James Petras fala sore a América Latina

Reproduzimos entrevista DO intelectual marxista norte-americano James Petras
à “Rádio Nederland”, em 12 de outubro, durante o Fórum “Colômbia: Laboratório da mundialização neoliberal”, e publicada NO site “Rebelión”. Petras fala sobre a militarização da América Latina e do significado da Eleição de Lula para o Continente.

Rádio Nederland: Constatamos que há um aumento da militarização na América Latina. Isso tem a ver com o fracasso do modelo neoliberal que impera nos últimos anos?

James Petras: Creio que não só fracassou o modelo neoliberal, mas que fracassaram os Estados neoliberais. Isso é mais grave para o sistema de poder e principalmente para a hegemonia norte-americana. Os governos estão cada vez mais desprestigiados, e isto tem sua expressão popular na Argentina com o slogan “que se vayan todos” (que saiam todos), que é um slogan que pode se generalizar por toda a América Latina. A militarização é um processo para criar o que eu chamo de “Estados fortaleza”, que mantêm o controle, no sentido feudal, sobre governos, instituições e alguns enclaves importantes para a exportação. Ao mesmo tempo, ao redor disso há focos de violência, há controle popular quase diário nas ruas.
Esta situação cria a idéia de um duplo poder: apesar dos governos continuarem controlando os meios de comunicação e obtendo algum resultado nas eleições, em geral esse é um voto passivo, o voto dos que não são ativos na sociedade civil. Agora estão perdendo inclusive o voto passivo. Os aposentados saem às ruas, pois perderam até 90% do valor de suas pensões. Então cada vez mais está diminuindo a área de influência dos governos neoliberais e mesmo o Estado está se deteriorando. O nível de corrupção da polícia em todos os países, desde a Terra do Fogo até a Cidade do México e mais acima, é muito grande. Poderíamos dizer que a polícia enfrenta a crise através de seqüestros ou com uma dupla jornada como guardas de segurança privada, descuidando de seus deveres públicos.
Chegou a hora das transformações, tanto da economia como do governo e do Estado, mas neste caso há grandes problemas na oposição ao sistema: a fragmentação, a competência, a imaturidade dos líderes e uma falta de sentido de responsabilidade frente à emergência. Põem suas bandeiras por cima da exigência do povo de formar conselhos ou poderes unificadores a nível nacional.

RN: O povo está dando sinais muito claros aos governos mas, salvo raras exceções, estes estão totalmente contra os que votaram neles…

JP: Creio que há duas formas de ver o povo. Tomemos o caso mais extremo de Álvaro Uribe *, que conseguiu em torno de 25% do eleitorado, apesar de ter havido cerca de 50% de abstenção nas eleições. Destes 25%, uns 15% seriam votos populares e outros 10% das classes médias e altas. Neste caso alguém poderia dizer que entre os votantes houve maioria, mas penso que devemos ver não só as eleições, mas também o processo pós-eleitoral. Aos 60 dias de sua vitória houve uma greve cívica muito grande que repudiou toda a política de Uribe e se planejou uma nova greve geral para fins de outubro.
O que isso significa? Outra expressão da vontade popular. E não só isso, uma expressão que com muita coragem está desafiando os esquadrões da morte e a militarização do país, que tentam intimidar a expressão desta vontade. Então nos perguntamos: o que é mais representativo da vontade popular, as eleições obrigatórias ou a participação nestes grandes atos públicos e voluntários?

RN: Com a vitória de Lula, que papel vai jogar o Brasil na América Latina nos próximos anos, tendo em conta sua oposição ao Plano Colômbia e à Alca e, por outro lado, sua aliança com certos setores industriais?

