Greve do Peão: quando os operários se levantam

Valdir, vida de peão
Diego Cruz

A greve da construção civil de Fortaleza (CE), forte e radicalizada, mostrou o cotidiano de exploração dos operários, que convivem com salários miseráveis. Em março, após semanas de negociação, os patrões chegaram a declarar: “A greve é inevitável”, mostrando que não dariam um reajuste maior, mesmo com um crescimento de 10% do setor. Enquanto fechávamos esta edição, a “Greve do Peão” caminhava para seus momentos decisivos, podendo culminar numa vitória dos trabalhadores. O enviado especial do Opinião Socialista, DIEGO CRUZ, conta como foram esses 15 dias de luta dos trabalhadores, que provam que só a luta pode arrancar conquistas.

Não é mole não, a vida de peão

Nosso repórter acompanhou um dia de um operário na greve da construção civil. No cotidiano de Valdir, a força da greve e a realidade de toda a categoria, que vive “no osso”, enquanto os patrões aproveitam o crescimento do setor para enriquecer ainda mais

José Valdir da Silva, ou simplesmente Valdir, tem 38 anos e trabalha desde 1991 na construção civil de Fortaleza. No dia 28 de abril, segunda-feira, Valdir, como faz todos os dias, acordou às 4h30 da manhã para um banho rápido e o ônibus lotado do Terminal Siqueira. Todos os dias, ele segue para o canteiro de obras administrado pela empresa Diagonal, onde trabalha ao lado de 200 outros operários. Porém, nesse dia, ele não foi trabalhar. Como vem fazendo desde o dia 22 de abril, Valdir foi à luta.

Ao chegar ao seu canteiro de obras, Valdir já encontra o pessoal do sindicato fazendo piquete e reunindo os operários. Os diretores chegam à sede do Sindicato da Construção Civil por volta das 5h da manhã. Cada diretor fica responsável por um piquete, com um carro de som. Por volta das 7h30, dezenas de operários já se reúnem em frente ao canteiro. Os trabalhadores saem, então, em caminhada pela cidade, atraindo olhares curiosos das pessoas que passam pelas calçadas. “1, 2, 3, 4, 5, mil, quem pára Fortaleza é a construção civil!”. Os ônibus passam ao lado e buzinam para a passeata de operários.

Os peões não se incomodam com o sol que vai esquentando no forte calor de Fortaleza. Estão acostumados a trabalhar desde o mais insuportável calor aos dias de forte chuva, que costuma desabar nessa época do ano. O grande número de hotéis luxuosos que cercou o litoral nos últimos anos, grande parte fruto de investimentos estrangeiros, bloqueia a brisa do mar e ajuda a tornar o clima sufocante.

Salário curto
Muitos trabalhadores caminham sem camisa devido ao calor. Outros tantos vestem a do Fortaleza, time que, no dia anterior, vencia o Horizonte nos pênaltis na semifinal do estadual e que acabou conquistando o título na semana seguinte. Horizonte é uma cidade operária da região metropolitana de Fortaleza. Valdir, apesar de cearense, é são-paulino. Ele, porém, nunca viu o São Paulo jogar, a não ser pela TV. Os jogos são à noite. Em geral, os operários da construção civil chegam do trabalho quando o juiz apita o início do jogo.

O maior sonho de Valdir é assistir a um jogo do São Paulo no Morumbi. Um sonho distante para a massa de operários que amarga baixos salários e enfrenta uma inflação que corrói cada vez mais o poder de compra dos trabalhadores. Há mais de dez anos, Valdir conseguiu comprar uma TV e uma geladeira a longas prestações. Porém, hoje, se a TV quebrar, ele não vai poder nem ver os jogos. “Nossa situação tá apertada, o dinheiro que a gente ganha é pouco, tem que se virar”. O que Valdir mais sente nos últimos anos é a inflação e o salário que não a acompanha.

O piso salarial de um servente da construção civil, o menor da categoria, é de apenas R$ 415. Os patrões propõem reajuste de apenas 8%, e índices menores para as outras categorias, como semiprofissionais (assistentes, eletricista) e profissionais (carpinteiros, pintores, ferreiros etc.).

Além disso, é cada vez maior a pressão para que também trabalhem aos sábados. Apesar de atualmente não ser obrigatória, as empresas querem colocar a jornada aos sábados na convenção de trabalho. “Um camarada meu faltou num dia de trabalho no sábado e aí na segunda o mestre de obras foi reclamar com ele, que respondeu que foi fazer um curso e não era obrigado a trabalhar aos sábados. O mestre só respondeu: ‘pois bem, também não sou obrigado a te manter empregado aqui, pegue suas coisas”, conta um operário.

Muito pouco a perder
As várias passeatas que saem dos piquetes se unificam na Praça Portugal, no bairro da Aldeota, rodeado de prédios luxuosos e shoppings centers. Centenas de operários já estão na praça quando a passeata de Valdir chega. Eles gritam e levantam o punho, saudando os companheiros. O sindicato, com a ajuda de um caminhão, distribui pão com rapadura aos trabalhadores, tradição em todas as greves da categoria.

Sob o sol mais forte do meio-dia, os trabalhadores se reúnem em assembléia. A negociação com a patronal recém terminara e os diretores do sindicato apresentam o resultado aos peões. Nada de novo. A revolta é grande. Boa parte da categoria é jovem, radicalizada e cheia de expectativa de dias melhores. Vêem os prédios de luxo subindo e sua vida na mesma miséria.

O sentimento de impotência do operário, porém, deu lugar a uma valentia notável. Momentos antes, num dos piquetes, um policial sacou a arma e atirou para o alto. Esperava que os operários fugissem. Mas eles, ao contrário, partiram para cima da polícia, que teve de recuar. Os operários percebem que, unidos e organizados, podem enfrentar as empresas e a polícia. Com muito pouco a perder, não temem nada.

Os trabalhadores ouvem atentamente os diretores do sindicato. “Os patrões estão pagando pra ver, pois vão ver nossa greve forte até o fim, vamos precisar estocar rapadura”, afirma um dos diretores do sindicato, sendo aplaudido pelos peões, que aprovam por unanimidade a continuidade da greve. “Com pão e rapadura, a greve continua!” é a palavra-de-ordem que encerra a assembléia de uma das maiores e mais radicalizadas greves do país.

Valdir pega a passagem de ônibus dada pelo sindicato, já que os peões não as recebem durante a greve, para voltar para casa. Pega também a do dia seguinte, pois a greve continua.

Post author Diego Cruz, enviado especial a Fortaleza (CE)
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