Entre as ruas e o governo, a direção do PSOL escolhe o governo

    PSOL anuncia apoio ao plebiscito de Dilma, que tenta desmobilizar e desviar os protestos

    O PT já deu mostras suficientes nesses últimos dez anos de que defenderá, até o último momento, a política econômica herdada do governo FHC. Não é surpresa, assim, que o governo Dilma atue para desviar e acalmar as mobilizações que varrem o país, sem alterar uma política  que só beneficia banqueiros e empresários. O que causa estranhamento, porém, é que a direção de um partido como o PSOL se preste a estar ao lado do governo nisso, apoiando uma medida cujo único sentido é o de esvaziar os protestos sem responder às reais demandas colocadas pela população.
     
    Gesto isolado?
    Assim que a presidente Dilma recuou da proposta de constituinte para centrar na política do plebiscito, não demorou muito para que a crise se instalasse no Congresso.  Nem a base aliada e muito menos a oposição de direita aceitaram de bom grado que o Planalto jogasse essa bomba para o Legislativo, tentando transferir só para o Congresso o desgaste político causado pelas manifestações. 
    A fim de articular minimamente a proposta e viabilizar o plebiscito para a reforma política vigorar já em 2014, Dilma sinalizou a convocação de uma reunião com representantes da oposição. Tal encontro não chegou a ser marcado, mas o senador do PSOL, Randolfe Rodrigues, ao saber da intenção do governo pela imprensa, se antecipou e pediu uma reunião com o Planalto. “Eu me adiantei, para que não fosse incluído na mesma reunião das outras lideranças de oposição. Recebi então uma ligação do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e do chefe de gabinete de Dilma agendando o encontro”, declarou Randolfe ao Portal G1.
    O governo, buscando legitimidade para a sua proposta de plebiscito, adorou a ideia. O encontro foi registrado pelo Planalto e amplamente divulgado pela imprensa. Na reunião, Randolfe declarou seu apoio ao plebiscito e apresentou a proposta do PSOL para a reforma política. Momentos antes, o presidente do partido, Ivan Valente, havia afirmado que o PSOL não participaria da reunião com Dilma e que a ida de Randolfe ao encontro com a presidente era uma iniciativa individual, embora, segundo ele, “o melhor era não ir”. De fato, o senador fez questão de deixar claro à imprensa que não estava ali representando o partido, apesar de ter entregado as propostas a Dilma como “o ponto de vista defendido pelo PSOL”.
    Além da crítica de Valente, o vergonhoso papel cumprido por Randolfe desatou uma crise em setores do partido. A corrente interna C-SOL divulgou uma nota atacando duramente o senador. “A decisão individual de Randolfe ultrapassa todos os limites aceitáveis”, diz o texto divulgado pela corrente, que critica tanto a decisão de Randolfe de descumprir uma resolução da direção do partido de não ir à reunião quanto o apoio prestado ao plebiscito, “colocando-se lado oposto ao da militância aguerrida do PSOL e ao das centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas nas últimas semanas”. Um setor da corrente APS (que está divida) também lançou nota condenando a atitude de Randolfe, afirmando que Randolfe “rompe com o PSOL” ao participar da reunião.
    Apesar da polêmica, no entanto, dois dias depois, em 3 de julho, o PSOL divulgava em seu site oficial uma nota de apoio ao plebiscito de Dilma. “O presidente do PSOL e líder do partido na Câmara, deputado Ivan Valente, defende a realização de um plebiscito e de um referendo sobre a reforma política”, afirma o texto, para que não haja dúvida sobre a posição oficial do partido em relação ao tema. 
     
    A direção do PSOL apoia a iniciativa do governo
    Não é a primeira vez que algo assim acontece. Nas eleições de 2012, Randolfe também protagonizou uma enorme polêmica no interior do PSOL e da esquerda socialista ao redor da candidatura de seu correligionário, Clécio Luís, à prefeitura de Macapá. A aliança costurada por Randolfe incluía partidos da direita como o PTB, DEM, PSDB , PPS e o PSD. Na época, essa atitude também gerou críticas contundentes por parte das correntes mais à esquerda do partido, assim como de vários dirigentes. No entanto, conquistada a prefeitura de Macapá, o diretório nacional do partido aprovou um documento em que considerava “acertada” a tática eleitoral na capital do Amapá. Ou seja, aprovaram a aliança com a direita.
    A mesma coisa ocorreu com a candidatura de Edmilson Rodrigues à prefeitura de Belém. Apesar de Edmilson ter perdido as eleições no segundo turno, o diretório nacional também aprovou um balanço positivo da campanha eleitoral na cidade, que contou com o apoio do PT com direito à inserção de Lula na TV chamando o voto no candidato do PSOL. Na ocasião, o PSTU, que compunha a frente de esquerda, rompeu com Edmilson quando o PT e Lula entraram na campanha. 
    O recente apoio ao plebiscito de Dilma, no entanto, é algo bem mais grave que um giro à direita em uma campanha eleitoral. O país vive um dos maiores ascensos do movimento de massas de sua história, que colocou contra a parede, de uma só vez, os governos das três esferas, além do Congresso Nacional. Pela primeira vez em muitos anos, o movimento de massas está na ofensiva e parte em busca de conquistas concretas, como saúde e educação.
    Dilma Roussef, porém, desde o primeiro pronunciamento na TV sobre as manifestações à reunião com governadores e prefeitos, não fez outra coisa que ratificar a política econômica que levou ao caos social que assistimos hoje. Não foi por outro motivo que o “primeiro pacto” levantado pela presidente tenha sido a “responsabilidade fiscal”, que na prática é continuar privilegiando o pagamento dos juros da dívida em relação aos investimentos sociais. 
    Além de não sinalizar qualquer alteração nos rumos do governo, Dilma lança mão de uma política para desmobilizar e canalizar a insatisfação da população em torno de uma medida que não é pauta das ruas. Apesar da forma do plebiscito parecer extremamente democrática e sedutora, o que está colocado para a consulta é um programa típico da direita, como o voto distrital. O objetivo é claro: desviar e enganar a população nas ruas.
    Estamos diante de uma disjuntiva bastante clara. De um lado, a população na rua exigindo direitos sociais sempre negados, contra os gastos da Copa e os desmandos dos políticos. De outro, o governo reafirmando sua política econômica que perpetua essa mesma situação de caos e tentando desviar a atenção das massas com o plebiscito. Nesse momento histórico, a direção do PSOL, lamentavelmente, apoiou a proposta do governo. E não a das ruas.
     
     

    Post author Diego Cruz, da redação
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