EUA: da ameaça de intervenção ao “recuo espalhafatoso”


Um novo momento da revolução síria e a necessidade da solidariedade internacional

Frente ao bárbaro ataque de Assad com armas químicas contra as zonas controladas pelos rebeldes em Damasco, os EUA anunciaram em alto e bom som que bombardeariam a Síria porque o ditador “havia cruzado a linha vermelha”.
 
Obama declarou que o faria, inclusive, sem o respaldo da ONU e apenas com o apoio da Inglaterra e da França. No entanto, os EUA acabaram se agarrando ao plano da Rússia de pôr as armas químicas sob controle internacional em troca da suspensão da intervenção militar.
 
Este recuo estrepitoso do governo norte-americano e seus aliados é explicado, antes de tudo, pela chamada “síndrome do Iraque”, que se expressa na rejeição de amplos setores da população dos países imperialistas, começando pelos próprios EUA. É a rejeição ao embarque de seus governos em novas e caras aventuras militares. Trata-se, sem dúvida, de uma das mais notáveis e progressistas expressões da derrota política e militar das últimas invasões ao Afeganistão e ao Iraque. O primeiro-ministro britânico David Cameron perdeu no parlamento sua aposta de acompanhar Obama, um fato sem precedentes na história recente. Faltava somente a França, que começou a recuar frente à rejeição interna e à crise desatada tanto nos EUA quanto na Inglaterra.
 
Mas o mesmo conteúdo do acordo EUA-Rússia mostra qual sempre foi a política de todas as potências imperialistas. O acordo não passa, em essência, de uma medida cosmética para salvar a cara de Obama. Toda a ação do imperialismo norte-americano e seus aliados ao longo de mais de dois anos de guerra civil na Síria mostra, e os últimos acontecimentos reafirmam, que sua política não é outra que forçar Assad e a resistência a uma saída negociada que, com base em algumas concessões à resistência, preserve o essencial do regime sírio e estabilize o país.
 
Outro elemento, ainda que não seja o determinante, mas que aumenta os receios do imperialismo em apoiar os rebeldes, é a falta de centralização da direção do campo rebelde, que é bem mais fragmentada que na Líbia. Nesse sentido, os EUA e seus aliados imperialistas têm muito temor de que as forças que venham a controlar o processo não estejam sob seu completo domínio.
 
Obama e Putin têm esforçado para estabilizar o país como se fossem os velhos tempos da colaboração EUA-URSS (antes da restauração capitalista e fim da URSS) para enterrar as revoluções.
 
Este fato mostra claramente à resistência, tanto aquela que com justa razão estava contra a intervenção militar, como os setores que, levados pela desesperada situação, alentaram esperanças nessa intervenção, que as chamadas grandes potências e em especial os EUA não são “amigos da revolução” nem têm qualquer interesse “humanitário”. São, na verdade, cúmplices de Assad.
 
Armas e apoio material para a resistência
A LIT-QI sempre esteve contra a intervenção imperialista pois ela tinha o objetivo de tentar controlar e derrotar a revolução por dentro, para estabilizar o país e a região sob seu controle. Essa intervenção não tinha o menor interesse “humanitário”. Toda sua ação está a serviço de seus objetivos colonialistas e contrarrevolucionários. O projeto do imperialismo não passa da conversão da Síria em uma colônia norte-americana. Para aqueles que resistem ao tirano Assad, mas alentam esperanças de libertação pelos EUA, Inglaterra ou França, dizemos-lhes que a história atesta que serão libertados de um déspota sanguinário como Assad para ser dominados pelos maiores déspotas que a humanidade conhece: os imperialistas.
 
Se o povo sírio não conseguir sua própria libertação com a ajuda de seus irmãos dos outros povos, o sacrifício dos mártires terá sido para mudar de uma ditadura como a dos Assad para outra bem mais forte e poderosa, representada pelos EUA e seus aliados.

Pai e filho lutam contra as forças da ditadura Assad, na Síria
 
Se os EUA, Grã-Bretanha, França e seus aliados tivessem o mais mínimo interesse humanitário, o mais mínimo critério democrático, não poupariam a ajuda em armas e material à resistência síria para que o povo sírio tenha, ao menos, o mais elementar direito a se defender de seu tirano.
 
