Equador: os fatos por detrás da cortina de gás lacrimogêneo

Correa foge do gás lacrimogêneo lançado por policiais

Golpe de Estado ou uma farsa encenada por Correa?Quito, 29 de novembro. Após semanas de chuvas e frio intensos, finalmente o sol reina absoluto na capital equatoriana. Às vésperas de se completar dois meses do fatídico 30 de setembro, o país respira uma relativa tranqüilidade. Em frente à entrada do Regimento Policial de Quito nº 1, policiais, ou “chapas” conversam tranqüilamente. Ao fundo do prédio da polícia, pode-se vislumbrar parte do vulcão Pichincha despontando sobre as montanhas, coberto de gelo e compondo uma típica paisagem andina.

Não fossem pelas perfurações de tiros nas paredes e na passarela que liga duas partes do Hospital Metropolitano, próximo ao Regimento, seria difícil crer que há tão pouco tempo o presidente da República enfrentava ali uma feroz rebelião policial e que ao final daquele dia, 6 corpos sem vida tombavam por ali. Se as marcas dos disparos ainda forem insuficientes para lembrar os acontecimentos daquele dia, as pichações nas paredes se encarregam de fazê-lo. “Correa, el pueblo te apoia”, diz uma delas.

O 30-S
Na TV, o presidente do Equador, Rafael Correa, desafia os policiais, desarrocha o colarinho da gravata e grita: “Querem matar seu presidente? Pois aqui estou, matem-me!”. Logo depois, munido de uma máscara de gás e protegido por seus seguranças, o mesmo Correa fugia da turba de policiais enfurecidos, alojando-se no hospital da polícia, a poucos metros do regimento. Essas cenas foram acompanhadas pelo mundo inteiro no dia 30 de setembro, colocando o país sul-americano mais uma vez no centro das notícias.

A partir daí, imagens confusas e desencontradas não deixavam claro o que de fato ocorria. De dentro do hospital, Correa denunciava um golpe de Estado e se dizia “seqüestrado” pelos policiais sublevados. Do lado de fora, as imagens da venezuelana Telesur captavam as imagens de um furioso enfrentamento entre policiais e soldados leais ao governo. Pouco depois, a confirmação: Correa havia sigo heroicamente resgatado por tropas leais ao governo. Honduras não se repetiu e os golpistas foram rechaçados.

O dia não havia acabado e a esquerda em todo o mundo polemizava sobre os fatos ocorridos no país sul- incrustado entre a Colômbia e o Peru. Para grande parte dela, não restava espaço para dúvidas. O golpe de Estado articulado pela direita e o Imperialismo tentava derrubar um governo de esquerda na região, contrário aos interesses norte-americanos. Mas o que realmente ocorreu naquele dia 30 de setembro, apelidado pela imprensa equatoriano de 30-S?

O passo-a-passo do “golpe”
Ninguém poderia imaginar o que ocorreria ao longo daquele último dia de setembro, quando os policiais e soldados amanheceram amotinados. Indignados pela chamada Lei de Serviços Públicos do presidente Correa, oficiais de baixa patente realizavam manifestações em diversas partes do país, chegando a ocupar o aeroporto internacional da capital equatoriana. A nova lei extinguia uma série de direitos dos militares, como bonificações e as condecorações a cada cinco anos. Os amotinados denunciavam ainda a discriminação entre os oficiais e os demais soldados e policiais.

Seguindo seu estilo de confrontação, Correa resolve ir ao Regimento Policial de Quito encarar os policiais. Quem conhece o autoritarismo tacanho de Correa sabe que o diálogo com setores em desavença com o governo não é de seu feitio. Do alto de uma das janelas que dão para o pátio ocupado pelos policiais, o presidente tenta se dirigir aos rebelados defendendo seu governo e afirmando que aumentara o soldo em seu mandato. “Foi Lúcio que fez” , responderam exaltados alguns deles, referindo-se ao ex-presidente Lúcio Gutierrez, deposto por mobilizações populares em 2005.

Irritado, Correa protagoniza as cenas que rodaram o mundo, soltando o colarinho e pedindo que os policiais o “matassem”. A tensão e os ânimos se aprofundam. Cercado por seguranças, o presidente desce ao pátio. Alguém joga uma bomba de gás lacrimogêneo. Logo, os seguranças de Correa providenciam uma máscara de gás. Mancando devido a uma lesão no joelho, o presidente é levado ao Hospital da Polícia, a poucos metros dali, onde se dariam os lances mais dramáticos daquele dia.

O presidente é então instalado na sala 302 do terceiro andar do prédio. O hospital da polícia ocupa um grande prédio quase ao lado do regimento. Segundo apuração do jornal El Comercio, no hospital Correa teria recebido alimentos, água, além da visita do médico que havia operado seu joelho. A área ocupada por Correa e sua comitiva foi completamente isolada do resto do hospital. O presidente recebe também a visita de correligionários, entre eles o ministro das Relações Exteriores, Ricardo Patiño.

