Entre a resistência e a comercialização

Não há como negar que o Carnaval é um momento ímpar na vida dos brasileiros. Folião ou não, é impossível passar ileso. Seja pelo clima nas ruas, seja pelo verdadeiro bombardeio de imagens publicitárias nos meios de comunicação.

Nascido de uma mescla de festas ancestrais da Grécia (que celebravam a fertilidade e a colheita) com tradições medievais européias — quando a igreja católica tentou conter a festança pagã, estabelecendo alguns poucos dias para que a população comemorasse os “prazeres da carne” (daí o nome “carnevale”) antes de enfrentar os jejuns e penitências da Quaresma — o festejo ganhou no Brasil um forte, e delicioso, tempero africano.

É verdade que não foram poucos os que tentaram conter os “excessos” carnavalescos, impondo algum controle sobre uma festa que tem como principais características a inversão dos valores e costumes e o questionamento dos discursos e práticas tidos como oficiais, cultos ou aceitáveis. Como também é verdade que o evento ganhou um gigantesco peso comercial, fazendo girar quantias incalculáveis.

Contudo, também é um fato que, além do povo sempre ter achado espaços para se divertir durante os quatro dias de folia, nunca foi possível conter as manifestações de irreverência e crítica que caracterizam a festa. Apesar de todas as tentativas de elitização (tentando fazer dela algo “pra inglês ver e turista dançar”) e de seu distan-ciamento das tradições populares (com a introdução de ritmos musicais descartáveis, por exemplo) o Carnaval ainda é uma festa popular por excelência.

Até mesmo em seus espaços mais “comercializados” — os Sambódromos do Rio de Janeiro e de São Paulo — é possível ver que nem tudo está sob controle. Tentativas não faltaram. Há anos as avenidas vêm sendo tomadas por enredos que trazem leituras alucinadas da história oficial, homenagens a figuras pra lá de questionáveis (como a apresentadora Xuxa, este ano) e a promoção de pontos turísticos do país. Como também há tempos os membros das comunidades têm perdido espaço para as celebridades. Mas, mesmo assim, vez ou outra, surge algo na contracorrente.

No Rio, por exemplo, a São Clemente (que tem como tema a Literatura de Cordel) havia prometido colocar um boneco do Tio Sam utilizando o prédio do Congresso brasileiro como privada. Diante da pressão de gente das “altas esferas”, o carnavalesco decidiu “amenizar” o tom do carro alegórico, mas garante que o símbolo do imperialismo estará na Sapucaí, no mínimo com suas mãos sujas de sangue, sendo seguido por uma ala de sósias de Saddam Hussein.

Já a Grande Rio, com o samba-enredo “Vamos Vestir a Camisinha” resistiu à censura da Igreja Católica e não só fará uma “apoteótica” defesa do uso dos preservativos como colocará gigantescos bonecos em diversas posições sexuais na avenida.
Em São Paulo, onde a prefeitura impôs o aniversário da cidade como tema único para a festa, uma das escolas, a Gaviões da Fiel, tem o enredo “Idéias e paixões: combustível das revoluções”, que promete levar para a avenida temas como as greves, a revolução cultural provocada pela Semana de Arte Moderna e outras manifestações, como a Diretas, Já!

Em Salvador, há anos monopolizado pelo axé, também há, felizmente, algo de novo. Para além do circuito oficial, cercado por seus milionários camarotes e onde a participação depende da compra de abadás (as túnicas dos blocos), há uma explosão de circuitos alternativos, formados por grupos que buscam revalorizar as tradições e musicalidade negras: do reggae ao samba reggae; do samba de roda ao partido-alto, passando, evidentemente, pelos afoxés.

Já Recife e Olinda continuam fazendo um Carnaval de rua, popular e voltado para as tradições culturais locais, principalmente o frevo e o maracatu. A capital de Pernambuco irá receber nações de maracatu de várias regiões do estado e grupos de samba e afoxés, tendo a Noite dos Tambores como ponto alto do resgate da cultura afro.

País afora, inclusive no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, o Carnaval de rua, puxado pelos irreverentes blocos, tem ganhado cada vez mais espaço. Embalados pelas marchinhas e pelos sambas mais tradicionais, os blocos têm como característica a sátira dos costumes e, principalmente, do cenário político.

Manifestações semelhantes são demonstrações de que, apesar de toda comercialização e tentativa de domesticação, o Carnaval pode ser preservado como um espaço para o sempre bem-vindo festejo popular, combinado com a sátira, a crítica e a irreverência voltadas contra os poderes, os padrões e as “histórias” impostas pela elite dominante.

Post author Wilson H. Silva, da redação
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