Imagens Paollo Rodajna

Encontro realizado nesse dia 23 de março teve 1426 inscritos de todo o país

A quadra do Sindicato dos Metroviários de São Paulo se transformou, nesse dia 23, num grande quilombo. O I Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP-Conlutas superou todas as expectativas, contando com 1426 inscrições de ativistas de todo o país, que se reuniram durante todo o domingo para debater e organizar a luta contra o racismo e a exploração. Com o tema de “Chega de racismo, exploração e dinheiro para a Copa”, o encontro serviu também para organizar as mobilizações durante os jogos do mundial sob uma perspectiva de raça e classe.

Numa abertura que emocionou a todos, Wilson Honório, do Quilombo Raça e Classe da CSP-Conlutas anunciou a composição simbólica da mesa, com personalidades históricas da luta contra o racismo, como Zumbi dos Palmares, Rosa Parks e Solano Trindade. Claudia da silva Ferreira, assassinada pelo PM do Rio e brutalmente arrastada pela viatura, assim como Sandra Fernades, militante do MML (Movimento Mulheres em Luta) e do PSTU, assassinada em fevereiro pelo namorado, também foram homenageadas.

A mesa que deu sequência ao encontro foi composta por Antonio Lambão, representante do Moquibom do Maranhão, Helena Silvestre, do Luta Popular, Gean Santana, do ANDES, Nelson Morale, da Frente Nacional em Defesa do Território Quilombola, Júlio Condaque e Tamiris Rizzo, do Quilombo Raça e Classe. “Para nós, que temos mais tempo de luta esse encontro representa um marco. Podem ter certeza que nós incomodamos o governo”, afirmou Júlio, que também é membro da Secretaria Executiva da CSP-Conlutas, resgatando seus 25 anos de militância e indicando o caráter histórico do evento.

A negritude que vai lutar é quilombola, sindical e popular“, cantaram os negros e negras presentes no plenário.  “A emoção é muito forte. Nós não queremos só trabalhadores aqui, mas também que dêem espaço para os oprimidos“, disse Helena Silvestre, com a voz embargada pela emoção. “Somos nós que estamos submetidos a todo o tipo de exploração e opressão. Somos aqueles que são transformados em mercadoria. Temos que disputar nossos espaços. A nossa cultura de resistência para que os negros possam se reconhecer na sua história que é a história da classe trabalhadora“, afirmou.

Outra fala bastante emocionada foi de Tamiris Rizzo, que relembrou os recentes e chocantes casos de racismo. “Choramos pela morte de Cláudia, mas estamos aqui resistindo, respondendo contra o racismo“, afirmou, relembrando ainda o brutal assassinato do pedreiro de Amarildo. Tamiris também explicou que a preparação da Copa coloca uma lente de aumento sobre os problemas sociais do país, inclusive do racismo e criticou o governo do PT que, em mais de dez anos, nada fez à população negra. “O governo não foi capaz de acabar com a desigualdade entre negros e não negros. Ainda ganhamos 30% a menos que os não negros“, disse. “Isso ocorre porque o governo privilegia banqueiros e empresários, e não os trabalhadores negros e negras”, salientou.

Apesar do cansaço, já que grande parte dos participantes do encontro também marcou presença na assembleia da ANEL ou na reunião da CSP-Conlutas, ocorridos na sexta, ou ainda do Encontro “Na Copa Vai ter Luta” no dia anterior, ainda houve muito ânimo e disposição para a realização de grupos temáticos de debates. Os grupos se reuniram e debateram temas como violência, arte e cultura e educação, sob o prisma de raça e classe.

Um tema à parte foi a grade cultural do evento, que contou com a bateria “Bombos de Iroko”, de Minas, o grupo de teatro da CSP-Conlutas, a cantora Preta Rara, entre outros.

Contra a violência racista na Copa
Uma das principais resoluções do encontro foi a implementação de uma ampla campanha contra a violência racista na Copa, com o tema “Chega de dinheiro para os patrões, banqueiros e a Fifa: Contra a violência racista na Copa”. Um dos eixos dessa campanha deve ser justamente a exigência da desmilitarização da Polícia Militar. Também serão alvos da campanha o combate ao turismo sexual e a violência contra a mulher negra.

LEIA MAIS
Abertura do I Encontro de Negras e Negros da CSP-Conlutas se transforma em ato de resistência ao racismo

*Com informações da CSP-Conlutas