“Mal menor” traz o maior de todos os males

O início de um ano eleitoral, quando ainda não existem grandes lutas das massas, possibilita que o governo e a oposição burguesa (PSDB-PFL) busquem canalizar as insatisfações por dentro da democracia burguesa, a democracia dos ricos.

Assim, muitos setores de massas começam a pensar sobre o país e sobre o governo com base em um raciocínio eleitoral: como votar para que fulano ganhe ou para evitar que sicrano perca as eleições. Trata-se de uma ilusão completa: pelas urnas, não se muda o país.

O desencanto atual em relação aos “políticos” ajudaria a chegar a essa conclusão em relação às eleições, caso existissem grandes lutas sociais. Aí, os trabalhadores e os jovens, além de negar a miséria e a corrupção da democracia burguesa, poderiam ter condições de enxergar uma alternativa distinta, produto de sua própria mobilização.

Isso, porém, ainda não existe hoje, o que possibilita aos partidos reformistas (como PT e PCdoB) e da oposição burguesa (PSDB-PFL) empurrem toda a crise para uma disputa eleitoral.

É isso que as conversas no interior das fábricas, escolas, bancos começam a expressar: a discussão eleitoral. E, nessas conversas, já se pode identificar uma discussão que pode ser perigosíssima para os trabalhadores. Trata-se do “mal menor”. Em essência, diz-se com muita freqüência: “é preciso evitar que a direita volte” e isso justificaria, novamente, o voto em Lula. Mesmo que tenha que ser com o nariz tapado.

Na verdade, o “mal menor” é uma das tradições políticas do país. Tão velha quanto a corrupção, tão velha como a compra de votos. Tão responsável, também, pela manutenção das coisas assim como estão.

Sim, porque essa prática não é nova, tem uma história. Aliás, uma história não muito recomendável, e muito freqüentemente esquecida. O MDB (antecessor do PMDB) defendeu com toda sua força essa idéia, para que os trabalhadores não votassem no PT (um partido novo que surgia) para evitar que “ganhasse a direita, a Arena” (antecessora do PP e do PFL). Caso essa lógica fosse vitoriosa, o PT não existiria.
Esta é a lógica do velho, usada para evitar o novo. Na manutenção do regime, da estrutura atual, é preferível que ganhe um “menos pior”, o mal menor.

O problema é que o que está em discussão é exatamente o regime (a democracia burguesa), a política econômica e a corrupção. Não é só o governo que está em questão. Essa lógica do “mal menor” significa a manutenção da democracia dos ricos, a mesma política econômica, a mesma corrupção.

Triste história do brasileiro se tiver que optar entre levar um tiro ou tomar uma facada. Não pode ser que tenhamos que escolher entre um furacão e um maremoto. Um ser humano normal deve preferir se defender dos dois, os trabalhadores brasileiros devem querer uma alternativa.

Qual seria preferível: um superávit de 4,5% de um novo governo Lula, ou um superávit de 4,5% em um governo Serra? Como escolher entre a corrupção de um Delúbio Soares ou um de Ricardo Sérgio (tesoureiro da campanha de Serra e FHC)?
O “mal menor” é o alimento do mal maior, a manutenção de tudo o que está aí. É a vitória da corrupção que horrorizou o país no ano passado, e da pizza que está sendo imposta agora. É a vitória do arrocho salarial, do desemprego, da submissão a Bush. É preciso construir, já, uma terceira força, uma alternativa de esquerda, para evitar que essa ideologia seja vitoriosa.

Chamamos os trabalhadores e jovens deste país a construirmos esta terceira força, para encararmos juntos as lutas e as eleições. Queremos convocar o P-SOL e sua candidata Heloísa Helena a se somar a esse esforço unitário. Queremos propor ao MST que rompa com o governo e se some a uma alternativa de esquerda.

Essa frente de esquerda precisa buscar, em primeiro lugar, apoiar e impulsionar as lutas diretas por salário, emprego e terra dos trabalhadores da cidade e do campo. Apoiar as mobilizações contra a reforma Universitária e pelo passe-livre dos estudantes.

Da mesma forma, essa frente deve impulsionar o surgimento de uma alternativa de direção, perante a falência da CUT, da Força Sindical e da UNE. Não se pode também optar entre a CUT de Marinho e a Força Sindical de Paulinho. O Conat, que vai se reunir em maio para constituir, de maneira definitiva, a Conlutas é a expressão de uma nova direção, necessária para as lutas.

Por fim, é necessário também ter uma alternativa eleitoral. Com as eleições, não se vai mudar o mundo, como sabemos. Mas isso não justifica que devamos abandonar esse campo de batalha, ainda que não seja o nosso. Essa frente de esquerda deve ter um perfil classista, rejeitando os acordos com os partidos burgueses. Não se pode repetir os passos do PT, fazendo coligações com partidos burgueses, como o PDT, sempre em busca de vitórias eleitorais a qualquer custo. Deu no que deu.
A frente deveria também ter um programa que sintetizasse as reivindicações mais sentidas dos trabalhadores e apontasse para a perspectiva de um governo socialista dos trabalhadores.

Negar-se a constituir uma frente dessa importância significa fortalecer a idéia do “mal menor”. Uma postura sectária neste momento enfraquecerá a construção da unidade ao redor de uma alternativa forte e unitária da esquerda e favorecerá a falsa polarização entre o PT e o PSDB-PFL.

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