Europa: entre a crise econômica e a resposta dos trabalhadores

Correio Internacional: Publicação da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)A crise econômica mundial tem provocado um forte impacto na Europa. Os dados econômicos oficiais do último trimestre de 2008 são ainda piores que os dos Estados Unidos. Diante de uma queda global de 1,5% do PIB, a imprensa da União Europeia (UE) fala de uma “queda em parafuso”. A Alemanha, locomotiva da UE, teve uma queda de 2,1%. A produção industrial de dezembro 2008 foi 11,5% inferior à do mesmo mês em 2007. Em janeiro, as vendas de veículos caíram 27%.

A crise afeta todo o continente: das grandes potências europeias aos imperialismos menores e à periferia, tanto os países que pertencem à UE (Leste Europeu e os bálticos) como aqueles que não fazem parte (Rússia, Ucrânia, etc.). O sistema financeiro europeu está tão quebrado como o norte-americano. Todas as medidas adotadas até agora só seguraram, a duras penas, a queda no abismo, enquanto a crise financeira se acentua.

Foi assim com as sucessivas baixas das taxas de juros, com as injeções bilionárias de dinheiro por parte do Banco Central Europeu (BCE) e com as intervenções dos governos. Mas o crédito não flui e os bancos continuam vendo seu valor de mercado evaporar. Só no dia 16 de fevereiro, os bancos perderam 7% de sua cotação (reduzida a menos da metade durante o último ano e, em casos como o Deutsche Bank, a um terço).

As previsões
Os recentes resultados negativos da economia europeia superam todos os prognósticos. As últimas previsões oficiais da UE foram redigidas “com um nível de incerteza excepcional”, segundo seus autores. Para 2009, se prevê uma queda média de 1,8% do PIB europeu. Mas na Irlanda e nos países bálticos a diminuição seria de 5% ou mais e, na Grã-Bretanha, de 2,8%. O desemprego oficial da UE aumentou em 1,6 milhão. Em 2008, chegou a 18 milhões de pessoas, 7% da população ativa. A previsão oficial para 2009 é de 3,5 milhões.

Mas ainda são previsões “otimistas”. Fontes anônimas da Comissão Europeia têm expressado o temor de que “esteja em jogo não uma recessão de 2% ou 3% senão de 15% a 20%”.

Contradição de uma União de muitas cabeças
Seguindo o caminho do governo Obama, a UE prepara um novo plano geral de resgate dos bancos e empresas. Mas a grande diferença com os EUA é que a União Europeia não é um “estado único”, com um só governo e regras comuns. Pelo contrário. É um bloco imperialista onde convivem de maneira conflituosa diferentes capitalismos, cada um com seus próprios interesses e seu próprio estado. No momento em que a crise se precipitou, a Comissão Europeia (CE) e suas instituições passaram rapidamente a segundo plano ou simplesmente desapareceram de cena.

Por isso, as medidas de resgate bancário têm sido realizadas pelos estados nacionais e não pelas instituições da Comissão Europeia. A CE limitou-se a aprovar os planos que os estados membros, em conivência com seus próprios banqueiros, tinham decidido para salvar seus bancos nacionais e promover sua concentração e centralização. O BNP francês, por exemplo, comprou 75% do banco belga Fortis justo após receber 2,5 bilhões de euros do estado francês. Os bancos da Espanha, que não têm recebido injeções de capital, se queixam da concorrência desleal dos bancos “recapitalizados” de outros países que, como o ING holandês, disputam agressivamente os depósitos espanhóis.

Várias ‘Europas’
Na realidade, há várias “Europas”: a dos imperialismos ricos, a dos menos ricos e a dos estados do Leste Europeu. Num extremo, países como Alemanha e França, os mais ricos do continente, promoveram nesta primeira fase da crise duvidosos planos de reativação e concessões temporárias aos trabalhadores, lançando mão da riqueza acumulada no passado para colher endividamentos no futuro.

No outro extremo estão os países do Leste e os bálticos, últimas incorporações da UE. Países onde o capitalismo foi restaurado à custa de um retrocesso econômico e social brutal, e que foram entregues ao capital multinacional pela nova burguesia surgida do seio da velha burocracia stalinista.