Do lado de fora, o clima não era tão calmo. Simpatizantes da Alianza País, coligação de partidos da base governista, tentavam se aproximar do hospital e eram reprimidos pela polícia com bombas de gás. Segundo a imprensa, Correa recebeu pelo menos três comissões formadas pelos militares e lideradas pelo General Euclides Mantilla a fim de negociar uma saída pacífica para o conflito. Pediam um recuo do governo em relação à extinção dos bônus e da política de condecorações. O presidente, porém, nega o pedido. Mesmo assim Mantilla tenta, do lado de fora, acalmar os ânimos dos policiais.


Marcas do 30 de setembro permanecem em Quito

Resgate cinematográfico, mortos reais
Enquanto Correa permanecia no hospital, a versão do golpe de Estado já corria aos quatro ventos, insuflada pelo próprio governo. Patiño convocou a população para a Praça Grande, no centro histórico de Quito e conclamou a que marchassem até o hospital “resgatar” o presidente. O governo impôs ainda uma cadeia nacional de televisão, que deveria retransmitir o sinal da Ecuador TV, a emissora estatal. De dentro do hospital, Correa denunciava à emissora e à Telesur, o canal internacional de TV de Hugo Chávez, que estava “seqüestrado”.

Ao final da tarde, porém, cerca de 300 policiais organizaram uma espécie de corredor de segurança para que Correa pudesse deixar o hospital. “Queremos que ele vá embora, para que não sigam dizendo que ele está seqüestrado”, afirmou à imprensa um dos policiais. O presidente, porém, não saiu. Ao que tudo indica, ele já havia traçado sua tática de confronto, que custaria mais tarde a vida de oito pessoas.

O governo já havia decretado o Estado de Exceção em todo o país quando mobilizou um gigantesco operativo militar para retirar Correa do hospital. Dois grupos de elite da polícia, o Grupo de Intervención e Rescate (GIR) e o Grupo de Operaciones Especiales (GOE) deram cobertura à intervenção das Forças Armadas. Cerca de 50 soldados de elite do Grupo Especial de Operações contaram ainda com o apoio de 2 helicópteros, 4 caminhões, além de 250 “botinas rojas” e 400 soldados de outros destacamentos.

A invasão do hospital ocorreu por volta das 21h e o confronto foi inevitável. A TV mostrava as cenas do combate feroz entre policiais e militares. Por fim, Correa é retirado do prédio e levado ao Palácio Carondelet, onde discursa triunfante contra o “golpe”. No dia seguinte, a imprensa contabilizava 8 mortos e 275 feridos, incluindo os pacientes do Hospital Policial e do Hospital Metropolitano intoxicados com o gás lacrimogêneo.

Versões em choque
Terminada o confronto militar, a batalha de versões só começava. Golpe ou farsa? Correa acusou o ex-presidente Gutierrez e seu Sociedad Patriótica de estarem por trás da rebelião policial. Para o público externo, o governo equatoriano acusou ainda a imprensa do país. O que se viu durante o 30-S, porém, foi uma surpreendente unanimidade ao redor da defesa do governo Correa. Tanto interna quanto externa, ao contrário do que ocorreu em Honduras. Praticamente todos os governos dos países americanos declararam apoio a Correa, além de organismos como a OEA ou a Unasur.

No Equador, os grandes empresários rechaçaram qualquer golpe e até mesmo a Câmara de Indústria e Produção publicou anúncios defendendo a “ordem institucional vigente” no país. O próprio Patiño, em entrevista publicada dia 6 de outubro no jornal El Comércio negou qualquer participação dos EUA na “conspiração” do 30-S. ” Creio firmemente que o presidente Barack Obama e seu governo não tem nada a ver com isso”, afirmou o ministro de Correa.

Na mesma entrevista Patiño dá uma razão no mínimo interessante para explicar sua teoria de “seqüestro”. Para ele, o que define um seqüestro são duas coisas: não poder deixar o local onde está (teria sido inseguro Correa deixar o hospital segundo ele) e o pedido de um resgate. E que resgate teriam pedido? “Disseram ao presidente que ele não saía se não pagava o resgate, que era assinar uma carta dizendo que fica revogada a lei de Serviço Público”, confessou ao jornal, talvez não se dando conta da contradição que é um golpe com reivindicações trabalhistas.

As pistas para o que de fato ocorreu naquele dia 30 de setembro, assim, são conferidas pelo próprio governo. Mas o que ganharia Correa em travestir uma rebelião por motivos trabalhistas em conspiração e golpe militar? Deslegitimar as oposições, acuar os setores sociais mobilizados e, sobretudo, avançar na política de criminalização dos movimentos sociais são vantagens que parecem tentadoras a Correa.

Talvez isso explique a tensa calma que paira sobre Quito.

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