Entrevista: Mulher de luta é referência no sindicato da construção civil de Belém (PA)

Diretora do sindicato da construção civil de Belém fala ao Portal do PSTU
Diego Cruz

A aparência frágil de Deuzalina Soares de Almeida, a Deuzinha, desaparece logo que ela começa a falar. Deuzalina trabalha há vinte anos como servente de pedreiro na construção civil de Belém (PA). Enfrentou o machismo na carne durante muito tempo, lutou contra ele e venceu e hoje é coordenadora geral do Sindicato, referência na categoria. O portal do PSTU conversou com a dirigente, que falou sobre sua experiência.

Que tipo de discriminação você sofreu num ambiente dominado por homens que é o canteiro de obras?
Todo tipo. Entrei bem jovem. E aí as pessoas vêem uma jovem e já começam a falar “sangue novo”. Aí depois vem aquele assédio. O assédio sexual é a primeira coisa que vem, pra depois vir a discriminação. Por ser mulher no canteiro de obra. Falavam “por que você não procurou emprego em outro local, por que não foi trabalhar em casa de família, não é melhor pra ti”? Eu sempre falava que isso não tinha nada a ver. Trabalhar é um direito meu, é uma opção minha. Mas aí foi passando o tempo e nisso estou há vinte anos trabalhando na construção civil. Eu enfrentei tudo isso. Sabemos que as mulheres são minoria na categoria, a maioria é de operários. Mas eu enfrentei e por isso que estou na direção do sindicato.

Como a senhora se envolveu com o movimento sindical?
Foi através das lutas, greves, né? Sempre que tinha greve o sindicato passava nos canteiros de obras e me chamava. E eu acompanhava sempre a greve, de cinco, quinze dias, eu ia para as assembléias. O pessoal do sindicato sempre me chamava para fazer parte da diretoria, mas eu sempre recusava. Não queria nada, queria participar mas não me envolver. Mas aí um dia eu quis tentar pra ver no que ia dar. Aí, pronto, entrei na direção do sindicato e já estou no meu segundo mandato. Firme na luta.

A senhora conquistou muito respeito entre os companheiros no movimento sindical
Com certeza. Hoje sou Coordenadora Geral do sindicato. Isso significa que meus companheiros me respeitam bastante. Não existe aquela coisa de preconceito por ser mulher e estar na direção.

Qual a importância da luta contra o machismo, principalmente numa categoria aonde ele é tão forte
É muito importante. Com certeza tem hoje muitas companheiras passando pelo mesmo que eu passei por anos. Estão sofrendo nos canteiros de obras como eu sofri. Então, é importante lutar contra isso, juntando os movimentos, as companheiras, pra superar isso.