Há 20 anos, terminava a ocupação da fábrica Bundy

O movimento na autopeças de São José dos Campos representou uma das mais longas ocupações de fábricas do Vale do ParaíbaForam 27 dias acampados dentro da fábrica. A greve começou na troca de turno entre o segundo e o terceiro do dia 9 de outubro de 1989. Os tempos eram de hiperinflação, governo Sarney. Estávamos em pleno segundo turno das eleições presidenciais.

A greve estava marcada, inicialmente, para a manhã do dia 10 de outubro. A empresa chamou os motoristas de todos os turnos para trabalharem no terceiro horário. A intenção era esvaziar o estoque. A empresa queria, com isso, quebrar o movimento já preparado e anunciado.

Havia um pequeno grupo da Convergência Socialista (CS), corrente interna do PT, organizado na Bundy naquela época. Nesta fábrica, atuavam os diretores do sindicato Ivanildo e Toninho Ferreira, secretário-geral da entidade.

Ligamos para o sindicato e falamos com Toninho. Dissemos que a empresa tentava esvaziar os estoques e avisamos que o grupo havia discutido e resolvido que pararia na troca do turno da noite, ou seja, um turno antes do programado e anunciado.

Os ventos eram outros
O ano de 1989 foi excepcional. A CUT atingia seu auge. Em maio, havíamos assistido à Batalha de Piraporinha, no ABC, onde a CS também foi parte importante daquele enfrentamento. Ali foi a última mobilização de todos os metalúrgicos do ABC de forma conjunta. Os anos 1990 veriam o surgimento dos grupos patronais, dividindo a categoria. Depois seriam as câmaras setoriais e outros mecanismos para conter o movimento.

Também em 1989, aconteceu a ocupação da Mannesmann, em Minas Gerais. Lá o sindicato, dirigido pela CS também, lançou o refrão “Eô, piqueteiro é um terror”. Em menor medida, ocupação da Phillips, em São José dos Campos, também dirigida pela CS, com o companheiro Ivan Trevisan, gerou uma jovem e combativa vanguarda. Entre estes jovens, estava um que, anos depois, seria presidente do sindicato dos metalúrgicos de São José, o camarada Adilson dos Santos, o Índio.

A greve da Bundy começou com os trabalhadores dentro da fábrica cumprindo seu turno. Na segunda semana de paralisação, a empresa tentou inserir um grupo de provocadores, conhecido como o grupo do Akira, que, anos antes, havia provocado a invasão e repressão na greve da Ericsson. Os trabalhadores, que já controlavam a portaria informalmente, resolveram que controlariam ainda mais e, como forma simbólica da ocupação, colocaram a bandeira da CUT na caixa d´água da empresa. Dali, aquela bandeira só saiu nas mãos da polícia.

Nos 27 dias, nada saiu ou foi produzido na Bundy. Ao final de 20 dias, as montadoras de carro começaram a parar suas linhas por falta de peças. A Bundy é uma importante autopeças da região. Fabrica tubos para refrigeração, freios e lubrificação de veículos.

A primeira repressão
Na madrugada do 19º para o 20º dia, a polícia invadiu a fábrica pela frente e pelos fundos. Bombas e tiros acordaram os trabalhadores que dormiam na empresa. Às 7h da manhã, a polícia conseguiu desocupar a fábrica.

O problema não estava resolvido. Os trabalhadores desalojados esperaram a chegada dos ônibus e carros da maioria que havia ido para casa e resolveram manter a ocupação na portaria da empresa. A polícia ficou dentro da fábrica, mas os componentes para as montadoras continuaram sem sair da fábrica. Algumas montadoras foram obrigadas a importar peças, o que, na época, era caríssimo.

O fim da greve e a segunda desocupação
Era 1º de novembro. O último ônibus com trabalhadores saiu às 17h, véspera de feriado. Estavam na porta da empresa cerca de 50 trabalhadores quando apareceu, na Via Dutra, um comboio da tropa de choque da Polícia Militar, com o canil e três caminhões. Além de reprimir duramente os trabalhadores, a PM não parou a Via Dutra para os operários correrem. Eles tiveram de atravessar no meio dos carros, até que o trânsito parasse por causa da fumaça das bombas de gás atiradas pela polícia. Do outro lado da Dutra, o comando da PM deu ordem para atirar. No bairro vizinho, moradores xingavam e reclamavam que havia crianças nas ruas.

Vários trabalhadores saíram feridos e dois foram presos. Na volta do feriado, o sindicato entrou nos ônibus, que eram escoltados pela PM, e realizou, em frente à fabrica, a assembleia que encerrou a greve. Nossa reivindicação era de 90% de reajuste. Conquistamos 85% e, hoje, a Bundy é a fábrica de autopeças de São José que tem o setor mais organizado da categoria.