Mandela: Da liberdade ao novo apartheid


A morte de Nelson Mandela fez com que muitos negros e negras se emocionassem diante da perda deste ícone que simboliza o fim do regime de apartheid na África do Sul. Respeitamos o sentimento destas pessoas, assim como entendemos a grande vitória que Nelson Mandela conseguiu.

Contudo, não podemos nos furtar de colocar as contradições que existiram após o fim do apartheid. A luta dos trabalhadores faz com seja necessário expor o que a mídia burguesa constrói. Os veículos de informação da burguesia não mostram que o apartheid ainda é vigente neste país e que ele se traduz ainda cultural e economicamente. Esta mídia congela a história e coroa Mandela como se a liberdade plena tivesse sido atingida em 1994, fortalecendo o mito da democracia racial.

As contradições de Nelson Mandela já vinham se gestando logo após sua prisão em 1962. Já neste período, Nelson Mandela já negociava com o racista Partido Nacional. A saída conciliatória com a burguesia branca teve início com o freio das mobilizações e greves da década de 80. Com a chegada dos anos 90, foi dado início a um período de “transição” que culminou com a queda do regime do apartheid em 1994. O fim destes bárbaros hábitos imputados aos negros para garantir o monopólio do poder político e econômico do país foi intermediado por Nelson Mandela, este perdoando os maus tratos sofridos.

Com apoio massivo e muitas expectativas de negros e negras, o CNA (Conselho Nacional Africano), em nome da “reconciliação”, transformou os seus ex-carrascos da burguesia branca em parceiros e sócios na administração do Estado e na implementação do neoliberalismo. A partir de então, apenas medidas compensatórias foram implementadas, ocorrendo ainda a formação de uma classe média e também burguesia negra corrupta. Este desfecho, que Mandela e seu partido o CNA encontraram, conteve a insurgência dos negros e negras trabalhadores nos limites da democracia burguesa.

Com o fim do apartheid, o que se viu na África do Sul foi o acirramento da pobreza, hoje com 40% da população desempregada e 30% vivendo abaixo dos níveis da miséria. Além disso, o CNA é responsável pela criminalização dos movimentos sociais. Em 2012 criminalizou a greve dos mineiros de Marikana sendo responsável por 34 mortes e centenas de feridos. A principal cadeira do CNA é ocupada por Cyril Ramaphosa um dos negociadores do fim do apartheid junto a Mandela. Ramaphosa, um bilionário, é dono da Lonmin, uma gigante da mineração em Marikana e também um dos fundadores do Sindicato Nacional dos Mineiros.

Um dia antes do massacre, Ramaphosa enviou uma mensagem a um diretor da mineradora demonstrando como este partido trata a causa dos trabalhadores: “Os terríveis eventos que estão acontecendo não podem ser descritos com uma disputa trabalhista. Eles são claramente vis e criminosos e devem ser caracterizados desta forma. Por isso a necessidade de ações concomitantes”.

Não nos enganemos que basta um negro presidir um país para assegurar o fim da desigualdade racial. Obama é hoje o presidente mais poderoso do mundo, e nesse posto garante a desigualdade racial e a superexploração de negros e negras pelas multinacionais. Mandela, apesar de ter origens diferentes da de Obama, se deteve aos limites do sistema e sua política de governar para a burguesia fez com que o abismo da desigualdade entre negros e brancos permanecesse.

As ações de Mandela merecem ser lembradas para que não nos enganemos com os erros que ainda são cometidos, como vemos em Lula e Dilma, ambos com discursos claros de governar para todos. Mandela ajudou a libertar seu povo, contudo, assim como Lula e Dilma, deu esmolas com a mão esquerda aos trabalhadores e garantiu o fortalecimento da burguesia com a mão direita, garantindo inclusive que negros explorassem negros. A saída conciliatória de Mandela fez com que o apartheid tomasse uma outra faceta, incluindo marginalmente negros e negras.

A morte de Mandela rememora a incansável luta por liberdade do povo negro. Mas esta luta não terá fim enquanto vigorar o capitalismo. Por isto, a luta dos trabalhadores negros é também a luta por uma nova sociedade, uma sociedade socialista, onde as diferenças não serão utilizadas para oprimir e superexplorar outros povos. Assim, devemos combater de conjunto o racismo e o capitalismo. Como disse Malcom X: “Não há capitalismo sem racismo”.

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