Luís Carlos Prates: “No dia 28, precisamos fortalecer a luta contra a retirada de direitos”

Luís Carlos Prates, o Mancha
Arquivo PSTU

A General Motors (GM) é um exemplo de multinacional que cresce e ganha cada vez mais dinheiro no Brasil. Em 2007, enquanto o setor automobilístico batia recorde de vendas, um em cada cinco carros vendidos no país era da GM. Apesar desse resultado, a empresa partiu para uma ofensiva contra os direitos dos trabalhadores. Em São José dos Campos (SP), a montadora quer implantar o banco de horas e reduzir salários. Tentaram chantagear os trabalhadores, oferecendo a abertura de 600 novas vagas em troca dessas medidas.

Os trabalhadores da GM e o Sindicato dos Metalúrgicos, porém, não aceitaram esse ataque e estão enfrentando a fúria da multinacional, aliada ao governo, à Igreja e ao empresariado da cidade. Agora, a empresa ameaça os próprios empregos dos operários. Para se contrapor a isso, o sindicato lançou junto à Conlutas e demais entidades, uma campanha nacional contra a retirada de direitos e em defesa dos empregos. Em abril, dirigentes do sindicato e da Conlutas viajaram para o Equador e os Estados Unidos, a fim de divulgar a campanha e coordenar a luta a nível internacional.

O Opinião Socialista conversou com Luiz Carlos Prates, o “Mancha”, da direção do sindicato, que falou sobre a viagem, os rumos da campanha e como os ataques da GM ocorrem em todo o mundo.

Opinião Socialista – Como estão os ataques da GM hoje no Brasil e, especificamente, em São José dos Campos?
Mancha
– A empresa continua na campanha de ameaça. Está fazendo um verdadeiro terrorismo contra os trabalhadores. Diariamente, dentro da empresa, eles estão fazendo essa campanha, pressionando os trabalhadores, dizendo que, se não foram aceitas as propostas da empresa que a possibilidade de fechamento da fábrica. O que é um absurdo, num momento em que há crescimento das vendas e da produção e incentivo por parte do governo. Agora, inclusive, não acenam nem com a possibilidade de abertura de vagas, mas somente a manutenção dos atuais empregos. Mas os trabalhadores saberão rechaçar isso.

Como foi a viagem aos EUA e quais as atividades que vocês participaram lá?
Mancha
– Participamos de uma conferência que reuniu trabalhadores de todo os EUA e de várias partes do mudo, aonde percebemos uma unidade na política das multinacionais e, particularmente, da General Motors. Tem vários casos que mostram isso. O primeiro da greve da Axle, uma empresa de autopeças que provocou a paralisação de 30 fábricas da GM e várias outras empresas. O motivo dessa greve é que os patrões querem reduzir o salário-hora, de 32 dólares para 14, alegando que as empresas concorrentes já haviam feito isso e eles tinham que fazer também.

Outra mobilização é a resistência contra a demissão de cinco dirigentes sindicais que lideraram uma forte greve no ano passado. O que se pode verificar nos EUA é que nos últimos anos foram feitos acordos que tem deixado os trabalhadores divididos em duas categorias. Uma que ganha entre 28 e 32 dólares por hora, e uma outra, com os trabalhadores mais novos, com contrato de salário que é metade disso, algo em torno de 14 dólares. Então, essa política vem sendo aplicada com a desculpa de garantir os empregos, garantir que haja produção lá nos EUA, com a cumplicidade das direções de lá.
As empresas japonesas, Toyota e Honda, quando foram para lá se instalaram em regiões aonde não havia sindicatos, com salários mais baixos, semelhante ao que ocorre no Brasil em Gravataí (RS) e Camaçari (BA). É essa a mesma política aplicada em todos os lugares: a redução violenta dos salários dos funcionários. A novidade é a resistência grande por parte dos trabalhadores. Os trabalhadores vêem que, apesar dessa retirada de direitos, as fábricas continuam fechando e as empresas continuam deslocando a produção para outros países.

Como os trabalhadores dos EUA viram a campanha contra a retirada de direitos?
Mancha
– A campanha teve uma receptividade muito boa. A visão que se tem do sindicalismo no Brasil, na visão dos trabalhadores norte-americanos, é que aqui se rouba os empregos deles, que aqui se trabalha com alta produtividade, baixos salários e que o dirigente sindical concorda com isso e colabora com isso. Não deixa de ter um grau de verdade, já que essa é a política das direções majoritárias aqui. À medida que vêem uma fábrica que está lutando com as mesmas reivindicações que eles, contra um mesmo processo que está ocorrendo no mundo todo, ficam bastante solidários. Ficaram muito contentes com nossa campanha, nossa participação e solidariedade. Mostra que é possível ter uma ação internacional de solidariedade.

Qual a realidade dos operários que vocês encontraram nos outros países?
Mancha
– É o mesmo processo que ocorre aqui, ainda que em circunstâncias diferentes. O nível salarial dos EUA, do Equador e aqui, por exemplo, são diferentes, tanto quanto o grau de precarização. Nos EUA há várias conquistas em que é mais difícil mexer. Terceirização lá, por exemplo, é mais difícil, que é o que ocorre mais no Equador e em outros locais. Em grande parte desses locais, as direções sindicais colaboram com as empresas, mas o que começa acontecer é a resistência e começa a surgir também, principalmente nas bases, uma direção que se levanta contra essa situação.

O que a viagem colaborou para a campanha?
Mancha
– Fizemos um chamado a que as organizações dos trabalhadores participem do Elac para que, lá, possamos tomar medidas com maior coordenação. Mas continuamos procurando a todas as entidades, as direções, as oposições, para ter um plano de ação comum, talvez até um dia de luta internacional.

Quais são os próximos passos da campanha?
Mancha
– Temos que ampliar essa resistência, tanto a nível nacional quanto a nível internacional. Agora vai ter o dia 28 de maio, que é um dia de luta e mobilização, vamos colocar as bandeiras que estamos levantando na General Motors: redução da jornada de trabalho mas sem a redução de salários e direitos e sem banco de horas. Além de denunciar as direções sindicais que, ao não terem essa posição, acabam colaborando com as empresas. Então, não é possível falar em redução da jornada sem a redução de direitos e o banco de horas. O dia 28 é muito importante para colocarmos essa luta que ocorre na GM como um exemplo de resistência para o conjunto dos trabalhadores. Também em nível internacional vamos continuar essa campanha. Em todos os fóruns que forem discutir as questões dos trabalhadores, vamos estar presentes levantando essa bandeira de não ao ataque aos diretos e não à flexibilização.

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