Imperialismo europeu também começa a viver crises

Não é só imperialismo norte-americano que termina o ano mais fragilizado. Em 2004, a Europa foi palco de grandes mobilizações contra a guerra, refletindo assim não somente o repúdio à invasão do Iraque, mas também a crise econômica e os ataques aos direitos dos trabalhadores. Mas foi em 2005 que essa luta assumiu contornos mais radicais. A combinação entre uma economia estagnada, um enorme desemprego e o conseqüente aumento das lutas está mudando a situação européia.

Alemanha: a crise dos partidos tradicionais
Na Alemanha, principal economia do continente, os dois partidos mais tradicionais, SPD (Socialistas) e CDU (democratas cristão) – passam por uma profunda crise depois de aplicarem por anos os planos neoliberais.

Com o maior índice de desemprego de toda a Europa, que atinge 11% da população, e enfrentando uma profunda recessão econômica, governos de aliança entre democratas cristãos e social-democratas, desencadearam uma enorme ofensiva contra as políticas do chamado “Estado de bem-estar social”.

A onda neoliberal de ataques começou com o governo direitista de Helmut Kohl (CDU), nos anos 80, e foi mantida por Schröeder (SPD), eleito com a expectativa de que iria defender as conquistas históricas dos trabalhadores. Schröeder, no entanto, frustrou seu eleitorado e lançou um pacote de reformas conhecido como “Agenda 2010”, que detonou protestos em toda a Alemanha. O pacote incluía cortes de benefícios a desempregados, reforma na Previdência e legislação trabalhista além de um arrocho orçamentário de quase dez bilhões de euros neste ano e de 23 bilhões até 2007.

Frente ao descrédito da população, nas últimas eleições nenhum dos dois partidos obteve maioria absoluta do Parlamento para governar e todas as tentativas de coalizão com aliados tradicionais fracassaram. Enfraquecidos os dois partidos tradicionais rivais da política alemã, foram obrigados a fazer uma coalizão – encabeçada por Ângela Merkel, do CDU.

A fragilidade dos partidos tradicionais foi tamanha que nas eleições surgiu um novo partido de esquerda reformista – formado por ex-sociais democratas, como Oskar Lafontaine, ex-ministro das finanças do primeiro mandato de Schröeder, e o antigo Partido Comunista. Com 8,5% dos votos, esse partido emerge como terceira força política do país e expressa de maneira distorcida o desgaste do SPD nos setores mais explorados dos trabalhadores.

França: Greves e rebeliões
Em maio, o velho continente foi sacudido pelos “Não” dado pelos franceses no plebiscito sobre a Constituição européia. Contrariando a opinião dos principais partidos (inclusive o socialista), a imensa maioria dos dirigentes sindicais e intelectuais que fizeram campanha pelo “Sim” – além de todas as instituições da democracia burguesa – a população francesa pôs em risco o projeto da unificação neoliberal da União Européia (UE). Desde a criação da UE, uma onda de privatizações e ataques aos direitos dos trabalhadores abateu-se no Continente. A Constituição Européia era parte fundamental para a manutenção dessa política e previa mais ataques contra os trabalhadores. O exemplo do “Não” também foi seguido pela Holanda, que rejeitou de forma esmagadora a Contituição.

Em julho, outra luta importante ocorreu na França, quando uma greve-geral de um dia aglutinou um milhão de trabalhadores, contra o plano econômico neoliberal do governo Chirac-Villepin. Na Bélgica, depois de quase 50 anos, os trabalhadores também realizaram uma greve geral muito forte.

Mas foi a revolta da juventude nas periferias da França, cansada do desemprego, do racismo e da miséria crescente, que abalou as estruturas políticas do governo francês. De maneira espontânea os jovens descendentes de imigrantes colocaram por terra o mito do “imperialismo humanitário” mostrando os bolsões de barbárie dentro da França “civilizada”. Com medo que novos levantes da periferia ocorram, a França das “liberdade, igualdade e fraternidade”, vem adotando políticas de repressão aos estrangeiros dentro do território nacional.

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