Escândalo do HSBC revela muito mais que uma lista de grandes sonegadores


Caso vem sendo abafado no Brasil pois atinge tanto PT, quanto PSDB e grandes banqueiros e empresários

O maior escândalo financeiro da história está rolando e quase nada se comenta na mídia tupiniquim. Trata-se do chamado “SwissLeaks”, o vazamento de dados de correntistas da filial do banco HSBC na Suíça. Esse, que é segundo maior banco do mundo e o maior da Europa, criou e pôs em prática um megaesquema de lavagem de dinheiro e sonegação para aqueles ricaços que precisam de sigilo e discrição para guardar suas fortunas. Seja por qual motivo for.   

Os dados que estão sendo revelados agora foram copiados pelo então funcionário do banco, Herve Falciani, entre 2006 e 2008, e vazados pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em inglês) agora em fevereiro. São movimentações que somam mais de 100 bilhões de dólares num período que vai de 1998 a 2007.

Nesse dia 18 a polícia cumpriu mandado de busca e apreensão nos escritórios do HSBC em Genebra, ao mesmo tempo em que a Justiça suíça anunciava a abertura de inquérito sobre o caso. A “lista Falciani” tem uma relação de 130 mil nomes, incluindo grandes empresários, políticos e artistas conhecidos, que podem estar envolvidos em lavagem de dinheiro, sonegação e evasão de divisas, entre outros crimes.

O ICIJ, o jornal francês Le Monde e o britânico The Guardian, tal como faz o WikiLeaks de Julian Assange, firmou um acordo com 140 jornalistas e grupos de mídia de todo o mundo para analisar e divulgar o conteúdo dessa lista. No ranking dos países que teriam grana escondida pelo HSBC em Genebra estaria a própria Suíca, o Reino Unido e, em terceiro, a Venezuela, então governada por Chavez.

Uma extensa lista de ditadores e governos autoritários aparece entre os envolvidos, incluindo o do primo do ditador sírio Bashar Al Assad, Rami Makhlouf, o do ex-ministro do Comércio do Egito no governo Mubarak, Rachid Mohamed Rachid, e até o do ex-ditador haitiano Baby Doc.

O escândalo expõe um esquema bilionário de fraude e lavagem de dinheiro montado pelo HSBC. A quantidade de clientes listados no paraíso fiscal mostra que esse serviço era bem conhecido e colocado à disposição para qualquer um que tivesse grana e precisasse guardá-la longe das autoridades ou da população de seus respectivos países. Seja um artista fugindo dos impostos ou um traficante de armas, tanto faz.

E o Brasil?
No país, o ICIJ fez um acordo com o jornalista do Uol, Fernando Rodrigues, para analisar e divulgar dados referentes ao Brasil. Há 8.867 correntistas brasileiros, em depósitos que totalizam 7 bilhões de dólares.

Entre os brasileiros flagrados com contas no HSBC da Suíça está Pedro Barusco, ex-diretor da Petrobras e envolvido no esquema Lava a Jato, que já havia confessado a existência dessa conta em delação à Polícia Federal. Além dele, a família Queiroz Galvão, dona da empreiteira cujo presidente continua preso, também escondia lá uma grana, além de outros envolvidos nos casos investigados pela operação.

A lista, porém, não termina aí. Um dos motivos pelos quais o assunto não vem tendo grande repercussão na mídia seria o envolvimento de peixes graúdos no esquema. Peixes de sobrenomes como Safra e Steinbruch (donos da CSN). Jornalistas e blogueiros ligados ao PT e ao governo acusam o Uol de filtrar as informações e revelar somente dados relacionados à Operação Lava a Jato, sendo que o esquema também teria sido utilizado para esconder o dinheiro da privatizações fraudadas do PSDB nos anos 1990.

O jornalista Amaury Ribeiro, autor de “A Privataria Tucana” rompeu publicamente com o ICIJ do qual era filiado por conta dessa divulgação seletiva dos dados. O jornalista Fernando Rodrigues, por sua vez, afirmou em seu blog que o critério para a divulgação dos nomes seria “interesse público” ou que se possa provar “que existe uma infração” no dinheiro depositado na Suíça. Nessa justificativa ele argumenta que não é crime depositar dinheiro na Suíça, desde que declarado à Receita Federal. Resta saber por que alguém depositaria seu dinheiro num esquema conhecido mundialmente por lavar dinheiro e sonegar imposto, que não esteja envolvido em alguma mutreta.

Hipocrisia
Com a revelação do escândalo, o HSBC teve a pachorra de pedir desculpas em anúncios publicados nos principais jornais da Europa. Porém, não foi a primeira vez que o banco foi pego em alguma atividade ilegal. O HSBC já se tornou assíduo frequentador das páginas dos jornais por motivos que não, digamos, comerciais. De lavagem de dinheiro a cartéis do tráfico no México a serviços prestados a traficantes de armas na Arábia Saudita. O governo britânico, não menos cínico, criticou o banco e afirmou ser necessário ampliar as medidas de fiscalização do sistema financeiro. O fato do ex-diretor do HSBC ter sido ministro do Comércio entre 2011 e 2013 foi, claro, esquecido.

Herve Falciani afirma existir ainda “um milhão” de dados a ser divulgado. Muita coisa ainda está para ser revelado. Mas pelo pouco que já pudemos ver, algumas conclusões podem ser tiradas. No Brasil, o escândalo pode incriminar tanto o PSDB, via as privatizações fraudulentas na época de FHC, como o PT, nas tramoias da Petrobras. Daí porque cada um segura de seu lado. Já a mídia, tanto a chapa-branca quanto, principalmente, as grandes redes de TV como a Globo ou os jornalões, abafam o caso para não se indisporem com gente como os Safra.

O maior escândalo financeiro da história mostra, sobretudo, a hipocrisia dos governos e dos grandes bancos. É possível esconder um esquema desse tamanho e extensão, com clientes que vão do cantor inglês David Bowie ao ditador haitiano Baby Doc, sem qualquer autoridade saber? Enquanto os pobres são penalizados pela crise na Europa ou até aqui no Brasil, pagando cada vez mais impostos sobre seus salários, os ricos podem sonegar à vontade com os serviços de um grande banco. E não importa se a dinheirama vem do tráfico de armas, drogas, corrupção, ditadura, ou o que for, pois o capital não pede crachá.