Leia os artigos de Altamiro Borges e de Gilberto Maringoni sobre o caso RCTV da Venezuela

Existe uma discussão apaixonante sobre a retirada da concessão da emissora RCTV na Venezuela que pode enriquecer a vanguarda de toda a América Latina. No entanto, qualquer polêmica deve ser feita com argumentos. Infelizmente, ainda sobrevivem os métodos do stalinismo, que envenenam conscientemente qualquer discussão. Gilberto Maringoni, militante do PSOL, usou essa postura numa carta polêmica conosco. O texto de Maringoni foi assumido alegremente pelo PCdoB (o modelo stalinista no Brasil) em matéria assinada por Altamiro Borges, publicada no portal Vermelho, que reproduzimos, abaixo, na íntegra. De qualquer maneira, convidamos Maringoni e Altamiro a escrever nas páginas de nosso jornal e em nosso portal para defender suas posições. Entre outras coisas, porque não somos stalinistas e gostamos do debate…


PSTU lamenta pela RCTV venezuelana

ALTAMIRO BORGES, secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB

“Na sua obsessão por demarcar campos com todos os setores da esquerda, apresentando-se com a “única e pura” organização revolucionária do universo, a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), representada no Brasil pelo PSTU, resolveu fazer coro com a direita mundial na crítica ao fim da concessão pública da RCTV, a emissora golpista e fascista da Venezuela. Num comunicado oficial lançado no final de junho, a organização que se reivindica a herdeira legítima do trotskismo mundial faz duros ataques ao governo de Hugo Chávez, usando argumentos e adjetivos semelhantes aos da mídia burguesa e da oposição golpista daquele país. Apesar do linguajar de esquerda, o documento serve muito bem aos objetivos da direita.

Logo no início, o comunicado reforça a tese liberal-burguesa dos riscos do autoritarismo. “Na Venezuela, está se dando um processo de endurecimento do regime, com o governo tomando medidas para aumentar o seu controle sobre distintos setores, entre eles os meios de comunicação. Uma manifestação clara disso foi o fechamento, por parte do governo, da emissora RCTV no dia 27 de maio”. A LIT-PSTU analisa esta reação concreta à ação golpista da emissora com sua lente dogmática da história. “A experiência histórica mostra que medidas desse tipo, aparentemente populares, acabam se voltando, mais cedo ou mais tarde, contra os interesses dos trabalhadores”. Só faltou usar o bordão de stalinista para rotular Hugo Chávez.

Haja cegueira sectária
O documento até faz algumas ressalvas, mas mantém como alvo central o governo bolivariano e minimiza as manobras da direita. “Com o argumento de que o governo Chávez é um governo popular e que ‘está construindo o socialismo do século 21’, as correntes de esquerda praticamente de conjunto apoiaram a medida. A principal alegação é de que esse era um canal golpista, o que é verdade… Mas fechá-la agora, quando já passou o momento do golpe e não se vislumbra no horizonte qualquer perigo de nova tentativa golpista, é algo que não se justifica. Nada indica que haverá um outro golpe no curto prazo, justamente porque há um acordo entre Chávez e a burguesia golpista para manter o governo”. Haja cegueira sectária!

Na avaliação da LIT-PSTU, Chávez serve à burguesia mundial “como a única alternativa para controlar o movimento de massas… As duras críticas ao fechamento da RCTV vindas da parte do imperialismo, da imprensa internacional e nacional fazem parte da política de desgaste, e não de uma hipotética preparação do clima golpista”. A prova disto, segundo esta seita pouco afeita à habilidade tática, é que o governo não fechou também a emissora Venevisión, de Gustavo Cisneros, “o golpista dos golpistas”. Vladimir Lênin já havia advertido, no inicio do século passado, que um dos maiores defeitos de Leon Trotsky era sua total ausência de “tato político”. Havia muita fraseologia revolucionária e carência total de habilidade tática, de saber explorar as contradições dos inimigos, de dividi-los e neutralizá-los. A LIT-PSTU persiste no erro!

A defesa da “liberdade de imprensa”
O trecho seguinte do texto faria corar até o próprio Trotsky, que nunca perdeu seu referencial de classe na crítica da imprensa burguesa. Usando citações de uma reportagem distorcida da Folha de S.Paulo, afirma que o “fechamento” da RCTV serve “como pretexto para atacar a liberdade de imprensa” e representa, na prática, um ato de censura. Como prova do crescente autoritarismo, a LIT, repetindo a cantilena burguesa, afirma mentirosamente que o governo “agora controla seis” emissoras (não diz que as televisões privadas detêm mais de 80% das transmissões na Venezuela) e puniu “dois institutos de pesquisa” (não explica que ambos são financiados pelos EUA e manipularam recorrentemente as tais “pesquisas de opinião”).

