Marina Silva e a #Rede: nada de novo na política brasileira

    No último dia 16 de fevereiro foi lançado, e amplamente divulgado pela grande imprensa, o partido de Marina Silva, chamado Rede Sustentabilidade ou simplesmente #Rede. A agremiação nasce buscando vender uma imagem de que é novidade na política brasileira, expressão no País dos movimentos por mudanças sociais em outras partes do mundo. Não se pode, contudo, julgar as pessoas pelo que dizem de si mesmos. É preciso ver o que fazem na prática cotidiana. Desse ponto de vista, o 31º partido brasileiro já nasce um tanto quanto velho.

    “Nem direita, nem esquerda”?
    Entre as propostas apresentadas até agora, o partido de Marina defende “mudanças no modelo econômico para a construção de um projeto de desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável”. Além disso, prega a valorização dos trabalhadores, a “ampliação dos processos de participação da sociedade nas decisões do governo” e o respeito aos direitos humanos.
    No ato de lançamento, a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula também fez declarações curiosas sobre a localização do partido no cenário político nacional, afirmando que ele não seria “nem de esquerda, nem de direita”, apoiando o governo no que “fizesse de bom”.
    Além disso, afirmou que a Rede não é “nem oposição, nem situação” a Dilma. Esse tipo de afirmação já foi feita em outras ocasiões pela ex-ministra, quando dizia que o importante mesmo era ter “posição”. Ora, já conhecemos as posições de Marina em diversos temas fundamentais para os trabalhadores e a juventude brasileiros.
    Foi nos anos em que Marina esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente que foi aprovado o projeto Gestão de Florestas Públicas, que concede ao grande capital o direito de explorar terras na Amazônia por 70 anos.    
    “Nós sofremos um golpe, uma traição muito grande, inclusive pela Marina Silva, que criou a Lei de Florestas Públicas, a qual privatiza 50 milhões de hectares de floresta para fazer a biopirataria (…)A criação da Lei de Florestas Públicas, da Marina Silva, facilitou a concessão para desmatar a região. Essa concessão dura 40 anos, e ao fim deste prazo, após explorar tudo o que poderia, ela pode ser renovada por mais 30 anos. Então, a Lei privatiza a Amazônia por pelo menos 70 anos. Isso vai destruir com culturas milenares que vivem nesses locais”, denuncia Osmarino Amâncio, conhecido líder seringueiro que militou ao lado de Chico Mendes, atualmente filiado do PSTU, em entrevista concedida a Flavia Ali (leia mais osmarinofloresta.wordpress.com).
    Quando Marina foi candidata à presidência em 2010, apresentou um programa econômico que em nada se diferenciava do proposto pelas principais candidaturas. Defendia, por exemplo, a manutenção do fator previdenciário, criado ainda no governo Fernando Henrique e que obriga os trabalhadores a se aposentarem cada vez mais tarde.  
    Marina é bastante coerente com toda sua história recente. Isso está bem explícito nas principais parcerias na fundação da #Rede.
     
    #Rede: um partido de empresários
    Foi muito divulgada a opção do partido de não aceitar financiamento de empresas “sujas”, como as da indústria de armas, bebidas e poluidoras do meio ambiente. No entanto, nada é dito sobre receber dinheiro de grandes empreiteiras, sabidamente envolvidas em diversos problemas ambientais e trabalhistas.
    Isso não seria uma novidade na trajetória de Marina, já que em sua campanha presidencial, há três anos, a Andrade Gutierrez investiu R$  1,1 milhão de reais e a Camargo Correa, com R$ 1 milhão.
    Entre os apoiadores do projeto “marinista”, estão de fundadores do PSDB, como o deputado Walter Feldman (SP), passando por uma herdeira do banco Itaú, Maria Alice Setúbal, até Guilherme Leal, candidato à vice de Marina em 2010 e dono da Natura, empresa que em 2009 foi denunciada pelo Ministério Público Federal de biopirataria. Com essa compania, embora já fosse público, não deixa de ser lamentável a adesão total da vereadora do PSOL em Maceió (AL), Heloísa Helena, a este projeto: no ato do dia 16, Heloísa chegou a afirmar que seria um “soldado conduzido por Marina”, conforme divulgou a imprensa.

    Vale lembrar que a relação de Marina com figuras do PSOL não é algo novo. Em 2012, Marina apareceu na televisão para declarar apoio a mais de um candidato desse partido, como Jefferson Moura, no Rio de Janeiro, e Edmilson Rodrigues, em Belém, concretizando uma relação que já havia sido ensaiada desde 2010, quando o PSOL chegou a discutir o apoio à candidatura de Marina, na época no PV, à presidência da República.       

    Sem diferenças
    Embora diga defender um novo modo de fazer política, o partido de Marina nada tem de fundamentalmente diferente da maioria dos partidos existentes hoje é ligado não aos trabalhadores, mas ao empresariado, e sem propostas que realmente rompam com a política econômica que destrói o meio ambiente, a novidade tem tudo para ficar só na promessa.
     

    Post author Israel da Silva Luz, de São Paulo
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