Motins da juventude francesa: um verdadeiro diploma, um verdadeiro trabalho, um verdadeiro salário

Leia abaixo a declaração do Grupo Socialista Internacionalista (seção francesa da Liga Internacional dos Trabalhadores) sobre os acontecimentos na FrançaNo dia 25 de outubro, à noite, quando o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, chegou em Argenteuil, foi recebido por vaias e garrafas. Conversando com uma moradora, foi então que ele evocou a “gentalha”. No dia 27, em Clichy-sous-Bois, dois jovens morreram eletrocutados, e outro foi gravemente ferido, quando procuravam um refúgio num transformador de eletricidade. Os três jovens foram acusados de ladrões que estavam fugindo da polícia ; imediatamente, 15 veículos foram queimados em protesto contra as mortes. Nos dias seguintes, quando foi demonstrado que não eram ladrões, Sarkozy persistiu… Foi a gota d’água. A partir daí, os confrontos se multiplicaram e se espalharam.

Em 10 dias, mais de 300 cidades foram atingidas, com 4.900 veículos queimados e escolas, ginásios, armazéns e lojas destruídos. Foram contabilizados dezenas de feridos e mais de 1.500 presos, com centenas de condenações expedidas e julgamentos imediatos, efetuados em condições escandalosas, segundo os advogados.

Como chegamos a essa situação?
Tudo começou em 1983, quando a “esquerda” recém chegada no poder, se juntou vergonhosamente ao social-liberalismo e se dedicou a implementar uma política que levou o primeiro ministro Jospin a privatizar mais do que seus antecessores de direita, Balladur e Juppé. O Partido Socialista (PS) deu seu apoio à adoção do tratado de Maastrich que fez de todos os trabalhadores de toda a Europa os reféns da política de liberalização da economia e do mercado de trabalho, uma política de “deflação competitiva”, quer dizer salários sempre mais baixos, empregos sempre mais precários, serviços públicos privatizados e proteção social desmantelada : é o triunfo da miséria.

Isso continua com a farsa de 2002, quando a “esquerda do socialista” F. Hollande, a LCR do A. Krivine, o PCF de R. Hue, chamaram o voto em Chirac, para “barrar a extrema-direita”. Esse país, no qual as agencias de empregos precários de pouca duração são os verdadeiros chefes, contabiliza mais de 2.5 milhões de desempregados (número oficial subestimado), e conhece uma precariedade massiva.

Tudo podia ter parado no 29 de Maio 2005, quando a constituição européia foi rejeitada com 55% dos votos, mas… Há muito tempo que a política de qualquer governo, que seja de esquerda ou de direita, se decide nos conselhos de administração das multinacionais, no conselho dos ministros da EU, na OCDE, e no FMI. Seguindo as exigências de uma “concorrência livre e não fraudada” o governo Villepin, na contramão do resultado do referendo, implementou uma política que agravou consideravelmente a ofensiva anti-operária e assentou, de fato, as bases para uma explosão social.

Villepin seguiu a escola de Chirac: começou com uma declaração hipócrita sobre o “modelo social” e logo depois, cinco decretos que o destroem! Ele teve como alvo a destruição das conquistas históricas da classe operária e da juventude: código do trabalho, convenções coletivas, estatuto da função pública e serviços públicos no seu conjunto. Nada foi poupado: escolas, hospitais, serviços sociais, etc.

Frente à violência desses ataques, como podemos estranhar a reação da classe operária e da juventude, quando os supostos partidos de esquerda que deveriam defender os interesses dos próprios trabalhadores e da juventude, já abandonaram sua responsabilidade ou foram à falência? É o que expressou o movimento secundarista dessa primavera, as greves e passeatas do 10 de março, o conflito da SNCM (transportes marítimos Córsica-Mediterrâneo) ou da RTM (transportes da cidade de Marselha).

É nesse contexto que se deve entender a explosão da juventude, chamada de “imigrante” dos grandes conjuntos habitacionais da periferia, que na verdade são filhos de trabalhadores imigrantes instalados nesse país há duas ou três gerações.

