Governo argentino retoma Bruckman de madrugada e reprime manifestação

Neste final de mandato e com a proximidade das eleições presidenciais, o presidente Duhalde começou a reprimir os movimentos sociais. Mandou a polícia desocupar a fábrica Sasetru, prendeu o líder piquetero Pepino Fernandez, em Salta, no norte do país, após uma reunião em que este negociava a libertação de outros companheiros, e tentou desocupar a fábrica Zanon. Neste caso, a repressão foi derrotada pela forte mobilização da população. Após duas tentativas frustradas, na sexta-feira da semana santa, dia 18, policiais conseguiram retomar a fábrica Bruckman, sob controle dos operários desde 18 de dezembro de 2001.

As organizações de esquerda, o movimento piqueteiro, estudantes e operários da Bruckman e de outras fábricas fizeram uma ocupação permanente de sexta até a segunda-feira em frente ao local. Uma grande concentração foi convocada para as 15h da segunda e cerca de seis mil pessoas atenderam ao chamado.

Quando faltavam quinze minutos para as quatro da tarde, a coluna com as 58 operárias e operários da Bruckman chegou ao local, acompanhada das Mães da Praça de Maio. Uma primeira fileira se formou reunindo também escritora Naomi Klein, autora de No Logo, personalidades da esquerda Argentina, como Zamora, Jorge Altamira e Vilma Ripoll, e dirigentes estudantis, sindicais e piqueteros.

Foi anunciado que a polícia deveria deixar a fábrica até as 17h30, senão a entrada iria ser forçada. Foi decidido dar mais um tempo para a polícia e um grupo de operárias tentou se aproximar da entrada da fábrica para negociar. Cinco minutos depois, um manifestante derrubou uma das grades de proteção que isolavam os policiais e o conflito explodiu. Os policiais atacaram com uma chuva de bombas de gás e balas de borracha e os manifestantes responderam com pedras e coquetéis molotov. Depois de alguns poucos minutos, a multidão e a linha de frente se dispersaram, e as batalhas continuaram pelas redondezas.

CAÇADA – Com a dispersão, teve início uma perseguição aos manifestantes pelas redondezas. Policiais entraram em casas da região, que serviram de abrigo para muitos ativistas. Chegaram a jogar gás dentro de um hospital, para retirar quem tinha procurado refúgio ali. Parte dos manifestantes se reuniram próximo à faculdade de psicologia, onde cercaram e atearam um carro onde estavam policiais a paisana.

Foram cerca de 200 detidos e diversos feridos. Depois da brutal repressão, o movimento se reagrupou como pôde e foi para porta da delegacia. Às 23h ainda chegavam grupos na frente da delegacia. De um modo geral, não houve muitos feridos graves e todos foram liberados após algumas horas. Há denúncias de espancamentos em uma das delegacias e o grupo piqueteiro Polo Obrero denunciou a Justiça o desaparecimento de um de seus militantes, Jesús David López, de 18 anos, durante a repressão em frente a Brukman. López foi levado a delegacia de policía com outros manifestantes e desde então não foi mais visto. Seu nome não figura em nenhuma das listas de detidos e nem nos hospitais para onde se levaram os feridos. O jornalista Miguel Bonasso e as deputadas Maria América González e Marcela Bordenave acusaram a polícia de ter usado balas de chumbo durante a repressão aos protestos.

Na terça-feira à tarde, as organizações novamente se juntaram, em dois pontos da cidade, e cinco mil pessoas marcharam até Bruckman onde estabeleceram um acampamento. Manifestações estão sendo preparadas para o domingo, dia das eleições, e para o 1º de maio.