Lutas estudantis incendeiam o estado de São Paulo neste final de ano

Mobilização estudantil na Unifesp

O ano de 2010 foi marcado pelo peso do governo. O debate das eleições presidenciais deste ano tinha como tom principal “quem vai dar melhor prosseguimento ao governo Lula”. Lula terminará seu segundo mandato ainda com aprovação recorde.

Este cenário teve efeitos importantes sobre as universidades e o movimento estudantil. Em seus oito anos de governo, Lula realizou uma série de ataques à Educação e enfrentou a resistência dos estudantes. O ano de 2007 foi um ano de grandes enfrentamentos, com dezenas de ocupações de reitoria em todo o país contra o REUNI, carro-chefe da política educacional do governo.

Neste ano, por outro lado, não vimos grandes mobilizações estudantis. O ano foi “morno”, com lutas dispersas e já não mais com o mesmo fôlego de 2007. Mas, por trás de todo o apoio que existe ao governo, ainda estão os efeitos dos ataques de Lula à educação.

Assim, uma série de mobilizações estudantis voltam a surgir com força em todo o estado de São Paulo. São mobilizações nos diversos campi da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), nas universidades estaduais e também em universidades privadas, que mostram a disposição do movimento estudantil paulista em enfrentar a política educacional do governo federal e também do governo do PSDB no Estado.

Greve na UNIFESP – Uma outra expansão é possível! Abaixo o REUNI!
O movimento estudantil da UNIFESP está mobilizado. No dia 28 de outubro realizou-se em São Paulo uma Assembléia Geral Estudantil que votou indicativo de greve geral para a próxima semana e um ato unificado para o dia 9 de novembro.

A greve, que se iniciou no campus da Baixada Santista, se espalhou para outros campi, como Guarulhos, onde os estudantes já se decidiram pela greve, e Diadema, onde o movimento está se iniciando. A partir da última assembléia, a expectativa é que o movimento também contagie outros campi, como São Paulo e São José dos Campos.

A principal pauta da mobilização são os diversos problemas de infra-estrutura, resultado da política de expansão dos campi sem qualidade, verbas ou planejamento. Assim, todos os campi têm vários problemas em comum: os alunos estão estudando em prédios provisórios e muitos campi não têm nenhuma política de assistência estudantil.

Mas esses problemas não são “privilégio” apenas dos estudantes da UNIFESP. Em todo o país há problemas como esses nas universidades federais. Esses problemas têm nome: Reuni. O decreto do Governo Federal expandiu as universidades federais sem o incremento orçamentário necessário, gerando situações como as dos estudantes da UNIFESP que agora estão em luta exigindo uma expansão de qualidade e políticas efetivas de permanência estudantil.

Os primeiros passos o movimento já deu. De início, os estudantes se juntaram ao ato em defesa do ANDES-SN, em Brasília, e – com apoio da ANEL mobilizaram dois ônibus rumo à capital federal. No MEC, uma comissão foi recebida pela Secretaria do Ensino Superior e apresentou ao governo sua pauta de reivindicações. Agora, a criação do comitê unificado de mobilização deve servir para fortalecer a luta dos campi que já estão em greve e mobilizar e construir a greve nos campi onde ela ainda não sei iniciou. O próximo passo são as assembléias de campi na próxima semana e construir uma grande manifestação para o dia 9 para conquistar a negociação com a reitoria.

A luta nas estaduais paulistas
E também há mobilizações acontecendo nas estaduais paulistas. Na Unicamp, os estudantes foram surpreendidos no último dia 21 de outubro pela presença de três viaturas da Polícia Militar no campus que foram cumprir uma ordem judicial para impedir a realização do IFCHSTOCK, festival tradicional organizado pelos estudantes e que já está em sua quinta edição.

A ordem judicial foi proferida por pressão da AMOC (Associação de Moradores do bairro de Barão Geraldo, onde fica a UNICAMP). Mas sabemos que a reitoria da UNICAMP também não quer a realização do festival.

Poucos dias depois da invasão da PM, o diretor do Instituto de Economia da universidade foi chamado pela reitoria a nomear os estudantes do CA de Economia que haviam organizado, em 2008, um encontro de baterias estudantis. Com isso, a reitoria demonstra os métodos anti-democráticos com os quais trata as manifestações estudantis, sejam elas políticas e/ou culturais. Agora ameaça com sindicância os estudantes que estão organizando o IFCHSTOCK, mas já se utilizou antes desses mesmos métodos para ameaçar estudantes que participaram de mobilizações e ocupações de reitoria.

Os estudantes de economia exigiram o comprometimento do diretor do Instituto para que não entregasse os nomes à reitoria e, diante da negativa, se organizaram e estão em greve. Estudantes do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) também decidiram paralisar as atividades para lutar contra a repressão e por democracia na universidade.