A LIT-QI está ao lado do povo sírio e de sua heroica resistência contra Assad, e desse lado inequívoco da barricada, continuamos contra qualquer intervenção militar do imperialismo. Ao mesmo tempo, chamamos a todas as organizações operárias, populares e democráticas a redobrar esforços para exigir dos governos o envio de armas e apoio material à resistência síria.
 
A questão militar e o lamentável papel da “esquerda”
A contraofensiva de Assad nas últimas semanas baseou-se na superioridade do armamento e no apoio direto, tanto do Hezbolah – com milhares de efetivos – quanto no fornecimento e apoio logístico da Rússia, bem como do Irã e da Venezuela. Esta ofensiva obteve avanços, como a recuperação de Qusair, mas teve sem dúvida um limite: a situação das tropas do exército de Assad que, apesar da superioridade militar, não tem moral para ir ao combate franco e direto e aplastar a revolução. Isso se vê em particular em Damasco e é o que pode explicar que o regime não consiga aplastar os batalhões da periferia, como em Ghouta ou Kabum.
 
Esse panorama faz que a relação de forças reflita um momento de impasse, que pode ser prolongado. Vários analistas preveem uma guerra longa que, do ponto de vista da luta pela derrota de Assad, significa mais um longo período de sofrimento, se não houver um apoio efetivo à revolução.
 
Embora a suspensão do bombardeio dê um respiro a Assad, pois anula a possível destruição aérea de objetivos militares, não altera a situação global. Apesar da superioridade militar, Assad não consegue retomar o controle da maior parte das zonas libertadas, inclusive na periferia de Damasco, pois não conta com a quantidade necessária de efetivos em condições de ir ao combate direto. As baixas e a desmoralização de seu exército é suprida pelo ditador pelo sinistro e vergonhoso papel do Hezbolah, que está dilapidando o patrimônio acumulado em sua luta contra o sionismo.
 
Apesar de tudo, os rebeldes conseguiram vitórias em Aleppo e Latakia. Esse panorama aponta para uma guerra civil longa, o que dá mais importância ao papel da campanha internacional de solidariedade.
 
Mas, infelizmente, a ampla maioria da esquerda mundial tem posições contrárias à revolução síria. Por um lado, o castro-chavismo e o stalinismo em geral se alinharam totalmente a Assad, como já fizeram em relação a Kadafi.
 
Por outro lado, os centristas e muitas organizações que se reivindicam “trotskistas” cedem à pressão dos stalinistas sob o pretexto da direção dos rebeldes. Para “não capitular” a essas direções, propõem de fato manter a revolução síria isolada, e por essa via contribuem com sua derrota, ao mesmo tempo em que deixam que o imperialismo e seus aliados continuem aparecendo como os únicos que a defendem.
 
A LIT-QI tem claro de que lado da barricada está. Exigimos armas e apoio material para a resistência síria, para acabar com a diferença qualitativa entre o armamento do regime e o dos rebeldes. É necessário um armamento superior, mísseis antiaéreos, tanques com tecnologia moderna. Esse tipo de armamento não pode ser conseguido se não for fornecido pelos governos da região e pelos governos imperialistas.
 
E é quando propomos esta exigência democrática básica, o direito ao povo sírio de se defender, que os supostos esquerdistas e trotskistas se escandalizam e vociferam a respeito da “capitulação da LIT-QI ao imperialismo”.
 
Caberia perguntar-lhes: o envio de armas e apoio material à República quando os trabalhadores e o povo enfrentavam as tropas de Franco não foi uma exigência unânime de toda a esquerda no Estado espanhol e no mundo? Não se exigiam essas armas, especialmente à Inglaterra e à França? Inglaterra e França não eram países imperialistas? O não envio desse armamento não passou para a história como uma demonstração da negação ao apoio à República, o que ajudou no triunfo de Franco?
 
