Mesmo recorrendo ao foro privilegiado para frear investigações, Flávio Bolsonaro se enrola cada vez mais

Esse mesmo governo já envolvido em corrupção articula uma reforma da Previdência para atacar o seu direito à aposentadoria

Você tem R$ 96 mil para receber de um “rolo” qualquer. Sim, provavelmente você, como 99% da população, nunca vai ver na vida essa quantidade de dinheiro de uma vez, mas vamos fazer um exercício de imaginação. O que você faz? Diz para fazer uma transferência bancária ou depósito, ou pede para a pessoa te dar em dinheiro vivo para você mesmo depositar em 48 envelopes de R$ 2 mil durante cinco dias? Isso não faria nenhum sentido, não é mesmo? Pois foi essa a explicação que o deputado e senador eleito pelo PSL, Flávio Bolsonaro, deu à Rede Record na noite deste domingo para esses depósitos em série identificados pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) num caixa eletrônico da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

O Jornal Nacional de sexta-feira havia revelado os depósitos suspeitos realizados entre junho e julho de 2017, quando Flávio era deputado estadual no Rio. Também foi relevado um pagamento de R$ 1 milhão num título da Caixa, não identificando o beneficiário.

A explicação dada por Flávio Bolsonaro à Rede Record foi de que essa movimentação se deve a uma venda de um imóvel. Já a Folha de S. Paulo desta segunda-feira mostra que o filho de Bolsonaro tem mesmo um especial apreço pelo mercado imobiliário. Segundo o jornal, o senador eleito pelo PSL comprou 3 imóveis em áreas nobres no Rio no valor total de R$ 4,2 milhões.

Cada vez mais enrolado
Esse novo capítulo do escândalo envolvendo o filho de Bolsonaro ocorre poucos dias depois de o senador ter pedido a suspensão das investigações contra o ex-assessor Fabrício Queiroz e a anulação das provas levantadas pelo Coaf e o Ministério Público Estadual do Rio. Em uma decisão absurda, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, atendeu o pedido e concedeu liminar suspendendo as investigações.

A decisão esdrúxula do STF só serviu para jogar ainda mais desconfiança sobre o deputado, que sequer estava sendo investigado, mas apenas seu então assessor. O Coaf havia já identificado movimentação financeira incomum no valor de R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017 do ex-motorista. No último domingo, foi a vez de O Globo revelar que Queiroz movimentou outros R$ 5,8 milhões entre 2014 e 2015. Foram, então, no total, R$ 7 milhões que o ex-assessor de Bolsonaro movimentou em apenas três anos.

Recorrer ao foro privilegiado ao STF não só mostrou a hipocrisia de Bolsonaro, que sempre atacou essa prerrogativa, como foi praticamente uma confissão de culpa.

Vai ficando cada vez mais evidente a razão pela qual Queiroz, sua família, e Flávio Bolsonaro fogem tanto de prestar depoimento ao Ministério Público. Vai ser realmente difícil explicar tanta coisa para alguém que não seja um repórter chapa-branca da Record ou do SBT.

Eles são os que querem tirar a sua aposentadoria
À medida em que Flávio Bolsonaro vai se enrolando cada vez mais, o governo de seu pai Jair Bolsonaro trata de montar uma estratégia para isolar essa crise, preservando o restante do governo. No entanto, já vimos em escândalos anteriores como isso é improvável. Basta lembrar que o mensalão surgiu como um caso de desvio nos Correios, e o petrolão como escândalo de corrupção na Petrobrás. No caso do governo, o depósito de Queiroz à esposa de Bolsonaro já mostra que não se trata de uma questão “pessoal” de Flávio Bolsonaro e seu ex-assessor. Se puxar o fio, mais coisas aparecem.

Em apenas três semanas de governo temos: um ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que confessou ter recebido R$ 100 mil em caixa 2 da JBS. Temos o partido de Bolsonaro, o PSL, apoiando o corrupto Rodrigo Maia à reeleição da Presidência da Câmara (com o apoio do PCdoB é bom lembrar). E agora o escândalo envolvendo o clã Bolsonaro.

É esse mesmo governo que nem bem começou e já se vê envolvido em escândalo de corrupção que articula uma reforma da Previdência para tirar a sua aposentadoria e o que resta dos seus direitos trabalhistas.

Redação