Espanha e Noruega entre o sol e a escuridão: a Europa em 2011 na encruzilhada entre a revolução e o fascismo

Detalhe de manifestação em Madri
Henrique Carneiro

Há certamente um fundo objetivo para tudo que está ocorrendo no ano admirável da onda revolucionária de 2011, essa nova “primavera dos povos” revolução nos países árabes, Tunísia, Egito, Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein; levante dos indignados na Europa contra os pacotes de austeridade na Grécia, Espanha, Portugal; retomada do movimento estudantil de massas no Chile; eclosão do movimento social no mesmo estilo das acampadas e tomadas de praças até em Israel; lutas sociais crescentes na China, não só dos uigures, mas também greves em grandes cidades.

Uma crise, enorme, de um modelo de acumulação financeira com um fim em si mesmo, tornando-se um monstro expansivo que coloniza a sociedade. O sistema das dívidas é uma máquina perversa de dominação capitalista, que hipoteca o trabalho humano a ser ainda extraído no futuro e já o insere como lastro de escravidão, como dívida que cresce exponencialmente. A crise de 2008 chega em 2011 com um novo patamar de decomposição da ordem internacional com o abalo inédito na confiança dos próprios Estados Unidos serem capaz de sustentar o crescimento de sua dívida.

Na Europa, o caminho do ajuste fiscal e estrutural é o de sempre por parte do FMI e bancos: privatizar mais, cortar gastos sociais, desregulamentar mais, cortar aposentadorias, salários e pensões. Mas, dessa vez, se trata de “latino-americanizar”os países de maior tradição de luta social, com conquistas a serem preservadas. Para implementar tais planos será preciso derrotar brutalmente o movimento social.

Para isso se anunciam e se preparam a direita e a extrema-direita, enquanto os partidos que ainda mantém os nomes de socialistas, de forma desavergonhada, executam os “ajustes”. O PSOE, na Espanha, e o PASOK, na Grécia, da mesma Internacional Socialista ao qual pertenciam também os partidos de Mubarak e Ben Ali. A esquerda “oficial” é quem se encarregou de impor o pacote. Por isso, gritam nas ruas os indignados de Madrid: “donde está la izquierda? Al fondo, a la derecha” E por isso, os espanhóis e gregos já disseram qual a solução: “esa crise no la pagamos” “la solución, banqueros a prisión”.

A crise é o sistema. Essa a bandeira central das marchas do movimento 15-M que percorreram a pé centenas de quilômetros a partir de seis pontos do país em direção à Madri, aonde chegaram no dia 23 de julho em grande comemoração na Puerta Del Sol. No dia seguinte desfilaram ao menos quarenta mil pelas ruas de Madri, de Atocha a Sol.

No começo de agosto, a polícia ocupou a emblemática Puerta Del Sol e bloqueou a entrada do povo, fechando até a estação de metrô, depois de desalojar de madrugada todas as barracas e marcas que restavam do 15-M na praça expulsando delas os indignados. Num cálculo idiota do governo, isso foi sentido como uma afronta pelo povo de Madri e, após três dias de protestos contínuos, com uma carga repressiva da polícia que deixou vários feridos, inclusive um senhor de 74 e uma senhora de 88 anos, uma marcha de milhares recuperou a Puerta Del Sol em triunfo. Em todo Espanha voltou a repercutir o foco luminoso do sol que se levanta em plena noite.

O tempo não corre sempre por igual. Não há um fluxo contínuo, uniforme, linear. Ocorrem variações de intensidade. Vivemos um desses momentos peculiares. Pequenos detalhes desencadeiam processos de massa. Revoluções começam como que por acaso.

Um vendedor de frutas que se imola na Tunísia. Um blogueiro de Internet no Egito. Na Espanha, foi uma manifestação pela reforma da lei eleitoral que ocorreu num domingo chuvoso em Madri, após um ato no dia anterior ter reunido alguns milhares na marcha da maconha do 14 de maio. Os dois fatos não tiveram relação de causalidade, mas só de coincidência, diferente de São Paulo, onde a repressão à marcha da maconha desencadeou um movimento de juventude em marchas pela liberdade.

Em Madri, os membros desse protesto resolveram dormir em 15 de maio na Praça que é o marco zero do país, a Puerta Del Sol, cenário anterior de outras revoluções, e foram violentamente desalojados pela polícia. No dia seguinte uma multidão sustentou um acampamento que repetiu a Praça Tahir na Europa. Depois fizeram marchas de centenas de milhares em muitas cidades em 22 de junho, chamaram marchas a pé de seis pontos da Espanha em direção à Madri aonde chegaram dia 23 de julho, realizando no dia seguinte ato com cerca de 40 mil pessoas e, no outro dia, um fórum de centenas que discutiram num parque propostas sobre política, meio ambiente, internacional, mulheres, educação, etc. Na Puerta Del Sol e em centenas de lugares na Espanha se instalam assembléias de indignados com microfones abertos. Um aparato com pessoas pedalando produz energia. Os gestos da assembléia também refletem uma nova dinâmica, saturada das manipulações burocráticas e dos discursos supérfluos, abdicando dos aplausos em favor das mãos agitando para o alto, das vaias em favor das mãos cruzadas com os punhos fechados indicando negação e as mãos girando em torno de si mesmas significa que o orador se repete.

