Leia o manifesto dos negros e negras da Conlutas sobre as cotas

MANIFESTO:Igualdade racial só com lutas!

Nós, Negros e Negras da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), entidade fundada com o objetivo de oferecer uma alternativa aos movimentos sindical, estudantil e popular — em função da traição de entidades, como a CUT e UNE, que aderiram ao projeto lulista –, viemos a público repudiar os ataques às políticas afirmativas — como cotas –, bem como as manobras do governo Lula, que está tentando se apropriar de bandeiras históricas do movimento negro para desfigurá-las e jogá-las no mesmo vazio em que foram parar todos os demais “projeto sociais“ lulistas.

Em defesa das cotas, contra as elites
O lançamento do manifesto “Todos têm direitos iguais na república democrática“, assinado por intelectuais e artistas (como Lilia Schwarcz, Demétrio Magnoli, Peter Fry, Ferreira Gullar e Caetano Veloso), faz um lamentável resgate da já batida tese da democracria racial ao atacar a necessidade e legitimidade de políticas públicas para negros e negras e defender que a igualdade é um “princípio garantido pela Constituição Brasileira“.

Uma farsa inaceitável e que só merece nosso repúdio. Em primeiro lugar, afirmar que políticas específicas para negros e negras criariam “privilégios de raça“ é querer negar e mascarar, de forma hipócrita, a História deste país. Privilégios existem, sim. Mas para aqueles que, diferente de nós, negros e negras, não conviveram com 400 anos de escravidão e todos os mecanismos de marginalização decorrentes do racismo.

Como também, dizer que a existência de cotas pode “acirrar o conflito e a intolerância“ chega a ser um insulto. É exatamente a ausência de políticas efetivas de combate ao racismo que faz com que, hoje, negros e negras vivam sob um intolerável conflito: a total falta de perspectivas da nossa juventude, a violência racial e policial que os vitima todos os dias e a marginalização sistemática da população negra.

Aqueles que atacam as cotas afirmam que tal situação deve ser combatida única e exclusivamente através das chamadas “políticas universais“, que garantam sáude, educação, emprego e moradia para todos. Uma “fórmula“ que não só não corresponde à realidade, como também é uma maneira nada sutil de defender que tudo continue exatamente como está.

“Não há capitalismo sem racismo“
A frase de Malcolm X nunca soou tão atual e correta. A própria lógica do sistema capitalista é a marginalização de amplos setores da população. Uma exclusão que também tem “sexo“ e “raça“, fazendo com que mulheres e negros sejam alvo de exploração e opressão ainda mais brutais que o conjunto da sociedade.

Neste sentido, nós, Negros e Negras da Conlutas, também não podemos deixar de denunciar as manobras do governo Lula.

Exatamente por defendermos reais e concretas políticas públicas e específicas para o povo negro, não temos a menor ilusão de que este governo, aliado às velhas e racistas elites do país, tenha qualquer compromisso com a luta contra o racismo.

Por isso, defendemos cotas, mas somos contra o projeto do governo que as insere na proposta de Reforma Universitária, que pretende privatizar o ensino. Da mesma forma, repudiamos o ProUni, que não é nada mais do que uma forma de encher ainda mais os bolsos dos tubarões de ensino, jogando negros e negras em escolas privadas e de baixa qualidade.

Como também não apoiamos o Estatuto da Igualdade Racial de Paulo Paim. Seu destino é o mesmo do “Fome Zero“, do “Programa do Primeiro Emprego“ e, inclusive, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção e Igualdade Racial, o Seppir: virar “letra morta“ que não irá resultar em nenhuma medida concreta. Por uma razão muito simples: Lula e seus aliados (e, consequentemente todos os seus projetos) só estimulam e ampliam as consequências do racismo ao aplicar os planos do FMI, em benefício dos empresários, dos banqueiros e do capital internacional.

Uma realidade que, não podemos deixar de lembrar, está tristemente exemplificada na vergonhosa e criminosa ocupação que o governo Lula — servindo como capacho de Bush — está, neste exato momento, promovendo no Haiti, país símbolo da luta do povo negro contra a opressão racista e a exploração sócio-econômica.

No debate aberto sobre as cotas, este caráter covarde e entreguista do governo está ficando mais uma vez evidente quando — sob a pressão de seus “companheiros“ da elite e de seus compromissos eleitorais — já está ensaiando um “recuo“, através da modificação de seus enganosos projetos e a substituição das cotas raciais por “cotas sociais“.

Nossa luta é a luta quilombola
Em seu lamentável manifesto, a elite intelectual extrapola os limites do cinismo ao afirmar que “nosso sonho é o de Martin Luther King, que lutou para viver numa nação onde as pessoas não seriam avaliadas pela cor de sua pele, mas pela força de seu caráter“.

Desconsiderando a provocação racista embutida nesta referência à “força de caráter“, só temos uma coisa a dizer a eles, bem como ao governo: não ousem se apropriar dos sonhos de todos aqueles que, de fato, lutaram contra o racismo.

E mais: nós, Negros e Negras da Conlutas, como muitos outros lutadores espalhados pelo país temos muito mais que um sonho. Temos um objetivo: acabar com o racismo e, para tal, combatermos sem trégua tudo e todos que se coloquem no nosso caminho.

Por isso, hoje, ao nos diferenciarmos do ataque racista dos signatários do manifesto e, também, das manobras de Lula, fazemos questão de reafirmar que o fazemos exatamente por não termos abandonado a luta por políticas públicas para negros e negras.

Queremos, sim, cotas nas universidades, no serviço público e nos locais de trabalho; exigimos a ampliação da presença de negros nos meios de comunicação e a inclusão do ítem raça/cor nos prontuários médicos (para detectar e combater com eficiência as doenças mais recorrentes na população negra, como a anemia falciforme). E por isso mesmo, e muito mais, nós não curvaremos nem à elite nem a Lula. Muito menos ao sistema que alimenta seus privilégios.

O sonho que alimentamos e lutamos por transformar em realidade é o mesmo de Zumbi, de João Cândido, de Malcolm X, de Rosa Parks e tantos outros homens e mulheres que lutaram contra o racismo e a real transformação da sociedade.

Neste sentido reafirmarmos que, para que negros e negras tenham as reparações que necessitam — nas quais cotas são um mínimo — é preciso que também defendamos o não pagamento das dívidas externa e interna, para que, de fato, sejam aplicados recursos em projetos sociais — inclusive aqueles especificamente voltados para a população negra. Como também temos que lutar por universidades públicas e gratuita para todos, por empregos e salários justos. Pelo fim de toda e qualquer exploração e opressão, seja ela racista, machista ou homofóbica.

É pra servir como instrumento para esta luta que a Conlutas nasceu. É para que este combate também seja uma luta de “raça e classe“ que constituímos um Grupo de Trabalho de Negros e Negras em seu interior.

Junte-se a nós!

NEGROS E NEGRAS DA CONLUTAS
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Telefone: 11.31077984 – site: www.conlutas.org.br
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