Foi então que 60 africanos de todas as idades foram mortos em alguns meses nos incêndios de prédios e que outros trabalhadores imigrantes foram jogados violentamente na rua pela polícia sob ordem de Sarkozy com o pretexto de insegurança !

Nesses conjuntos habitacionais, aonde mora tradicionalmente a classe operária que não tem dinheiro para morar nos bairros ricos das grandes cidades, a taxa de desemprego é de 22% na população ativa e atinge 40% na juventude, segundo dados oficiais…

Será que é difícil entender a explosão de violência dessa juventude que ataca seus próprios locais de moradia, quando todo dia ela é vitima do racismo inerente ao sistema capitalista, e quando os partidos e as organizações tradicionais ajudaram à aplicar as diretrizes de Maastrich? Essa atitude criou um vácuo político e deixou a juventude sem referencia.

E quais as respostas do governo?
Da mesma maneira que, em 29 de maio, depois da rejeição da constituição européia, hoje o governo responde com uma repressão reforçada e com a instalação do estado de emergência, em bases a um texto de 1955 que se chama “Lei de instituição de um estado de emergência e que declara sua aplicação na Argélia”. É ! Na Argélia ! Na Argélia, no momento da revolução e da guerra de independência; lei que foi aplicada de novo em 1984-85 por Chirac, primeiro ministro de Mitterand, na Nova-Caledonia, contra os independistas KanaKs. Uma lei marcada pela desigualdade e a opressão!

Isso se traduz pela instauração do toque de recolher, pelas incursões nas casas de dia e de noite, a possibilidade de deter menores e perseguir seus pais nos tribunais, a expulsão dos imigrantes insurgentes que sejam ou não regularizados, etc.

A Frente Nacional o pedia, o governo Chirac-Villepin-Sarkozy o fez. Sim, o Chirac, apresentado por alguns como um dique contra a extrema-direita em 2002, satisfaz em 2005 as reivindicações da FN. Fechou-se o círculo.

Mais ainda, o governo tem a cara de pau de anunciar um “aspecto social” do estado de emergência: o inicio da especialização técnica para o mercado de trabalho a partir dos 14 anos em vez dos 16, o que vai oferecer mão de obra nova ao patronato; medidas de inserção, quer dizer migalhas do orçamento e verbas para as associações de bairro, esperando que elas restaurem a ordem. É a confirmação do fim da solidariedade, o que vai beneficiar as redes caritativas e as confissões religiosas (alias, a UOIF – União das Organizações Islâmicas – de França entendeu isso perfeitamente, já que ela editou uma Fatwa que lembra aos jovens que a destruição de bens é contraria ao Islã).

Com essa política, o governo se prepara para enfrentar outras explosões inevitáveis do movimento operário e da juventude. Lança assim um balão de ensaio, com todos os meios necessários para repressão.

E a esquerda?
Será que podemos esperar alguma coisa da política defendida pela suposta esquerda, que se limita há 25 anos a um “tratamento social” do desemprego e chega hoje a aprovar a instauração do estado de emergência, como é o caso do PS de François Hollande?

É com muita reticência que a esquerda e as organizações sindicais comentam as medidas brutais do governo, como se elas aprovassem que esse setor da juventude seja tratado, de forma particular, como animais !

Os trabalhadores e a juventude só podem contar com eles próprios e devem se organizar em função disso. Frente à brutalidade da política do governo Chirac-Villepin-Sarkozy, outras explosões são inevitáveis.

Vamos trabalhar numa unidade de ação para construir o instrumento necessário, o partido operário independente, para dirigir a ira de toda a classe operária e a juventude contra o patronato e os governos de direita e de esquerda às suas ordens.

  • Não à “ditadura democrática” do governo e do patronato!
  • Não ao estado de exceção !
  • Fim de todas as medidas do estado de emergência !
  • Libertação de todos os jovens, com ou sem título de permanência!
  • Suspensão dos processos!
  • Não as expulsões!
  • É o governo Sarkozy-Chirac-Villepin que temos que demitir!
  • Unidade das organizações operárias para impedir a exploração das crianças de 14 anos !
  • Para um verdadeiro diploma, um verdadeiro trabalho, um verdadeiro salário !

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