JP: Há duas expressões visíveis na campanha de Lula. Uma é sua base tradicional, sindical e dos setores organizados do funcionalismo público, que sempre é sólida, e representa aproximadamente de 25% a 30% de seu eleitorado. Além disso, com a crise dos últimos 8 anos do governo Cardoso, há uma radicalização dos pobres das favelas, que estão escapando das mãos de caudilhos conservadores como Maluf e outros, que manejavam e manipulavam o voto dos pobres. Nos últimos anos, e mesmo nesta campanha, se vê uma politização e radicalização das favelas, junto com um setor das classes média e alta que está subindo no trem de Lula pela modificação de seu programa e também, por que não dizer, pela oportunidade de ocupar postos no novo governo.
Então temos duas forças muito contraditórias respaldando o governo de Lula: uma que vai na direção de maiores mudanças estruturais, como os sem-terra, os pobres das favelas e os setores de classe média empobrecida; e outra, da grande burguesia industrial, dos setores inclusive oligárquicos da Bahia e do Nordeste, mais a direção do PT, que é totalmente oportunista. Zé Dirceu é em minha opinião o Felipe González do Brasil.
Essa direção procura fazer uma média entre essas forças, a partir de concessões, por um lado, e acomodamento, por outro. Por tanto, vai depender muito da forma como estas forças joguem seu papel no período pós-eleitoral. É preciso aumentar a pressão para que o governo cumpra pelo menos algumas das reivindicações tradicionais, como investimento em obras públicas, trabalho, reforma agrária e defesa do patrimônio nacional. O outro setor vai pressionar para que se cumpram os compromissos com a dívida externa e as metas do FMI.
Eu acredito que as duas coisas são incompatíveis, Lula não poderá balancear mais que as promessas que fez à direita, ao imperialismo e ao FMI, e vai estar constantemente sob pressão. O papel do PT e de seus funcionários vai ser o papel de bombeiros. Dirão “primeiro solucionaremos a crise e depois repartiremos a riqueza”. E este é um “blefe”, não têm nenhuma intenção de repartir. Creio que a primeira crise do governo vai ser precisamente entre o aparato do PT e as bases sociais excluídas das práticas políticas. Nesta situação, ou Lula consolida sua base dando uma virada à esquerda, ou vai ficar desgastado dentro de um ano ou menos.

RN: As expectativas são muito altas, por exemplo, dentro do MST…

JP: Inclusive dentro da cúpula do MST, na qual a maioria dos líderes apoiou Lula, mas as bases ou não o apoiaram ou apoiaram com muitas ressalvas. A direção do MST diz que apoia Lula pelas forças sociais que o respaldam, portanto a aposta deles é que as bases sociais vão ter força suficiente para levar a política de Lula em uma direção mais à esquerda.
Oxalá seja assim, mas eu pessoalmente, como ex-participante do governo socialista da Grécia assessorando os sindicatos e movimentos sociais, tenho minhas dúvidas. Eu creio que a tendência é acenar para a esquerda e girar à direita.

RN: Mas, caso Lula fracasse após gerar muita esperança em todo o Continente, este seria um duro golpe no processo de libertação da América Latina, já que em muitos outros países também há esperanças neste momento em que Lula vai assumir o governo.

JP: Sim, porque as pessoas estão mal informadas por muitos intelectuais de centro-esquerda que estão promovendo Lula, como Frei Betto, (Leonardo) Boff, Emir Sader e outros, homens de esquerda bem conhecidos, com credenciais impecáveis, mas que, neste caso, creio que estejam semeando ilusões demais.
Eu pessoalmente acredito que vá haver um efeito duplo: por um lado, esse fracasso causará uma relativa desmoralização no Brasil, mas por outro, estimulará a radicalização das lutas extra-parlamentares, como vemos na campanha contra a Alca, que conseguiu 10 milhões de votos contra o tratado; uma campanha que se desenvolveu inclusive contra a opinião de Lula e da coalizão que o apoiava. Portanto, há duas correntes: uma, a da campanha eleitoral social-democrata de Lula (social-democrata no melhor dos casos). E outra, a campanha contra a Alca, que mostra uma organização de cem mil pessoas que chegou a mobilizar 10 milhões e é uma corrente que devemos levar em conta.

