Matilde Ribeiro deixa o governo: racismo ou submissão?

Para setores do movimento negro e da esquerda, demissão da ministra, campeã de gastos com cartão corporativo, é exemplo de preconceito. Há motivos para indignar-se?A ministra Matilde Ribeiro demitiu-se da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) nesta sexta, 1° de fevereiro, depois de ser apontada como pivô do último escândalo com dinheiro público no governo Lula: a folia na utilização dos cartões de crédito corporativos.

Depois de denunciada por ter pago, em 2007, cerca de R$ 171 mil com o cartão do governo (R$ 14,3 mil mensais mais do que o seu salário, que é R$ 10,7 mil) com presentes natalinos em um free shop, restaurantes (R$ 5 mil) e aluguel de carros (R$ 170 mil, quase R$ 3 mil deles somente no feriado de Finados), Matilde apresentou sua demissão, assumindo seu “erro administrativo”. Um “erro” no mínimo recorrente, já que, nos últimos quatro anos, a ministra foi a campeã em gastos (R$ 101 mil) com viagens e diárias em hotéis.

Antes de tudo, é importante lembrar que está mais do que evidente que a saída de Matilde – imposta diretamente por Lula e pela toda poderosa Dilma Rousseff – não é mais do que uma tentativa de abafar o escândalo através da entrega de um “bode expiatório” para a imprensa e a população em geral. Prática reincidente no Planalto Central.

Contudo, o que há de novo no “episódio Matilde” é o fato de que a “sacrificada da vez” é uma mulher negra – à frente de uma secretaria voltada para o combate à opressão –, o que tem gerado reações que vão de contraditórias a totalmente absurdas, principalmente no interior do movimento negro e nos setores vinculados ao governo e à própria Seppir.

Racismo ou submissão?
Para dar um exemplo, vale citar Dogival Vieira, dirigente do Movimento Brasil Afirmativo, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, no dia seguinte à demissão. Apesar de reconhecer o “erro administrativo” da ministra, Vieira fez questão de ressaltar que “ela se esqueceu que vivemos num país racista, onde não existe nenhuma flexibilidade em relação a negros, especialmente quando estão em posição de destaque”.

É óbvio que a afirmação de Dogival baseia-se na realidade e é uma das características importantes da ideologia racista. Contudo, é este tipo de argumentação que dá bases para conclusões como a da líder religiosa Valkíria de Souza, a Kika, integrante da Coordenação Nacional das Entidades Negras (Conen, dirigida pelo PT).

Numa tentativa de, ao mesmo tempo, limpar a barra de Matilde, e, acima de tudo, defender o governo – o real responsável pela corrupção –, Kika se apressou em declarar, no mesmo jornal, que “há uma conotação racista no episódio, à medida que significa uma reação de setores contrários às políticas que beneficiam os excluídos por gênero, raça e classe”.

A própria ministra apostou na idéia de racismo. Na sua saída, declarou que o preconceito agravou as proporções do escândalo. Declaração que, por si só, é um verdadeiro escândalo. Então, se não tivesse sido denunciada, Matilde continuaria comprando seus agrados com o dinheiro público?

O que se encontra por trás desta “indignação” anti-racista se assemelha à teoria do “governo em disputa”, construída por setores da esquerda governista desde a posse de Lula. A tese é transposta para a questão racial. Haveria um embate, no interior do governo, entre aliados bem intencionados e sinceros, de um lado, e conservadores racistas e preconceituosos, do outro.

Dentro deste malabarismo teórico, Matilde seria um infeliz exemplo do primeiro grupo e acabou sendo derrubada pelos seus opositores à direita. Nada mais falso. Lamentavelmente, a história é ainda pior. A ministra, vergonhosamente, saiu do governo da mesma forma em que entrou: submissa e “descartável”.

Uma ministra dos “senhores”
Submissa ao acatar, do começo ao patético fim, as ordens de um governo capaz fazer tudo e qualquer coisa para garantir os interesses da burguesia nacional e do imperialismo, os maiores interessados e beneficiados pela opressão racial.

“Descartável”, na medida em que se sujeitou a fazer o papel de símbolo de combate ao racismo num governo que não só não tem feito nada para combater efetivamente o racismo, como, na prática, tem contribuído, e muito, para o aprofundamento do abismo sócio-econômico entre brancos e negros.

São estas e muitas outras que nos levam a não ter nenhuma solidariedade com Matilde Ribeiro no momento de sua demissão. Muito menos cairmos na cilada de analisar o episódio como um ataque à luta anti-racista e a seus militantes. Não temos nada a ver com isso.