Grupos que se reivindicam trotskistas somam-se a este coro de que fazemos “o jogo do imperialismo” ao exigirmos armas para a resistência síria. Esses grupos enchem-se de frases pomposas em nome de uma suposta ortodoxia, quando Trotsky foi o primeiro em condenar energicamente a negativa dos governos da Inglaterra e da França durante a guerra civil espanhola, como uma atitude que só fortalecia ao fascismo e, ademais, sempre propôs que os revolucionários deviam utilizar as contradições do imperialismo e podiam aceitar armas para continuar sua luta. 
 
Por conseguinte, como dizia Trotsky, deixemos a estes ultraesquerdistas com suas pomposas afirmações, repudiando junto com o povo sírio, a quem apoiamos, sua resposta com legítima indignação.
 
Os grupos da al-Qaeda: a quinta coluna de Assad
Um confronto entre os batalhões rebeldes e os Comitês Locais, de um lado, e as organizações vinculadas à al-Qaeda de outro, em especial Jabat al-Nusra e EISI, ocorre cada vez com mais frequência nas regiões libertadas.
 
Trata-se de um confronto crescente nas zonas libertadas entre os ativistas que lutam pela derrubada de Assad em nome de uma Síria democrática e os grupos vinculados à al-Qaeda, que proclamam que seu objetivo não é outro que a instauração de um Califado e que, portanto, a linha divisória da guerra não estaria entre as tropas de Assad e as dos Comitês Locais e do ELS, mas entre os devotos de um novo estado teocrático e ditatorial e os “infiéis”.
 
Para isso perseguem ativistas, detêm e assassinam – incluindo um padre que apoiava a revolução, pelo simples fato de que queria exercer seu direito ao culto –; castigam e executam jovens que não se declaram muçulmanos ou que não saibam ler o alcorão; mulheres que não usem véu, etc., em todas as áreas que dirigem. Assassinam comandantes do ELS e não se subordinam à unidade da luta contra Assad; negam-se a se unir às demais milícias rebeldes. Além disso, estão sendo acusados pelos Comitês Locais e pelos batalhões rebeldes de abandonar a frente de batalha para concentrar suas tropas na retaguarda. Isso já está levando a uma divisão, além de servir de justificativa a Assad, e leva [também] a que os setores minoritários – como os alauitas ou xiitas que eles perseguem – sejam atraídos pela ditadura.
 
A LIT-QI vem denunciando seu papel, mas agora se trata de dizer claramente que são uma quinta coluna de Assad no campo da revolução. Que onde eles dirigem deve-se organizar contra sua ditadura. Pela defesa dos Comitês Locais, é o povo quem deve decidir a vida nas zonas. Não é para impor uma nova ditadura da al-Qaeda e seus sócios que se está derrubando Assad, como a resistência denuncia com justa razão.
 
A guerra é a continuação da política por outros meios
O velho Trotsky, alguém que sabia o suficiente de guerras e de temas militares, fundador e dirigente do Exército Vermelho, referindo-se à revolução espanhola e à guerra civil dizia: Numa guerra, o resultado depende uma quarta parte, ou menos, do aspecto militar e três quartas partes, ou mais, do político.
 
O programa e a política da resistência convertem-se no problema mais crucial para poder ganhar a guerra.
 
É possível unificar a atualmente dispersa e atomizada resistência sem um programa que expresse os objetivos comuns, dos trabalhadores, do povo, das nacionalidades oprimidas, da juventude e das mulheres que enfrentam Assad? É possível unificar a resistência sem um programa de libertação nacional e social?
 
Quem considera essas perguntas como desnecessárias, inclusive prejudiciais, porque “agora se trata de derrubar a Assad e só falaremos disso depois”, colocam a vitória militar e as tarefas da revolução em planos separados e por essa via preparam a derrota da revolução e a derrota na guerra.
 
Portanto, o problema da batalha por esse programa é o problema da direção da guerra e da revolução. Se os grupos da al-Qaeda ganham espaço não é tanto pelo armamento que recebem, que é um fator importante, mas porque eles, com seu Califado, sua Sharia e sua constituição islâmica têm um programa, contrarrevolucionário, mas um programa, ao redor do qual unificam os objetivos da luta.
 
