Grécia: momentos decisivos

Manifestantes fazem campanha pelo NÂO no referendo

Não haverá mudança nem fim na austeridade se o governo grego não romper com a Troika e parar de pagar a dívida

O governo grego, comandado pelo primeiro ministro Alexis Tsipras do partido Syriza, determinou o fechamento dos bancos e da bolsa de valores a partir do dia 29 de junho, por um tempo mínimo de uma semana, e o controle da remessa de dinheiro para o exterior.

Isso se deu alguns dias depois de ter anunciado a realização de um plebiscito, em 5 de julho, para a população decidir se o governo deve ou não acatar as exigências de arrocho da União Europeia e do FMI.

A ditadura do capital
A Grécia está falida, mesmo depois de ter aplicado todas as medidas de arrocho exigidas pela União Europeia e pelo FMI para pagar suas dívidas. A receita de receber empréstimos em troca de medidas de redução dos gastos públicos não funcionou. E não foram poucas estas medidas, aplicadas desde 2010. Por exemplo, a quantidade de funcionários públicos teve uma redução de mais de 25%. É como dividir uma maçã em quatro partes e jogar fora uma parte. As aposentadorias foram cortadas drasticamente, o que jogou milhões de aposentados na miséria.

O resultado foi o aumento da dívida grega de 300 bilhões, em 2010, para 320 bilhões de euros em 2014, e não sua diminuição. É assim que funciona a ditadura do capital, capaz de arrancar tudo de um país até levá-lo à falência total, e ainda exigir mais arrocho e mais pagamentos pelos empréstimos feitos. 

O governo fica na metade do caminho
O governo diz que o Banco Central Europeu submete a Grécia a um estrangulamento financeiro e, até, agora recusou todos os planos de “resgate” oferecidos. E tem razão, pois todos significam não só o estrangulamento, mas também o enforcamento do país e sua transformação numa colônia.

Por exemplo, a última oferta exigia a manutenção do plano de privatizações do governo anterior, o aumento no corte de aposentadorias, o congelamento salarial, o aumento dos impostos a toda a população e o fim do subsídio ao combustível utilizado para o aquecimento das casas no inverno.

Mas não vai até o fim no enfrentamento com a União Europeia. É como a diretoria de um sindicato que não confia na luta da categoria e fica fazendo contrapropostas mais amenas ao patrão para chegar num meio termo. Assim, a última contraproposta do governo foi manter o mesmo ajuste fiscal exigido pelo Eurogrupo e pagar a dívida inteiramente, inclusive abandonando sua promessa eleitoral de não reconhecer a existência de parte dela. A diferença é que quer aplicar as mesmas medidas num ritmo mais lento, com cortes menores da aposentadoria, aumentos menores dos impostos, corte menor do subsídio ao combustível, etc. Isto é, propõe prolongar o sofrimento, embora menor, da classe trabalhadora e do povo grego.

Plebiscito: País precisa de um verdadeiro não ao imperialismo
Quando fechamos essa edição, a população greve estava prestes a votar no referendo para aceitar ou rejeitar o “acordo” proposto pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI). Votar “Sim” significa que o povo grego aceitará mais plano de austeridade e uma redução dos salários e mais direitos. O imperialismo está pressionando pelo “Sim” no referendo.

Tsipras está fazendo campanha pelo “não”. Também defendemos categoricamente o voto pelo “Não” no referendo. Não podemos aceitar a imposição dos governos imperialistas para o povo grego. Mas o “Não” de Tsipras e os “Não” dos trabalhadores gregos são muito diferentes. Tsipras defende o “Não” para voltar à mesa de negociações com o Eurogrupo e obter um plano de austeridade um pouco diferente.

Há alguns dias atrás, o governo grego apresentou um plano que previa o aumento gradual da idade para aposentadoria, de 62 pra 67 anos, e aumentar os impostos para os aposentados. Também previa mais cortes do orçamento público para pagar a dívida.

Não haverá mudança nem fim da austeridade se o governo grego não romper com a Troika e não parar de pagar a dívida. Neste sentido, o “não” no referendo deve ser seguido por um plano de mobilização dos trabalhadores gregos, ignorando os objetivos do governo Syriza.

Caso o “Não” seja aprovado, esse resultado deve ser o início de um movimento em direção a greve geral no país contra a imposição da Troika. Uma greve geral que exija a nacionalização do sistema financeiro, a saída da União Europeia e o cancelamento do pagamento da dívida.

*Artigo originalmente publciado no Opinião Socialista 499

** Com colaboração da Redação