Gostem ou não os governistas, há muito Matilde Ribeiro optou por não ser uma “das nossas”. Ela e seus aliados no movimento negro escolheram um caminho sem saída no que se refere à luta por sua sociedade livre e sem opressão: a aliança com os representantes e herdeiros diretos dos senhores escravocratas; a venda da falsa ilusão de que é possível derrotar o racismo sob o sistema econômico e político vigente.

Uma história que, lamentavelmente, tem passado. Lembra a postura daqueles que, ao invés de se juntarem aos quilombolas, decidiram servir amistosamente seus senhores, em todo e qualquer tipo de serviço. Assim como antes, sempre houve uma única saída para quem se enveredou por esta trilha: romper com os “senhores” e organizar a resistência.

Matilde Ribeiro escolheu não fazer nem uma coisa nem outra. Pelo contrário. Submeteu-se até o fim, assumindo, inclusive, a culpa para si. Sacrificou-se para proteger os outros ministros e seus senhores.

Um final patético de um espetáculo “pra inglês ver”
O visível constrangimento de Matilde na coletiva de imprensa que encerrou sua passagem pelo ministério foi apenas um reflexo da situação que ela contribuiu para criar. Depois de pressionada por todos os lados para oferecer seu pescoço para a degola, numa tentativa de tirar os holofotes do governo, a ministra leu uma carta em que negou estar arrependida e apontou dois de seus funcionários (o assessor de Projetos Especiais Antônio da Silva e o Subsecretário de Planejamento Carlos Eduardo Trindade) por terem induzido-a ao “erro administrativo”. Um velho método usado pela patronal com quem ela conviveu tanto tempo.

E também uma mentira, de pernas curtíssimas, na medida em que se sabe que as despesas de Matilde foram, majoritariamente, feitas para uso particular: restaurantes chiques, carrões de aluguel, presentes importados e outros itens condizentes com seu atual “estilo de vida”. A farsa, inclusive, revoltou seus próprios assessores que, ao contrário do que costuma ocorrer neste tipo de cerimônia, não ofereceram um único aplauso ao discurso da ministra.

O fato é que com a saída de Matilde, o governo está tentando colocar um fim num escândalo no qual, certamente, a ministra é peixe miudíssimo. Afinal, no total, estamos falando de R$ 75,6 milhões gastos em cartões somente em 2007. Por ter ajudado na manobra e como recompensa à lealdade da ministra, Lula emitiu uma nota declarando seu “apreço e confiança” e “aceitando” a demissão.

Esse final patético, infelizmente, é plenamente coerente com a trajetória de Matilde e da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial. Último ministério criado por Lula, em março de 2003, a Seppir não tem sido nada mais do que uma “vitrine” cheia de atrativos “pra inglês ver” mas que não tem nada a ver com a luta contra o racismo.

Diga-se de passagem, até mesmo tudo o que Matilde e parte do movimento negro querem colocar em seus currículos como “vitórias” sob o governo Lula, tem uma história muito diferente. A luta pelas cotas, por exemplo, tem décadas e, na verdade, o projeto do governo – até hoje não votado – rebaixa reivindicações históricas, distorcendo-as através de absurdos como o ProUni. A luta quilombola, por sua vez, é centenária e também está enfrentando obstáculos no governo Lula.

Praticamente sem orçamento – depende das migalhas e restos da Casa Grande instalada na Secretaria da Presidência – e totalmente submisso à cúpula do governo, a Seppir tem resumido sua atuação a uma infinidade de conferências, debates, palestras e afins que, via de regra, só servem para maravilhar a imprensa internacional.

Mesmo com o minguado orçamento do Seppir, Matilde conseguiu uma “economia” impressionante. No ano passado, por exemplo, ela só utilizou 38% do previsto para a Seppir. O resto, com certeza, foi aproveitado pelo governo Lula para saldar seus compromissos, como o recorde na economia para o superávit primário de 2007.

Em tempo: a hipocrisia do PCdoB
O terceiro na lista de gastadores de dinheiro público, o Ministro dos Esportes, Orlando Silva, também negro, deu mais um exemplo do grau de sujeição e hipocrisia que caracterizam este governo. Fiel à lógica de que é melhor perder os anéis do que os dedos, Orlando anunciou que irá devolver aos cofres públicos os cerca de R$ 31 mil que gastou entre 2006 e 2007, em suas importantes reuniões oficiais (como alega) em restaurantes luxuosos, lanchonetes e choperias.

A justificativa do ministro para seus gastos poderia ser cômica se não fosse trágica. Orlando apresentou para as câmeras dois cartões e alegou que tudo foi culpa de sua distração que o fez, muitas vezes, confundir o seu cartão pessoal com aquele carregado de dinheiro público.