Alternam-se pessoas que nunca falaram em público com militantes experientes. O que se debate é qual a alternativa ao capitalismo e ao sistema político vigente. Uma nova República como alternativa à monarquia. Como pode haver uma mudança constitucional, se uma Constituinte deve ser convocada ou se o 15-M deve formar um partido pelo (proposta pouco aceita). Privilegiam-se as idéias de ação direta. Rechaço dos despejos de famílias pobres e das batidas policiais contra imigrantes, com alerta dos vizinhos na chegada dos oficiais de justiça e da polícia. Defende-se a ocupação urbana de prédios desocupados. Uma grande marcha européia para Bruxelas foi proposta para 15 de outubro e alguns dos manifestantes que chegaram a Madri já se puseram de novo a caminho numa espécie de peregrinação revolucionária que já foi chamada de “caminho de Santiago da esquerda” Outros permanecem em Madri assediando o congresso, com o acesso bloqueado pela polícia, e acampando em parques e canteiros, defendendo as vizinhanças e lutando pela reconquista da praça simbólica da liberdade e da revolução.

Em outro ponto da Europa, no país que tem o maior voto de extrema-direita (23%), a Noruega, outro ponto de vista também se inspira na Espanha, em outra Espanha. O extremista assassino norueguês em seu manifesto se identifica com El Cid, com os cavaleiros templários, com a cruzada anti-islâmica, e também com o militarismo fascista, com a guerra civil vitoriosa contra o povo e a esquerda.

O ataque de Oslo é apenas uma versão mais radicalizada, mas articulada com a extrema-direita racista e fundamentalista cristã que surge, tanto na Rússia, como na Noruega ou na França, como uma alternativa à crise por meio da busca do bode expiatório, e dessa vez o anti-semitismo continua, mas não contra judeus, mas árabes e estrangeiros em geral.

Enquanto os povos se levantam, os partidos socialistas impõem ataques ao nível de vida do povo e usam as mesmas atitudes policiais dos períodos ditatoriais para reprimir sendo cada vez mais indistinguíveis da direita. Mas a extrema-direita sabe que a ira do povo não será pequena, que a Europa tem uma grande herança de lutas e anuncia sua alternativa de extermínio genocida, esperando um cenário futuro de confrontos. O modelo de pacto de transição ditatorial para uma democracia formal surgiu na Espanha em La Moncloa, foi aplicado na América Latina, e consiste em mudar para tudo permanecer como antes e poupar o fascismo de qualquer julgamento. A cumplicidade dos partidos socialistas foi central para esse novo regime de ditadura financeira, midiática e corrupta.

A insustentabilidade da política atual e o colapso do sistema financeiro rentista parasitário está em choque com a resistência popular. A Puerta Del Sol é uma primeira batalha que vem sendo vencida pelo povo. Outras muito maiores estão se delineando no futuro abreviado deste ano espesso, intenso, dinâmico, em que as reações em cadeia começaram e um ponto da ruptura pode ser vislumbrado, época crepuscular e de um novo nascer do sol se anunciando. O mundo está mudando paradigmas, um império se arruína e a esperança é tentar salvar a humanidade dessa ruína.

Entre os perigos, além da extrema-direita, as contradições intrínsecas ao próprio movimento social, sua capacidade de fundar uma nova democracia, de romper com o burocratismo, de unificar diferentes setores e de repercutir especialmente a voz dos mais pobres que ainda não se fizeram ouvir, o que faz da busca da greve geral um tema central da tática política imediata. Para isso, além do 15-M, será preciso impactar as bases sindicais, se for possível em aliança com as centrais, se não for possível, contra elas, esperando repetir o que foi o mais importante na França de 1968, a entrada em cena da greve geral auto-convocada por tempo indeterminado da classe trabalhadora no seu conjunto em aliança com os jovens rebelados na capital.

Essa greve poderá ter um impacto ainda maior se for convocada em âmbito internacional como ação européia coordenada e a marcha de 15 de outubro precisa recolocar em cena não só o movimento anti-globalização e anti-guerra, como a greve dos setores industriais e a rebelião urbana dos indignados numa escala continental que faz da crise econômica atual uma crise ecológica, social e política mais geral da própria dominação capitalista sobre o planeta.

A Espanha, como já foi no passado, é hoje uma grande esperança da Europa. Que novas brigadas internacionalistas se reúnam na Puerta Del Sol para ampliar a praça Tahrir da Espanha para todos os países do mundo. O centro do programa já é claro, mas deve ser mais bem teorizado e definido: a luta contra os bancos. Estatização, expropriação, prisão dos ladrões de milhões, ruptura com a subserviência do Estado aos bancos por meio do sistema de dívidas públicas. Além das táticas concretas de luta, esse desafio, o de definir um programa, é o maior que está colocado nos próximos meses.