A fragilidade desses últimos países é extrema: dependem dos investimentos e do financiamento das multinacionais, dos bancos estrangeiros e das subvenções europeias. Três quartos de sua produção são exportados para a UE. Suas moedas se desvalorizaram rapidamente. Para eles, a crise significa ruína. Seus governos, servis, fracos, desacreditados e corruptos, carecem de margem de manobra, e seus “planos de choque” representam o empobrecimento da população.

É o caso da Estônia, Letônia, Lituânia, Hungria, Romênia e Bulgária, entre outros que estão à beira da falência, com o desemprego avançando e obrigados a cumprir as receitas clássicas do FMI (desvalorização, rebaixamento salarial, desmantelamento do setor público etc.).

Por trás do bloco do Leste, vêm os imperialismos de segunda e terceira categoria da zona do euro (países que utilizam o euro como moeda), sobre os quais paira a ameaça de falência. A Grécia, depois de uma década de crescimento, vive uma rápida deterioração econômica e social. A desigualdade social é brutal: 80 grandes empresários possuem um patrimônio equivalente ao PIB nacional. Sua dívida nacional, a segunda da Europa, é enorme (96,2% do PIB) e continua aumentando.

A Irlanda é talvez o país da zona do euro mais próximo da insolvência. Segundo as previsões oficiais da UE, em 2009, seu PIB retrocederá 5%, seu déficit público atingirá 11% e o desemprego, 10%. O sistema bancário está sob intervenção, as dívidas dos bancos avalizadas, a maioria de suas ações passou para as mãos do estado e os depósitos estão garantidos. Mas os bancos seguem afundando, enquanto o governo é incapaz de responder pelos fundos e depósitos. Os preços de cobertura da dívida pública irlandesa foram triplicados em uma semana.

Já o estado espanhol detém o triste recorde europeu de desemprego. Em janeiro, o índice superava os 3,3 milhões. A previsão é que o desemprego chegará aos 4,5 milhões até dezembro (20% da população ativa). O déficit público será de 6,2% do PIB em 2009, enquanto o déficit exterior continuará sendo um dos maiores do mundo. Uma piada no recente Fórum de Davos qualificava o país como “fundo hipotecário de alto risco”.

Em fevereiro, o principal fundo espanhol de investimento hipotecário, pertencente ao banco Santander, foi incapaz de fazer frente à retirada em massa de fundos e decretou uma espécie de “corralito” (restrição às retiradas de dinheiro em efetivo) por dois anos. A qualificação da dívida pública espanhola foi rebaixada pelas agências internacionais, dificultando seu acesso aos mercados financeiros internacionais e encarecendo seu financiamento. As empresas estatais (as joias da coroa) já estão caindo em mãos de capital estrangeiro. A italiana Enel acaba de se fundir com a empresa elétrica Endesa e muitos se perguntam o quanto demorará em acontecer algo parecido com a petroleira Repsol.

A crise da União Europeia
O descrédito popular com a União Europeia é intenso e aumenta com a percepção de seu papel como fiel instrumento da “Europa do capital”. O projeto está em crise aberta desde que o povo francês, em maio de 2005, recusou a constituição europeia neoliberal e imperialista. A manobra posterior do presidente francês Sarkozy de substituir a frustrada constituição por um tratado com o mesmo conteúdo (que poderia ser aprovado apenas pelos parlamentos e governos) também resultou num fiasco devido à oposição do povo da Irlanda. Desde então, o tratado está no limbo.
A crise mundial também aumenta a necessidade do capitalismo europeu de se apoiar na UE para se organizar e enfrentar em melhores condições o colapso norte-americano.

Mas a incorporação de novos países à UE encontra-se paralisada. As instituições comunitárias retiraram-se da cena para deixar os estados nacionais agirem diante da crise, em particular o alemão e o francês, que marcam seus próprios planos nas aéreas econômica, financeira, energética, diplomática e militar. A UE vive imersa em um clima cada vez mais nacionalista, com os governos se esforçando em servir a suas próprias burguesias nacionais.

Já começa a ser cogitada a possibilidade de que a crise vá tão longe que chegue a provocar uma hipotética quebra do euro e da atual UE. A perspectiva de falência de países da zona do euro, como Irlanda e Grécia, é uma ameaça próxima. O destino do euro e da própria UE é, portanto, incerto e está submetido a grandes sobressaltos. Mas o que sim está fora de dúvida é que a crise mundial vai dar lugar a outra configuração da Europa.
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