Na UNESP, os problemas com relação à assistência estudantil se arrastam há muito tempo. Mobilizados, os estudantes de diversos campi, espalhados por todo o interior do Estado, realizaram no último dia 15 de outubro um ato unificado em frente à reitoria da UNESP, em São Paulo.

Uma comissão de estudantes foi recebida por representantes da reitoria e agendaram uma reunião para o próximo dia 17 de novembro, agora com o próprio reitor, para apresentar a pauta de reivindicações do DCE. Enquanto isso, o ato era constantemente ameaçado por policiais militares que queriam impedir que a manifestação fechasse a rua.

É assim que o governo do PSDB trata os estudantes das universidades paulistas que lutam: como caso de polícia. Foi assim com a USP em 2007 e está sendo assim com os estudantes da UNICAMP que querem organizar um festival cultural e com os estudantes da UNESP que lutam por assistência estudantil aos estudantes carentes.

Importantes mobilizações em universidades particulares
E não é só em universidades públicas que os estudantes estão mobilizados. Em algumas universidades particulares, o movimento estudantil também está em luta.

É o caso dos estudantes de jornalismo da PUC-SP que estão em greve, juntamente aos professores do departamento de jornalismo da universidade. A mobilização é contra a resistência do CONSAD (Conselho de Administração) em implementar a Agência de Jornalismo, laboratório destinado aos alunos do curso. O projeto se arrasta desde 2006.

Além disso, os estudantes incorporaram à sua pauta de reivindicações a luta pela redução das mensalidades, abertura imediata de edital de bolsas, pautas essas que são tema de mobilização em vários cursos da universidade. Recentemente, alunos de diversos cursos organizaram um abaixo-assinado, e coletaram mais de 2 mil assinaturas.

No Vale do Paraíba, outras duas instituições privadas passam por mobilizações estudantis. Na UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba) e na UNITAU (Universidade de Taubaté), os estudantes lutam contra o aumento abusivo de mensalidades.

Na UNIVAP, inclusive, a reitoria teve que recuar de sua proposta de aumento após dois dias de mobilização estudantil. O aumento de 17% nas mensalidades de 2011 foi contestado pelos estudantes que se organizaram e impuseram um recuo para a reitoria, que agora criou uma comissão para rever os índices do reajuste.

No dia 3 os estudantes realizam uma assembléia para decidir os próximos passos do movimento, frente à atitude da reitoria. É preciso que os estudantes sigam mobilizados para não permitir novos ataques.

Na UNITAU, a situação não é diferente. A reitoria também propôs aumento abusivo e os estudantes começam a se mobilizar. É preciso se apoiar na mobilização dos estudantes da UNIVAP e também impor uma derrota à reitoria.

O papel da ANEL-SP nessas mobilizações
Como era de se esperar, a União Nacional dos Estudantes não vem cumprindo papel algum em nenhuma dessas importantes mobilizações. A ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre), por outro lado, tem buscado impulsioná-las.

Mais do que a importância específica de cada uma dessas lutas, é preciso enxergar o potencial que elas têm de contagiar o conjunto do movimento estudantil paulista para as lutas que ainda virão.

Nunca é demais lembrar que o próximo ano pode ser muito importante. Seja porque teremos um primeiro ano de governo Geraldo Alckmin (PSDB), aqui em São Paulo, seja porque teremos mais quatro anos de governo do PT, com a recente eleição de Dilma Roussef, a nível federal. Não temos dúvida que essa dupla vai seguir atacando a Educação, como foi feito nos últimos anos por seus antecessores. E é preciso, desde já, organizar a resistência.

Mas, por outro lado, ano que vem também é ano de 1º Congresso da ANEL. Esse pode ser um Congresso muito importante para a entidade e para o movimento estudantil brasileiro organizar as lutas que virão no ano que vem. A construção do Congresso deve se basear nessas lutas.

Por isso, cada uma dessas mobilizações que estão acontecendo nesse final de 2010, pode ser um importante instrumento para preparar as mobilizações de 2011. A ANEL tem que atuar nessas mobilizações, a fim de impulsioná-las e de unificá-las, afinal, a despeito de suas particularidades, todas elas têm inimigos comuns: os governos e as reitorias que implementam as políticas de ataque à educação.

No próximo dia 6 de novembro, a ANEL-SP realizará sua 3ª Assembléia Estadual, em São Paulo. Essa Assembléia deve servir como um ponto de apoio para as mobilizações que estão acontecendo em todo o Estado. É preciso fazer o convite para que o ativismo dessas lutas participe da Assembléia, para que possamos fazer da ANEL, cada dia mais, uma alternativa de organização para as principais mobilizações estudantis do Estado de São Paulo e de todo o Brasil.