A Forma da Água: um grito simbólico contra a opressão

Quando H.P. Lovecraft descreveu uma criatura grotesca e de contornos abominavelmente humanos submergindo da água com feições ainda menos agradáveis, em seu primeiro conto profissional intitulado Dagon, estava criando as bases para um personagem que se tornaria um clássico do gênero terror. A criatura marinha com formas humanoides e piscianas foi retratada alguns anos depois no filme O Monstro da Lagoa Negra . Curiosamente, os produtores do filme se basearam na história de um brasileiro que desapareceu às margens do rio Amazonas ao realizar um documentário sobre os rumores da existência de “homens-peixe”. O filme ganhou outras duas sequências e o monstro marinho habitou a imaginação (e a inspiração) para diversas outras histórias, cinematográficas ou não.

Fato, lenda, mito, rumor e histórias literárias à parte, o novo filme dirigido por Guilherme del Toro, que já ganhou diversos prêmios internacionais e recebeu quatro das treze indicações ao Oscar 2018 (melhor trilha sonora, direção de arte, diretor e melhor filme), A Forma da Água (no original: The Shape of Water) é muito mais que uma releitura simplória do conto de horror citado. O filme é uma verdadeira apologia aos clássicos, é uma inversão de valores do tradicional romance literário, ao mesmo tempo que discorre simbolicamente sobre questões atualíssimas de nossa época, como a questão da opressão de gênero, de raça e de classe, além de nos provocar profundas reflexões políticas e sociais.

Em primeiro lugar, o filme homenageia o clássico do terror já mencionado. Contudo, o clássico não está presente apenas na presença do personagem semi-aquático-terrestre, está na belíssima e harmoniosa seleção da trilha sonora, feita por Alexandre Desplat, que recebeu o Oscar desta categoria. A trilha passeia pela francesa La Javanaise, escrita por Serge Gainsbourg e com a interpretação de Madeleine Peyroux; Babalu, interpretada por Caterina Valente e Silvio Francesco, mas que já fora bastante conhecida no Brasil pela voz de Angela Maria; além do conhecido samba Chica Chica Boom Chic, interpretado na voz da própria Carmem Miranda. Como o próprio Desplat respondeu em uma entrevista, os maiores sucessos da época precisavam expressar o ambiente da água e os diferentes momentos de alegria, apreensão e tristeza no decorrer da película, o que o levou passear sonoramente pelo jazz, blues, samba, pelas orquestras das músicas clássicas de sua autoria, realizando um minucioso trabalho de investigação que passou do continente europeu ao sul-americano.

Mas a apologia ao que se reconhece como “clássico” não para por aí: temos os musicais, a pintura, o sapateado, o próprio cinema tradicional, aquele dos grandiosos salões e sem a tecnologia 3D, homenageados por Guilherme del Toro. Ao trazer a imagem destas cenas não postas ao acaso, somos convidados tanto a apreciar, quanto a “olhar” criticamente as mudanças em processo na maravilhosa e decadente metade do século XX, quando os artistas de pincel estão perdendo espaço para os primeiros publicitários e designers profissionais, quando o próprio cinema, com outrora toda a sua pomposidade, encontra-se tão vazio e esquecido que pode até mesmo ser contemplado por um solitário monstro.

Ora esverdeados, ora azulados, os tons escuros da cenografia complementam a beleza estética visual do filme. A harmonia e a coesão entre a imagem, a trilha sonora e os ritmos suaves, tensos e depois agitados no transcurso da trama, conseguem dialogar de uma tal forma que, mesmo sem palavras ditas, são capazes de nos emocionar e nos enfurecer junto à protagonista da trama. Em razão disso, recebeu a merecida estatueta por direção de arte.

Do que se trata A Forma da Água? (contém spoilers)
O filme se passa na década de 1960 nos EUA e tem por protagonista a tímida e sonhadora Elisa Esposito (Sally Hawkins, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), uma funcionária da limpeza do que parece ser um centro de pesquisas militares do governo. Sua vida é embaraçada quando chega em um dos laboratórios, um grupo de militares trazendo um contêiner com uma relíquia preciosa vinda de algum lugar da Amazônia. Dentro dele, contém água, o que pode ser vista em sua parte superior de vidro. Na água, ganha forma uma criatura imersa que se assemelha a um humano, se não fosse pela pele esverdeada, escamas, mãos com membranas e garras, guelras sobressaltando em seu pescoço, cristas moldando o seu dorso e os olhos esbugalhados cobertos por uma fina membrana aquática.

A Forma, presa e acorrentada, é objeto de experimentos da equipe de cientistas e dos militares. Estranha, exótica e animalesca aos olhos humanos, seria ela dotada de inteligência? Talvez não! Este é o raciocínio dos militares, principalmente depois que o coronel Richard Strickland (Michael Shannon), responsável pela equipe, tem os seus dois dedos decepados na primeira entrevista com ela.

Elisa, que é muda (mas não surda), movida pela curiosidade e, notadamente, pela sensibilidade própria dos seres humanos, especialmente daqueles que são a vida inteira discriminados e destratados por uma característica física, social ou psicológica, percebe na Forma que se revela na água não apenas sinais de inteligência, como também de emoções humanas.

O conto de fadas do diretor Gilhermo del Toro inverte os papéis tradicionais do gênero romance. Em vez de um príncipe, herói, galã ou protagonista homem, temos uma mulher comum, humilde, trabalhadora faxineira, solitária, com desejos e fantasias como qualquer outro ser humano, que luta para salvar o seu “princeso” e, em nome da possibilidade de ser feliz, arrisca o seu emprego e a sua própria vida por esse amor impossível.

