Haiti: E agora, depois do terremoto?

A imprensa vai aos poucos deixando de lado o Haiti. As manchetes dos jornais falam de outros temas. Vai ficar na consciência dos trabalhadores, pela ação da imprensa que “foi feito o possível em ajuda humanitária”, e que agora “os governos vão ajudar na reconstrução do país”. As pesquisas indicam que a popularidade de Obama cresceu com a intervenção no país. É bem provável que tenha acontecido o mesmo com Lula.

No entanto, a verdade passa longe. A “operação humanitária” foi um fracasso, e serviu na realidade para encobrir uma reocupação militar do país pelos EUA. E a “reconstrução” prepara outros terremotos, agora sociais.

Quantos morreram pelo fracasso da operação “humanitária”?
O terremoto matou 212 mil pessoas (cifras oficiais do governo haitiano) e deixou mais de um milhão desabrigadas. A resposta “humanitária” foi claramente um fracasso. No final de janeiro pouco mais de 130 pessoas foram resgatadas com vida dos escombros. Isso corresponde a 1.600 mortos para cada um dos resgatados.
Não foi somente o terremoto que matou todas essas pessoas. Grande parte dos que sobreviveram foram retiradas dos escombros pelos próprios haitianos com as mãos. Dezenas de milhares poderiam ter sido salvos se houvesse socorro.

A organização Partners in Health advertiu que 20 mil haitianos podiam morrer diariamente por infecções como gangrena e sepsis, porque os feridos não recebiam assistência nem medicamentos básicos. Talvez por este motivo, a cifra de mortos foi crescendo dia após dia.

Um artigo de Bill van Auken afirma que o Wall Street Journal informava que o Hospital Geral de Porto Príncipe está continua­mente assediado por mais de mil pessoas doentes, que aguardam uma operação cirúrgica. Mas “vigilantes armados impedem elas de passarem”, e acrescenta: “A todo momento, milhares de feridos, alguns graves, esperam diante de qualquer hospital ou clínica suplicando por atendimento”.

A ação do país mais rico do mundo, os EUA, foi típica. O governo Obama liberou em “ajuda” cerca de 100 milhões de dólares, ou seja, 130 mil vezes menos que o dinheiro entregue às grandes empresas na crise.

As tropas dos EUA logo ocuparam o principal ponto estratégico de Porto Príncipe, o aeroporto. A organização Médicos Sem Fronteiras denunciou que os controladores norte-americanos negaram permissão para aterrissar cinco de seus aviões que traziam 85 toneladas de materiais médicos. Para completar a tragédia, os feridos graves não poderão ser mais transportados para os EUA, por “falta de dinheiro” O estado de Florida não está disposto a cobrir os gastos dos tratamentos dos feridos que chegaram a Miami.

Na verdade, a operação humanitária serviu para encobrir a reocupação do país pelas tropas norte-americanas. Foram enviados 16 mil marines, uma das tropas de combate mais bem treinadas do mundo. Em combate militar, não em salvamento.

O objetivo de Obama foi assumir diretamente, sem disfarces, o controle do país. Antes as multinacionais se utilizavam das tropas latino-americanas (com as brasileiras na direção) para garantir o controle do Haiti. Agora, o imperialismo resolveu reassumir diretamente esse controle. Os números são categóricos: enviaram mais do que dobro das tropas da ONU (7.000 até então), para que todos saibam que os patrões chegaram.

O governo brasileiro resmungou, enviou mais 900 soldados, mas aceitou a subordinação.

Quem vai dirigir a reconstrução do país?
Está em jogo agora quem dirige a reconstrução do país, e quem tem condições de reprimir qualquer sublevação do povo.

A “reconstrução” do Haiti significa, para o imperialismo, manter um projeto longamente construído, isto é, de ter, praticamente nas costas dos EUA, um país onde o se paga o salário de 60 ou 70 dólares por mês para se produzir roupas da Levis, Gap e de outras empresas.

A miséria haitiana deve seguir rendendo altos lucros para as grandes empresas norte-americanas. A Batay Ouvriyé informa que algumas fábricas têxteis, por exemplo, reabriram e dobraram as metas de produção. Dizem os donos que “está tudo atrasado”! Certos comércios, serviços e empresas locais se aproveitam da situação para não pagar o salário mínimo que corresponde, alegando que “não podem!”
Clinton, o homem-chave do projeto econômico do imperialismo para o Haiti já visitou o país por duas vezes, para garantir a vigência do plano econômico anterior ao terremoto.

Uma nova explosão se prepara no Haiti
Um povo miserável teve sua vida piorada pelo terremoto. A revolta contra a ocupação militar aumentava. Algo que se manifestava na revolta contra a fome, em abril de 2008 e na greve operária têxtil, em agosto de 2009. Agora o terremoto afetou duramente os sobreviventes, desarticulando os movimentos, incorporando a necessidade pura e simples de sobreviver.

Pelos poucos informes, os trabalhadores e o povo haitiano se organizaram da forma como puderam para sobreviver e tentar salvar os feridos. As desconfianças em relação a tudo e a todos continuam presentes. Existem iniciativas do movimento popular autônomas, pequenos enfrentamentos parciais com as tropas e os representantes dos governos. Mas tudo ainda muito golpeado pelas consequências do terremoto e ausência de condições básicas de sobrevivência.

Mas duas modificações de peso na realidade haitiana se passaram. A primeira e óbvia, é uma piora brutal nas condições de vida, já miseráveis, do povo haitiano. A vida pós-terremoto vai provocar uma reação deste povo heróico.

A segunda é a ocupação do país pelos EUA. É verdade que as tropas agora estão muito mais fortes e armadas. No entanto, se afastou a farsa da face “brasileira” da ocupação. Quem está no comando agora são as tropas do imperialismo norte-americano, o que pode acelerar os tempos da experiência política do povo haitiano. Uma nova explosão está se formando.

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