Mancha: `Trabalhadores da GM se decepcionaram com o governo Lula`

Entrevistamos Luís Carlos Prates, o Mancha, presidente do sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e dirigente do PSTU

OP- Após sete dias de greve qual é a avaliação do movimento?

Mancha- O movimento nasceu dentro da fábrica e com muita força e participação e organização dos trabalhadores. Isto foi a chave para que diante de todas as barreiras encontradas no decorrer da luta, podermos dizer que foi extremamente positivo.
Os trabalhadores superaram a decisão do Tribunal que considerou a greve abusiva, resistiram as pressões da direção da empresa que enviou carta a todos os trabalhadores para pressionar desde suas famílias e colocou a polícia. Superamos também as pressões políticas, ganhamos a simpatia dos trabalhadores de toda região e ao final o TST revogou a decisão de abusividade da greve. E com a luta saímos com um acordo superior a proposta inicial da empresa.

Qual foi o papel da direção da FEM (Federação Metalúrgicos da CUT), dirigida pela Articulação, e o da direção da CUT?

A direção da CUT apoiou formalmente a luta, ao mesmo tempo em que declaravam a imprensa que eram contra o gatilho (reajuste de acordo com a inflação). No caso da FEM houve dois momentos na postura desta entidade.
Num primeiro momento estavam contra a campanha salarial de emergência e qualquer tipo de reajuste nos salários.
Quando iniciaram as greves em São Paulo e os sindicatos ligados a Força Sindical e o Sindicato de São José colocou a campanha pelo reajuste na rua, entregando a pauta a FIESP, eles passaram a reivindicar um abono de 40 horas equivalente a 20% do salário, inferior ao que reivindicávamos. Sempre atuaram com a intenção de dividir os trabalhadores.
Na base de seus sindicatos, em particular no ABC, não realizaram assembléias, não discutiram a proposta com suas bases. Não mobilizaram, não fizeram greve.
No caso das montadoras a proposta de 40 horas de abono foi sendo modificada pela pressão de São José, o que levou a extensão de nossas reivindicações para o conjunto das montadoras. A greve na GM foi decisiva para isso, enquanto desde o ABC não foi feito absolutamente nada, se beneficiaram da greve da GM que obrigou a patronal a modificar a proposta.
Além disso fizeram um acordo secreto com a patronal, assinaram um pré-acordo pelas costas do movimento. Este pacto selava a negociação ao definir que se alguma fábrica fizesse qualquer concessão por fora das negociações do SINFAVEA este estaria obrigado a estendê-lo para todas.

Quais as conseqüências deste pré acordo para o movimento?

Quando estávamos na mesa negociando, a patronal afirmava que era impossível conceder o reajuste a GM na medida em que o sindicato de São Bernardo já havia assinado um pré acordo.

Como você qualifica este tipo de atitude?

Olha, não sou somente eu que estou indignado, são os trabalhadores da GM e do Vale e acredito que se a base do ABC souber disso também ficará indignada. Eles estavam contra reivindicar, depois entraram pedindo um abono de 40 horas, saíram com bem mais do que pediam, estavam contra a luta e se beneficiaram dela. Quem faz isso na fábrica é fura greve.
Chegamos ao ponto em que o presidente do sindicato dos metalúrgicos de Taubaté, da CUT e da Articulação, declarar a imprensa que estava “contra a greve pois estava fora de data-base” como qualquer fura-greve chama a luta de aventureira.

Nos fale sobre a postura do governo na greve.

No inicio do movimento Palocci declarou que estava preocupado com os reajustes salariais, por causa da inflação. Reforçou assim a postura dos empresários das montadoras que não queriam conceder nenhum tipo de aumento, somente abono. Foi uma interferência a favor das empresas.
Num segundo momento o ministro do trabalho se manifestou publicamente contra o gatilho dizendo que se houvesse algum acordo neste sentido o governo iria intervir.
O governo e seu ministro do trabalho nunca falaram em intervir quando os patrões aumentam os preços.
Os trabalhadores da GM estão decepcionados com o governo.

Mas segundo o ministro o governo ia mediar?

O ministro do trabalho estava preocupado fundamentalmente com duas questões. Com a paralisação da GM de São José, outras duas fábricas do grupo foram obrigadas a parar a produção (Gravataí- RS e São Caetano-SP) e com a repercussão nacional da greve, pois outras montadoras no Paraná e outras fábricas de São Paulo também estavam paradas.
Assim a grande preocupação foi de como abortar o movimento. A preocupação central foi sempre a possibilidade da generalização da luta. Foi uma atitude vergonhosa. Jacques Wagner pareceu mais um ministro do capital do que do trabalho.

Qual a importância do movimento?

A greve da GM ocorre junto com varias outras greves no Paraná e São Paulo. O que demostra um sentimento de luta dos trabalhadores. Apesar do cerco a luta salarial os empresários foram obrigados a ceder. Agora está aberta possibilidades para outras categorias como os químicos que entram em campanha.

Qual a situação na fábrica?

Após a suspensão da greve a disposição e ânimo dos trabalhadores permanecem. Voltamos de cabeça erguida porque houve um compreensão política dos acontecimentos, os trabalhadores perceberam claramente o papel dos empresários, da direção majoritária da CUT e do governo de sabotar a luta.
Neste contexto, da direção da CUT, se deve mencionar que nem todos os dirigentes da central tiveram a mesma atitude. O Zé Maria este presente nas assembléias, na porta da fábrica e nos momentos decisivos de nossa luta.
O os trabalhadores saíram de cabeça e erguida e essa é a garantia de que haverá um bom acordo.

E por falar em CUT aí vem o congresso nacional. Que lições se pode tirar desta luta para o congresso?

Esta campanha de emergência mostrou duas CUTs em ação. Uma representada pela Articulação Sindical, vinculada ao governo, que abre mão até das reivindicações mínimas dos trabalhadores, em troca de uma hipotética estabilidade econômica, na qual nós uma vez mais estamos sendo chamados a pagar o preço. Por estabilidade entendem manter os lucros dos patrões.

E uma outra CUT que não está disposta a isso. A CUT “oficial” substituiu a mobilização dos trabalhadores, as assembléias, por acordos secretos com os empresários contra os trabalhadores. Pela primeira vez os sindicatos da CUT estiveram de fora de uma luta sindical por reajuste, abrindo espaço para a Força Sindical. Pela primeira vez os metalúrgicos do ABC, uma categoria que tem história neste país, fizeram um acordo sem nenhuma mobilização.

Tudo isto é somente uma pequena amostra do significado de Marinho na presidência da CUT, indicado pelo governo. Por isso cada vez mais a esquerda da CUT deve estar unida e derrotar a CUT chapa branca.

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