Tal inversão não se dá por um mero acaso, o que Gilhermo del Toro trás à tona em sua película, ora de forma sutil ora de forma explícita, é a temática da opressão. Esta atravessa todo o filme, pois é parte do cotidiano dos personagens. A faxineira muda Elisa; Giles (Richard Jenkis), o seu discreto vizinho homossexual; Zelda (Octavia Spencer), a sua colega de trabalho que é uma negra, estão historicamente situados na década de 60, mas simbolizam as situações e contextos do mundo atual.

O assédio sexual que Elisa sofre de seu superior, o racismo justificado em discurso religioso proferido pelo coronel Strickland, a homofobia expressa sutilmente pelo ex-empregador de Giles, assim como as humilhações proferidas contra Elisa e Zelda por seus trabalhos de faxineiras estão tão presentes na sociedade do século XXI que fazem parte do cotidiano das mulheres, dos negros, das negras, dos LGBTT, da classe trabalhadora. Que funcionário terceirizado da limpeza dos tempos hodiernos já não foi tratado como Elisa e Zelda?

A “Forma” materializada no corpo de um ser marinho, tida como uma espécie de deus por nativos e, ao mesmo tempo, como um “monstro” pelos homens de alta patente, é uma simbologia. Guilherme del Toro, assim como em O Labirinto de Fauno, usa da fantasia e do simbolismo para fazer uma crítica a política e a sociedade. Por que um ser diferente das feições humanas deve ser preso, torturado e dissecado? Quem é o “monstro” da história: a Forma ou os homens que a perseguem? Afinal de contas, o que é um “monstro”? Uma criatura diferente de nós ou nossos próprios preconceitos e discriminações de cor de pele, de tipo de cabelo, de orientação sexual, de deficiências físicas ou mentais, de aparências físicas distintas do padrão estético social estabelecido, do gênero feminino?

A Forma da Água pode parecer um simples romance de conto de fadas às avessas, contudo, na verdade, é um grito contra o preconceito e a discriminação, essas facetas grotescas e monstruosas da humanidade. É um grito dito bem alto por aquelas e aqueles que não tem voz na sociedade, grito expresso inteligentemente tanto por um sarcástico “foda-se” mudo, quanto por uma expressiva reflexão: “se não fizermos nada, também não seremos.”

O que o resultado do Oscar 2018 refletiu?
A premiação do Oscar 2018 de melhor filme e melhor filme estrangeiro, com o chileno Uma Mulher Fantástica (assim como de roteiro original em Corra e roteiro adaptado com Me Chame pelo Seu Nome), refletiu a pressão que os negros e negras tem feito à Academia nos últimos anos, as denúncias de assédio sexual que as atrizes têm trazido à tona contra os produtores e executivos de Hollywood e a necessidade que essa instituição tem em responder às reivindicações das minorias sociais. Estas, antes silenciadas e discriminadas (quando não, tidas como “criaturas” ou “monstros”) saem dos papeis secundários ou mesmo da invisibilidade e ganham os holofotes da maior festa capitalista da sétima arte.

Contudo, perguntamos: o que está na base para a existência das pressões feitas por artistas negros, mulheres, imigrantes, LGBTT e outros, não apenas por mais espaço, mas na denúncia explícita nas formas de opressão e exploração que a Academia de Cinema de Hollywood tem estabelecido historicamente na sétima arte?

O revolucionário russo León Trotsky nos ensinou em Literatura e Revolução que a arte é a expressão maior do desenvolvimento cultural de uma sociedade. A arte, tal como o cinema hollywoodiano, ainda que seja um campo em certa medida independente diretamente da política e, precisamente, da luta de classes, não deixa de refletir as questões e contradições sociais de seu tempo.

Neste sentido, se o levante dos jovens negros contra a polícia de Baltimore que se iniciou no governo Obama não se apresentou ainda diretamente na forma de um longa-metragem, sua simbologia está presente em A Forma da Água quando Zelda se recusa a denunciar sua amiga, mesmo diante da ameaça física (como também esteve mais presente ainda no ganhador do Oscar do ano passado: Moonlight). Do mesmo modo, o inédito levante massivo de mulheres no dia da posse do governo Trump deu origem não apenas a uma greve internacional de mulheres no 8 de março passado, como também, estabeleceu as bases para que as mulheres do cinema americano tomassem a corajosa decisão de denunciar os grandes figurões da Academia, expondo as suas carreiras neste mundo dominado por machistas, tal qual Elisa Esposito decidiu arriscar a sua quando peitou o coronel Strickland em sua acareação.

Se é verdade que o machismo, o racismo, a lgbtfobia e outras formas de opressão e discriminação social ainda estão longe de acabar, é verdade também que as lutas e levantes dos oprimidos e excluídos desmontam a tese de “onda conservadora” internacional. A polarização social que se encontra no mundo e que se expressou tanto na manifestação dos brancos nazistas de Charlottesvile quanto nos jovens da Carolina do Norte que derrubaram a estátua dos soldados confederados, tende a se aprofundar com a crise global do modo de produção capitalista.

Seguindo as reflexões de Trotsky, se é verdade que A Forma da Água e Uma Mulher Fantástica não representam diretamente a luta de classes, eles expressam, pela língua própria do cinema, um grito silencioso dos debaixo, de trabalhadoras, de faxineiras, de gente humilde, “invisível”. Nada mais simbólico que um mexicano subir ao palco mais glamoroso das empresas capitalistas de cinema e dar um recado ao presidente anti-imigrante de seu país e de todos os outros países: “por um mundo sem muros!” .