicada.
Nos últimos dias 23 e 24, a “troika” renovou suas ameaças para o parlamento grego impor um novo pacote de cortes e privatizações. Mas por que o pequeno país do mediterrâneo, com seus 10 milhões de habitantes e apenas 2% do PIB da UE provoca tanta preocupação? A Grécia está à beira de um colapso financeiro, com uma dívida pública equivalente a uma vez e meia seu PIB. Caso declare moratória, quebraria grandes bancos franceses e prejudicaria os principais bancos alemães, além de desencadear uma onda de desconfiança em todos os países da região.

O problema é que, para seguir pagando os juros da dívida, o país depende de um novo empréstimo. Para conceder mais dinheiro, o FMI e a UE exigem, por sua vez, mais cortes, redução de salários e a venda de estatais, aprofundando uma política que nos últimos dois anos levou ao desemprego recorde, com um índice que supera os 30% entre os mais jovens.

A nova parcela do empréstimo a ser renovado deve ser por volta dos 110 bi de euros. A dívida, por sua vez, supera os 340 bi. É praticamente consenso o fato de que a dívida grega é impagável. O que FMI e a UE, dominados pelas grandes potências europeias como a França e a Alemanha, querem, é impor novos empréstimos a juros ainda mais altos, perpetuando a submissão da Grécia, mediante a dívida pública.

Processo parecido ao que sofreu a América Latina diante do imperialismo em toda a década de 1980. Junto a isso, tal política também visa impor a completa desnacionalização da economia grega, o que conhecemos muito bem por aqui nos anos 1990. Uma política de colonização que as potências europeias impõem não só à Grécia, como aos demais países do “PIGS”, que são Portugal, Irlanda e Espanha.

Os trabalhadores e a juventude na Grécia, por outro lado, vêm mostrando o caminho. Os dois dias de uma nova greve geral devem coincidir com a votação de cortes e privatizações no parlamento. E mostra cada vez mais que só a derrubada do governo pode derrotar o pacote. O futuro dessa crise econômica será decidido nas ruas.

Post author Diego Cruz, da redação
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