Gays e lésbicas: às vésperas de Stonewall

Bar Stonewall, palco da rebelião contra a repressão sexual e o preconceito

Assim como aconteceu em relação a tantos outros movimentos sociais, os ventos rebeldes de 1968 também foram determinantes para ajudar a sacudir a poeira do conservadorismo e abrir caminho para a organização e desenvolvimento do movimento de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e transgêneros (GLBT).

Se formos nos apegar à rigidez dos calendários, é um fato que o marco inicial do movimento GLBT tal qual o conhecemos nas últimas décadas só se deu um ano após os acontecimentos de 1968, em 28 de junho de 1969, quando gays, lésbicas e travestis rebelaram-se contra a repressão policial, tomaram as ruas, tombaram e incendiaram carros, levantaram barricadas e transformaram o Bar Stonewall (onde a revolta teve início) em “marco zero” da luta contra a homofobia.

Contudo, assim como seria incorreto dizer que “a rebelião de Stonewall” foi o início de tudo, também seria absurdo minimizar o efeito que 1968 teve sobre a subseqüente explosão do movimento GLBT.

Basta lembrar que o exercício da livre sexualidade não só esteve na raiz do “Maio Francês” – afinal, a reivindicação por dormitórios mistos, na Universidade de Nanterre, foi um dos estopins da rebelião –, como também marcou muitos de seus desdobramentos: do questionamento da ordem patriarcal à defesa do “sexo livre”; da formação de comunidades “alternativas” à adoção de uma moda e estilo de vida, que corroeram as barreiras do “masculino/feminino” não só nos cortes de cabelos, roupas e maquiagem, mas também no comportamento sexual.

O conservadorismo na encruzilhada
Em termos históricos, a “certidão de nascimento” do moderno movimento GLBT havia sido expedida quase um século antes, em 1897, quando o médico alemão Magnus Hirschfeld criou o “Comitê Humanitário e Científico”, destinado a promover pesquisas sobre a sexualidade e, principalmente, combater o “Parágrafo 175” da constituição de seu país, que criminalizava a homossexualidade.

A partir de então, e no decorrer de todo o século 20, surgiram muitas outras organizações que, principalmente na Europa, colocaram-se em defesa dos direitos dos homossexuais. Como também muitos foram os embates e, lamentavelmente, não foram poucos os obstáculos: da perseguição e discriminação generalizadas na sociedade ao confinamento e assassinato nos campos de concentração do nazismo.

Nos anos 1950, no entanto, apesar dos revezes e dificuldades, gays e lésbicas viviam uma situação muito particular. Além de todos os processos políticos em curso e das profundas mudanças que estavam acontecendo no campo da cultura e das comunicações, a Segunda Guerra havia provocado profundos abalos no comportamento sexual na maioria dos países que se envolveram no conflito. Um abalo que, no final dos anos 60, reverberou ainda mais forte, particularmente nos Estados Unidos, quando uma nova (e cada vez mais impopular) guerra, desta vez no Vietnã, aprofundou ainda mais as contradições.

A relação entre guerras e mudanças no comportamento sexual é “simples”. Por um lado, prolongados anos de treinamento militar e guerra forçaram o íntimo convívio, em campos de batalha e barracas, de milhões de pessoas do mesmo sexo e, inevitavelmente, facilitaram a aproximação entre homossexuais. Por outro, no “front doméstico”, os padrões sexuais foram igualmente sacudidos, seja pelo novo (e mais independente) papel que as mulheres acabaram assumido na sociedade; seja, no caso nos anos 1950 e 60, pelo impacto que novos comportamentos – embalados pelo rock e por movimentos contraculturais (como os hippies, os beatniks e tantos outros) – estavam provocando na juventude.

Estas mudanças foram rapidamente assimiladas pelos setores mais antenados da intelectualidade e ganharam o mundo em livros e artigos. Em 1949, por exemplo, surgiu “O segundo sexo”, no qual Simone Beuvoir não só defendia que “não há, para a mulher, outra saída senão a de trabalhar pela sua libertação”, como dedicava todo um tópico de seu livro para defender o lesbianismo com uma forma legítima de amor e potencialmente subversiva, já que as relações lésbicas “não são consagradas por uma instituição ou pelos costumes, nem reguladas por convenções: são vividas, conseqüentemente, com mais sinceridade”.

No mesmo período, no outro lado do Atlântico, Alfred Kinsey lançava seu explosivo estudo “O comportamento sexual masculino”, no qual depois de anos de pesquisas – bastante pouco ortodoxas – chegava à conclusão de que nada menos do que 25% dos homens norte-americanos tinham tido algum tipo de experiência homossexual e que, numa escala de 0 a 6 (com “zero” indicando um comportamento exclusivamente heterossexual e “seis” referindo-se a um padrão exclusivamente homossexual), somente uma minoria da população poderia encaixar-se nos níveis “0” e “6”.

Pouco depois, em 1955, Herbet Marcuse mesclou Marx e Freud para defender a unidade inseparável entre a busca pela liberdade, a satisfação do prazer e a luta contra as instituições em “Eros e a civilização”, um livro tomado como “bíblia” pelos jovens rebeldes da época.

Contudo, os anos que precederam e gestaram a rebelião de 1968 não poderiam ser chamados exatamente de “anos dourados”, como se quis, pelo menos não no caso de gays e lésbicas. Aqueles também foram os obscuros anos da Guerra Fria e de todo conservadorismo cultural e ideológico que a acompanhou. Foram anos em que as tesouras da censura foram afiadas mundo afora e nos quais os cada vez mais presentes meios de comunicação – bem como os tentáculos ideológicos da CIA – promoviam a constante propagação do conservadoríssimo “american way of life”.