Pode a resistência fortalecer-se sem que os dirigentes deixem claro ante o povo curdo se a Síria pela qual se luta inclui ou não o direito do povo curdo à sua autodeterminação?
 
Pode a resistência unificar-se e fortalecer-se se ante os olhos da juventude combatente se não deixa claro se a Síria pela qual se luta será regida pelo princípio da soberania nacional, sem entregar seus recursos às multinacionais imperialistas para que continuem o espólio da Síria?
 
Pode a resistência fortalecer-se se as mulheres sírias, vanguarda na luta contra o regime, não sabem se na Síria vitoriosa terão um lugar em pé de igualdade com os homens ou seguirão sendo oprimidas e subjugadas por leis reacionárias?
 
Pode a resistência fortalecer-se sem saber quem decidirá o futuro da Síria caso se consiga derrubar a Assad? Será uma assembleia constituinte, livre e soberana que decidirá o futuro da Síria? Ou serão os amigos do imperialismo, que preparam a “transição” do exterior, esperando a participação de setores do regime de Assad nessa negociação?   
 
A luta pelo programa da revolução converte-se assim na arma mais poderosa da resistência. A luta por esse programa começa pelo posicionamento dos combatentes revolucionários mais lúcidos à frente da batalha para construir esse programa, por fazer com que os Comitês Locais participem de sua elaboração, enquanto batalham pela centralização destes Comitês que, unificados, devem ser convertidos no verdadeiro órgão de poder da revolução. A luta por esse programa deve incluir como tarefa a batalha pela conformação de um Comitê Central de Milícias que, submetido às decisões do órgão centralizado dos Comitês Locais, ponha fim à atual atomização e centralize os planos militares, o abastecimento das milícias e o armamento.
 
A batalha por esse programa é para ganhar a guerra e dar uma saída operária, popular e democrática à revolução síria. 
 
Nesse sentido, é fundamental que todos esses combatentes mais conscientes e que integram os comitês locais construam este programa e, em torno do mesmo, proponham a tarefa de construir um partido político revolucionário, socialista, operário e internacionalista.
 
A defesa desse programa e a luta pela construção do partido revolucionário se darão inevitavelmente a partir de um combate político permanente às atuais direções colaboracionistas que – tanto a chamada Coalizão Nacional Síria quanto a Coordenação Nacional Síria, ou o comando do ELS – não têm feito mais que clamar uma e outra vez pela intervenção imperialista enquanto mostram sua incapacidade para resolver os problemas cruciais da resistência.
 
Uma campanha internacional de solidariedade com a revolução síria é urgente!
A LIT-QI chama a intensificação da campanha de apoio à resistência síria. Chamamos todas as organizações operárias e democráticas que exijam dos governos armas e apoio material para a resistência síria.
 
Não queremos intervenções militares do imperialismo, queremos que o povo sírio tenha o mais elementar e democrático direito de se defender. Quem clama com justa razão que não se pode ficar indiferente frente a um massacre que consumiu mais de 100 mil vidas, devem ser os primeiros a se somar a esta exigência a seus governos.
 
Por nossa parte, vamos intensificar a campanha facilitando que a voz da resistência síria se escute em todas as partes, organizando atos e debates com os companheiros mais próximos que fazem parte da resistência síria.
 
Nossa campanha está a serviço do triunfo da revolução síria, para o qual fazemos a exigência pública aos governos de envio de ajuda material aos combatentes sírios e lutaremos para que as organizações operárias e democráticas se somem a esta campanha.
 
Ao mesmo tempo, tomaremos iniciativas a fim divulgar a situação da revolução na Síria e arrecadar apoio material para os setores mais progressistas da resistência, como os Comitês locais.
 
A revolução síria é atualmente o principal confronto entre a revolução e a contrarrevolução no mundo. De sua vitória ou derrota depende o futuro não só dessa revolução, mas do conjunto das revoluções na região. Não existe, então, tarefa mais urgente que envolver a revolução síria com solidariedade ativa.
 
Comitê Executivo Internacional
 
27 de setembro de 2013