Eurico Miranda: a cara da cartolagem no futebol brasileiro

Reprodução/TV Brasil

Jeferson Choma

Eurico Miranda morreu nesta terça-feira, 12. Por anos, foi presidente do Vasco da Gama. Sua postura paternalista lhe rendeu uma fiel clientela grata por ter salvado o clube carioca de várias situações difíceis. Quando foi deputado pelo partido de Maluf, liderou a chamada Bancada da Bola no Congresso Nacional. Não conseguiu reeleger-se em função da lama em que naufragou em sucessivas investigações sobre negociatas e outras tantas denúncias.

Em qualquer país minimamente sério, Eurico (ao lado de Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira) teria ido para a cadeia, e seus bens teriam sido confiscados. Como os outros oligarcas do futebol, costumava circular com a mesma desenvoltura em páginas policiais e cadernos esportivos.

Em 2000, no final da Copa Havelange (um tipo de campeonato brasileiro organizado pela cartolagem do Grupo dos 13), durante a decisão entre Vasco e São Caetano, protagonizou uma cena para lá de surreal. Após uma briga na arquibancada, um alambrado caiu ferindo mais de 150 pessoas. A torcida tomou o gramado, e centenas de feridos foram atendidos por ambulâncias. Eurico simplesmente mandou as pessoas – paramédicos, feridos e ambulâncias –  deixarem o gramado para que a partida fosse retomada. Alegava que a situação “estava tranquila”. Quando o então governador Anthony Garotinho determinou a suspensão do jogo, Eurico o xingou. Todo o bizarro episódio pode ser conferido aqui (https://www.youtube.com/watch?v=vrRStvpXjno).

O poder de aglutinação das massas provocado pelo futebol sempre despertou o interesse do capital. Mas, nas últimas décadas, a globalização capitalista afetou profundamente o esporte. Por aqui, um dos efeitos foi o aprofundamento dessa relação colonial do futebol brasileiro com os clubes da Europa. Vendemos barato jovens e promissores craques para os clubes de lá – sejam pequenos, sejam grandes – numa típica relação colônia versus metrópole.

A chamada modernização do futebol se expressou no aumento de investimentos das empresas de comunicação no mercado futebolístico; no desenvolvimento acelerado do marketing esportivo; na busca de métodos de gestões empresariais por parte dos clubes; e na entrada de instituições financeiras internacionais no mercado brasileiro. No Brasil, isso ocorreu sob a manutenção da velha estrutura arcaica de cartolagem dos clubes. Aliás, o arcaico, o atrasado o subdesenvolvido foi a condição para o florescimento da dita modernidade.

Eurico foi um símbolo desse processo. Mas não só ele. Basta olhar para a CBF e ver que a entidade não passa de uma agência de cartolas corruptos que ganham muita grana com a venda de jogadores brasileiros. Mas em Eurico Miranda há ao menos uma qualidade: escancarava sem rubor o que há de pior no futebol brasileiro.