Do ponto de vista dos homossexuais, e particularmente dos norte-americanos, no início dos anos 50, “voltar para casa” significava o retorno para uma sociedade cuja já conservadora moral puritana vivia momentos de “caça às bruxas”, promovida por uma lastimável dupla de (falsos) ultra-moralistas: o senador Joseph McCarthy e o chefe do FBI, Edgar Hoover.

Neste sentido, diga-se de passagem, faz bastante sentido que um dos filmes que mais povoava o imaginário gay naqueles anos fosse “O mágico de Oz” (1939), no qual, para muitos, a alucinada viagem “para além do arco-íris” feita por Dorothy (Judy Garland) – acompanhada de “excêntricos” amigos discriminados por suas diferenças – servia como metáfora para suas próprias vidas.

Metáforas à parte, as contradições entre o mundo real e aquele sonhado por milhões que sofriam sob a homofobia tomou formas bem concretas e, às vezes, bastante radicais, como a “Sociedade Mattachine”, fundada em 1950 pelo militante comunista Henry Hay, com o propósito de dar assistência a homossexuais, criando, ainda, importantes alianças com outros grupos discriminados, como negros e latinos.

O nome do grupo fazia uma referência à complexa situação em que os homossexuais daquele período viviam. Foi inspirado na Societé Mattachine, uma sociedade secreta da Idade Média francesa que promovia festas e encontros nos quais jovens cavaleiros compareciam mascarados, para proteger sua privacidade.

A necessidade de viver “debaixo de máscaras” – principalmente depois de muitos deles terem experimentado uma vida razoavelmente mais livre – incomodava a muitos. E o incômodo virou insatisfação e revolta. Os mesmo componentes que alimentavam e apimentavam tantos outros corações e mentes, em 1968, mundo afora.

O fato desta combinação só ter encontrado as condições objetivas para vir à tona um ano após, em Stonewall, tem a ver com a dinâmica do movimento GLBT. Como também é impossível não notar que outra curiosa coincidência que mesclava ficção e realidade – algo tão ao gosto da comunidade GLBT – também acabou se surgindo nesta história. Na opinião da maioria dos historiadores do movimento gay, o mundo da ficção teve uma inusitada influência na revolta de Stonewall, já que, na noite de 28 de junho de 1969, os bares e ruas estavam particularmente lotados de homossexuais que haviam saído para, ao seu modo, prestar as últimas homenagens a Judy Garland, um dos maiores ícones gays de todos os tempos, que recém havia sido enterrada.

É proibido proibir
Coincidência ou não, o fato é que, com certeza, não era apenas o culto a Judy Garland que levava milhares de gays, lésbicas e travestis às ruas, particularmente de bairros boêmios norte-americanos como Haight-Ashbury, em San Francisco, e Greenwich Village – distrito nova-iorquino em que ficava o Stonewall.

E particularmente durante o ano de 1968, também não eram somente em bares que levavam gays e lésbicas às ruas. Por todos eclodiam grupos que se encontravam para lutar por seus direitos.

Alguns deles eram formados em meio aqueles que vivenciavam sua homossexualidade em círculos e comunidades construídas em torno de viagens psicodélicas e alucinógenas, outras surgiram da “filosofia” do “faça amor não faça guerra” e outras, ainda, floresciam em meio aos muitos agrupamentos que surgiram na contracultura.

Mas muitas também refletiam a efervescência do movimento estudantil, a mobilização contra a guerra do Vietnã. Exemplo disto foi o surgimento da “Liga de Estudantes Homossexuais”, primeira organização GLBT criada dentro de um campus universitário, em Columbia, uma prática que rapidamente se espalhou país afora.

Essa onda de organização, não somente deu origem a 50 grupos nos EUA, mas também permitiu o surgimento a uma das primeiras revista bimensal, com edição nacional, totalmente voltada para a luta por direitos GLBT, “The Advocate”, fundada em 1968, por Dick Michaels and Bill Rand.

Estudos realizados por teóricos e ativistas do movimento, como o norte-americano James N. Green (que jogou um papel importante na organização do movimento brasileiro, uma década depois), dão conta da existência de uma ebulição semelhante na subcultura GLBT de países como o México, a Argentina e, também, o Brasil.

Assim que as revoltas de 1968 explodiram, toda esta movimentação que se dava no interior do movimento GLBT também foi afetada e foi naquele momento que surgiram as bases para a criação de alguns dos grupos mais militantes e radicais da época, como a “Frente de Libertação Gay” (GLF, na abreviatura em inglês) de Nova York, fundada no início de 1969, e de Londres, criada em 1970.

Grupos semelhantes também surgiram ou desenvolveram-se nos principais focos da rebelião de 1968, a exemplo do “Grupo Homossexual de Ação Revolucionária” (FHAR), formado por ex-militantes do Maio Francês, em 1971. As características da seção britânica da GLF servem como exemplo do quanto o movimento gay aprendeu com a ideologia e os métodos que alimentaram as barricadas de 68.

Autodefinindo-se como uma organização revolucionária aos moldes dos movimentos “Black Power”, seus membros – que incluíam de estudantes a artistas, de setores marginalizados a professores e intelectuais – confrontavam abertamente a sociedade assumindo atitudes como andarem de mãos dadas e beijarem-se em público, além de realizarem sistemáticas campanhas públicas, coletas de abaixo-assinado e mobilizações que foram determinantes para começar a mudar a legislação homofóbica de seus países. Como também estiveram entre aqueles que se dedicaram a produzir documentos e manifestos procurando inserir a luta contra a homofobia num contexto mais amplo e político.

Foi todo este acúmulo que potencializou os eventos em Greenwich Village, em junho de 1969, onde, uma vez mais ecoou uma das grandes lições da Rebelião de 1968: “é proibido proibir”.