Morre Lou Reed, o lendário fundador do Velvet Underground


Em plena atividade, músico que revolucionou o rock nos anos 1960 e 1970 morre aos 71 anos.

Tinha que ter sido num domingo de manhã, lembraram muitos. O autor da canção “Sunday Morning” (Manhã de Domingo), disco de estreia do grupo novaiorquino Velvet Underground, morreu nesse 27 de outubro, aos 71 anos. Até o fechamento desta edição a causa da morte não havia sido revelada, mas Lou Reed já havia passado por um transplante de fígado no início do ano e cancelou várias apresentações no decorrer do ano.

Profundamente influenciado por Bob Dylan e apontado como um dos principais criadores do que seria chamado de “rock alternativo”, Lou Reed foi figura destoante do cenário musical dos anos 1960. Espécie de precursor do que viria na década seguinte, o músico e compositor seria a antítese perfeita do movimento hippie e a tudo que se associa a ele, retratando o submundo decadente de sua cidade.

O cantor do underground
Nascido em Nova Iorque, nome que batizaria um de seus principais discos solos, Lewis Allen Reed, o verdadeiro nome de Lou Reed, teve uma adolescência bastante conturbada, passando por um traumatizante tratamento psiquiátrico, com direito a choques elétricos na cabeça. Anos depois, em 1965, já estudante da Universidade de Syracuse, Reed se aliou ao músico John Cale numa parceria que iria seguir pelos próximos dois anos.

Os dois conheceram então aquele que iria definir o futuro dos dois e influir na formação da banda que seria um marco no rock nas próximas décadas. O artista plástico Andy Warhol adotaria os dois para articular a formação do Velvet Underground (nome inspirado num livro de sadomasoquismo), cuja estreia, “Velvet Underground and Nico” (carinhosamente conhecido como “o disco da banana) se tornaria um dos discos mais influentes da história. Warhol mantinha um ateliê na cidade, o Factory, que funcionava como um catalisador artístico na época, para onde confluíam nomes como Mick Jagger e Bob Dylan, e toda sorte de drogado, marginalizado e adeptos da “contracultura”.

Warhol, um já consagrado artista da “popart”, apadrinhou a banda, embora pouco influísse em sua concepção musical. A não ser pela inclusão da cantora alemã Nico no grupo, algo que, embora deslocada, conferia um tom sensual e excêntrico (com seu sotaque alemão) às letras pesadas do banda.

O disco de estreia trouxe sucessos como, “I’ll be your mirror”, e canções polêmicas como “I’m waiting for the Man”, em que o autor, no que pode muito bem ter um caráter autobiográfico, narra um viciado esperando seu traficante. A letra de “Heroin” não é menos explícita, com versos como “Heroin, it’s my wife and it’s my life” (Heroína, é minha mulher e minha vida). Outra música do disco, “Venus in Furs”, é inspirada no livro alemão que tinha sadomasoquismo como tema.

Bem distinto da música romântica, ensolarada e bem comportada dos californianos do The Mammas and the Papas, Lou Reed e o Velvet incorporavam ao universo da música pop temas como drogas, sadomasoquismo, e todo um temário bastante diferente do que era comum na época. Tanto por causa disso como pelo estilo cru e direto, com bastante distorção de guitarra, o Velvet Underground é considerado por muitos o precursor do punk rock, que explodiria poucos anos depois no clube CBGB, também em Nova Iorque.

Em entrevista à revista Rolling Stones em 1982, Reed explica que esses assuntos eram novidades apenas na música pop. “Só era tabu nos discos, vamos nos lembrar disso. Filmes, peças, livros, está tudo ali. Você lia Ginsberg, Buroughs, Hubert Selby Jr“, afirmou, demonstrando seu repertório literário.

Após o álbum de estreia, Reed e Cale demitem Warhol e Nico e gravam um disco mais “cru” que o anterior, o “White Light/White Heat”, lançado em 1968. O período marca ainda a ruptura entre Jonh Cale e Reed, este musicalmente mais “técnico” e virtuoso que Lou. Após a separação, o Velvet lança ainda mais dois álbuns: “The Velvet Underground” e “Loaded” em, respectivamente, 1969 e 1970. É desta época a bela “Pale Blue Eyes”, que no Brasil ganhou versão inspirada de Marisa Monte.

Apesar da curta duração, a influência da banda atravessou décadas e até hoje é cultuada por uma verdadeira legião de fãs.  

Apenas Lou Reed
Terminada a banda em 1970, Reed bandeou-se para a Inglaterra seguir carreira solo. Dois anos depois lançaria o aclamado “Transformer”, produzido por ninguém menos que David Bowie. O disco traz a icônica “Walk on the Wild Side” (Andando pelo lado Selvagem). Mostrando não estar disposto a largar mão dos temas polêmicos, a canção, que também pode ser tomado como autobiográfica, faz referências a travestis (“Depilou suas pernas e logo ele era ela; e ela disse ‘Hey Baby, caminhe pelo lado selvagem”) e prostitutas.

As duas décadas seguintes mantiveram-se extremamente profícuas e criativas ao poeta do rock de Nova Iorque, com discos como “Berlin”, em 1973, até “New Iork”, em 1989. A luta de Reed contra o vício da heroína não o impediu de compor canções que o manteriam, junto com sua indefectível jaqueta preta e óculos escuros,como uma espécie de personificação do rockstar. “Perfect Day”, música sua dos anos 1970, foi ainda trilha do filme “Trainspotting”, de 1996.

Sofrendo de hepatite desde os anos 1960, logo após o transplante a que foi submetido este ano, o músico não agradeceu a Deus ou os carinhos do fã por sua recuperação. Mantendo-se fiel ao seu estilo, declarou ser tão somente um “triunfo da medicina, física e química modernas”. Fora disso, só creditou a recuperação pós-cirurgia à dieta e ao tai-chi-chuan que praticava nos últimos anos.

A perda de Lou Reed é trágica não só pelo que o músico representa na história do rock, mas principalmente pelo fato de ter se mantido ativo, inquieto e longe da zona de conforto com que muitos músicos se refugiam a partir de certa idade da vida. Em 2011, por exemplo, Reed chegou a gravar um disco com o Metallica, “Lulu”, considerado por muitos como o pior do ano. Se faltava qualidade, é inegável que sobrou audácia para o cantor quase septuagenário.

Lou Reed, enfim, fará falta por ter sido um verdadeiro poeta que fazia rock. Nos dias de hoje, essas duas palavras estão cada dia mais dissociadas.

Publicado originalmente no Opinião Socialista 471