Para justificar sua insólita posição, a LIT-PSTU investe contra as outras correntes de esquerda – inclusive muitas que também se reivindicam de trotskistas. “Quando Chávez decide atacar a liberdade de imprensa, a maioria da esquerda fala de um golpe inexistente para defender o governo e uma de suas medidas mais reacionárias. A maioria da esquerda faz assim um desserviço à causa do socialismo já que deixa a luta pela liberdade de imprensa nas mãos do imperialismo e dos setores mais reacionários da burguesia”. Toda esta fraseologia, porém, não anula o fato de que mais uma vez – a exemplo do que ocorreu na análise da restauração capitalista na URSS ou da revolução da Nicarágua – este partido faz coro com a burguesia.

Ironia mordaz de Maringoni
O jornalista e cartunista Gilberto Maringoni, autor do livro “A Venezuela que se inventa” e integrante da direção nacional do PSOL, foi o primeiro a registrar, indignado, esta posição do PSTU. Numa mensagem eletrônica enviada a três respeitados militantes deste partido – que tive acesso e permissão para divulgar –, ele criticou, de forma irônica e mordaz, a “postura de quinta-coluna dessa gente”. Publico na integra:

“Tenho grande respeito pessoal e político por vocês três. Mas acabo de perder qualquer ilusão sobre a possibilidade de o PSTU integrar um campo progressista ou antiimperialista depois de ler uma patética nota sobre a não renovação da concessão da RCTV pelo governo venezuelano no www.pstu.org.br. Não quero ser precipitado. Aviso a vocês: há um texto abertamente de direita no site do partido. Talvez seja obra de algum hacker que invadiu a página e vocês ainda não estejam sabendo. Vou dizer o que é: trata-se de um ataque ao governo de Hugo Chávez e de apoio velado à Rede Caracas de Televisão. Se não for sabotagem à página do PSTU, a coisa é muito grave!”.

“O governo venezuelano pode ter muitos problemas. Mas indubitavelmente está na linha de frente da luta antiimperialista no mundo, juntamente com os governos de Cuba e da Bolívia. A luta deles é a nossa luta, a luta dos que se perfilam na esquerda brasileira e mundial. Parece não ser este o caso do PSTU. Confesso que algumas passagens do extenso e rebarbativo documento me reviraram o estômago. Chego a pensar que se trata de um artigo do Reinaldo Azevedo ou do Arnaldo Jabor. Alguns argumentos são típicos da direita liberal no continente. Há passagens que Vargas Losa, José Sarney ou Renan Calheiros assinariam sem piscar”.

“Obra de algum hacker”
“Estive em Caracas há duas semanas e entrevistei alguns líderes da direita. É espantoso como os argumentos deles e os da nota do PSTU são semelhantes! É a mesma defesa hipócrita da ‘liberdade de imprensa’, brandida para defender um monopólio midiático. É a mesma acusação ao fato de Chávez corretamente ter neutralizado Gustavo Cisneros, numa articulação de grande habilidade política. Parecem escritos pela mesma mão. O PSTU, que nunca teve pela frente um fiapo sequer dos desafios que o governo venezuelano enfrentou e enfrenta, queria o quê? Que se encarasse em bloco os meios de comunicação? Chávez agiu com maestria ao dividir o inimigo para melhor golpeá-lo”.

“O texto chega mesmo – de maneira malandra – a defender o lixo colocado no ar pela RCTV, citando uma matéria da Folha de S. Paulo. Sai em defesa, também, dos ‘institutos de pesquisa’ venezuelanos, manipuladores de opinião pública, que nos últimos oito anos agiram em conluio com a Casa Branca, com a mídia internacional e com ONGs como Repórteres Sem Fronteiras. Por fim, a nota repete o que Marcel Granier, o golpista dono da RCTV, tem repetido à exaustão em várias entrevistas dadas no Brasil: a de que não houve e nem haverá golpe de Estado na Venezuela. Ele dizer isso até se compreende. Mas o PSTU dizer que não há ameaças no horizonte é meio estranho…”.

“Repito: espero que tudo isso seja um engano e que vocês retirem a nota do site, pedindo desculpas aos leitores, pois deve ter sido obra de um hacker. Se o fizerem, engulo todas estas minhas palavras e peço eu desculpas a vocês. Se, por outro lado, a nota não for um engano, se for mesmo uma deliberação do PSTU, tenho apenas uma recomendação. Não a deixem apenas no site do partido. Mandem para a revista ‘Veja’ Tenho certeza que os Civita abrirão generosas páginas para o documento.

Abraços, Gilberto Maringoni”.