RN: Os movimentos no Equador, Perú, Bolívia, os protestos contra as privatizações, terão força para enfrentar o Plano Colômbia que está se organizando para a região?

JP: É difícil falar em frear esse processo de militarização, ainda que o povo esteja atuando e lutando, e desta maneira limitando a capacidade dos governos de atuar. No caso do Equador, em fins de outubro vai haver grandes manifestações, atividades de todas as forças sociais: sindicais, camponesas, indígenas. Unificadas ao menos no eixo de combinar forças. Isso é muito positivo pelas divisões que existem, inclusive entre os movimentos indígenas e os oportunistas, que só aparecem nas campanhas eleitorais.
Por outro lado, na Bolívia temos o caso do MAS (Movimento ao Socialismo), a segunda força eleitoral e a primeira nas ruas com os “cocaleros”, servindo como um pólo que combina a luta eleitoral com a luta nas ruas, e esta dupla articulação já criou uma enorme pressão sobre Sánchez Losada ** para que reconsidere a proposta de vender o gaseoduto aos EUA. Além do mais, acredito que os militares bolivianos não são homogêneos como na Argentina e no Uruguai. Há uma tradição nacionalista que continua presente, apesar da doutrinação norte-americana, e creio que deve-se manter uma visão aberta sobre o que pode acontecer na Bolívia. Há uma tremenda força popular organizada também com aliados fora do campo popular.

RN: Todos esses processos vêm ocorrendo na América Latina há vários anos, mas poderíamos dizer que se aceleraram desde o 11 de Setembro, que se tiraram as máscaras, que já não é necessário enganar tanto?

JP: Acredito que o 11 de Setembro simplesmente acelerou as tendências militaristas e terroristas do Estado imperial em Washington. Deu o pretexto para aumentar as inserções e intervenções na América Latina. A dinâmica das opções para a América Latina vêm da deterioração e fracasso do neoliberalismo, e o fracasso dos países sob mando dos EUA. A problemática da situação não está nas torres gêmeas, mas isso estimulou a ultra-direita no governo de Washington a mover mais forças militares sobre o mundo, nas Filipinas, na Ásia, etc. O Plano Colômbia existia antes, desde Clinton, e também estava formulada a Iniciativa Andina. Portanto, já tinham preparado o terreno para exacerbar estas tendências.
É perigoso para os povos em ascenso não levar em conta a necessidade de preparar-se em todos os níveis para a militarização que vem com o retorno dos golpistas.

RN: Se falava que o grande inimigo era os EUA, mas que este inimigo já não seria agora somente os EUA, mas o capital transnacional.

JP: Isso está incluso, quando falamos dos EUA não estamos falando do povo norte-americano. As multinacionais que estão se beneficiando desta política, entretanto, não influem diretamente na política imediata deste governo, como ocorria com os governos de Clinton, Reagan e Bush-pai.
Em minha opinião, este governo é mais militarista e capitalista extrativo. Isso significa que a fração do capital com interesses em petróleo e minerais predomina sobre Wall Street, e os militaristas do governo influem muito mais sobre as multinacionais que as multinacionais sobre eles.
Como exemplo, podemos dizer que um grande setor do capital está muito preocupado com a guerra, baixaram seus investimentos, enfrentam crises. O público está mais preocupado pelas centenas de bilhões de dólares que perderam seus fundos de pensão pelas fraudes e estelionatos.
Assim, o que se vê é que este governo tem um setor militarista predominante e relativamente autônomo dos interesses do grande capital. A aposta que fazem é que depois da guerra vão se abrir oportunidades. Ao mesmo tempo, estão prejudicando a economia, a balança de pagamentos externos, etc. Alguns membros do governo, inclusive, estão mais de acordo com Sharon***, no que aparece como uma extensão da política de Sharon no dia-a-dia da política dos EUA. As pessoas, por medo ou outras razões, não querem incluir a influência dos “sharonistas” no governo de Washington como um fator dinâmico da política militarista.
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