Enchentes e desmoronamentos marcam a passagem do ano que começa com velhos problemas

O poder público não investe em políticas de prevenção e quem sofre com isso é o povo brasileiroTodo o ano novo a velha história se repete: enchentes, desmoronamentos, famílias desabrigadas, morte. Se esta situação já é prevista, como dizer que não pode ser evitada? O quadro é o mesmo e cada vez mais alarmante: 2010 começou com o Brasil sendo lavado por chuvas que deixaram rastro de destruição. Políticas demagogas de prevenção vão por água abaixo junto às enxurradas, demonstrando o quanto os governantes deixam a desejar para solucionar as questões públicas.

Seria fácil culpar a natureza e chamar de desastre natural as mais de 80 mortes que ocorreram em todo país, quando na verdade a única certeza que ressalta aos olhos é de que os governos federais, estaduais e municipais têm grande responsabilidade sobre estes desastres. Angra dos Reis (RJ) foi palco de uma tragédia. Já foram registradas 52 pessoas mortas em desmoronamentos de encostas. Enquanto isso o governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) só faz bravata. Em depoimento à grande imprensa, Cabral diz não concordar com a ocupação desordenada das encostas da região de Angra dos Reis. Mas os fatos são outros, pois moradores e ambientalistas de Ilha Grande lutam contra o Decreto n° 41.921/09 publicado em junho de 2009 criado pelo governador. Nele é autorizada a construção em áreas não edificáveis da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios em Angra. O local onde ocorreu a tragédia fica nesta região.

Segundo matéria publicada no jornal O estado de São Paulo do dia (5), um manifesto circula pela internet para colher assinaturas contra o decreto, no qual está dito que o governador estimula a especulação imobiliária e acabará com as já escassas áreas preservadas que compõem a Baía da Ilha Grande. A polêmica foi grande e para sair do constrangimento o governo suspendeu o decreto.

No dia da tragédia, Cabral estava a 40 minutos do local, enquanto o caos se instalava na Ilha, ele simplesmente sumiu. Apareceu 24 horas depois com o discurso de que “quem tem que estar no local são as autoridades que de fato podem assumir o problema” . Prova cabal de que seu Cabral não tem capacidade e nenhuma política para resolver os problemas da população trabalhadora. Inclusive a Baixada Fluminense já sofria com as chuvas desde dezembro, com quase 4 mil pessoas desabrigadas e mais de 59 casas demolidas na região. Isso em nada abalou ao governador que não abriu mão de seu recesso para comemorar o ano novo.

Também São Paulo para ao primeiro sinal de chuva. As principais vias da cidade e túneis ficaram embaixo d´água. Nos lugares periféricos, esgoto a céu aberto e mais enchente. Os desmoronamentos de encostas também ocorreram na cidade. Em matéria para o site UOL o especialista em geologia de engenharia, geotecnia e meio ambiente, Álvaro Rodrigues dos Santos, ressalta que isto é causado pela falta de monitoramento nas áreas de risco. O especialista acrescenta ainda que seja obrigação da prefeitura fazer esta fiscalização. “É papel da prefeitura não permitir que as áreas próximas às encostas não sejam ocupadas de forma nenhuma. Não é papel de quem foi morar lá por falta de opção. São ocupações totalmente inadequadas, mas existe um componente social. Se o poder público não oferece alternativas seguras de habitação, a ocupação de áreas de risco, onde ficam os terrenos mais baratos, não será interrompida”, disse em reportagem. Acrescentou que a natureza não é culpada pelos incidentes e sim dos governantes, pois sabem que esta época do ano chove demasiadamente, e nada fazem para que estes desastres sejam evitados.

Isso mostra que tanto São Paulo como o Rio de Janeiro, para não ter que citar os outros estados, praticam a mesma política neoliberal que garante os altos lucros para os banqueiros e empresários. Não há investimento em contenção de morros e saneamento básico. Segundo pesquisas do site www.saneamentobasico.com.br de 2007 até hoje o governo aplicou somente 11% dos 12,6 bilhões de reais reservado no Orçamento da União para programas de saneamento. Sem contar os 8 bilhões de reais do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) também destinado ao saneamento: foi utilizado somente 35% deste montante. O reflexo disso é esgoto não tratado, proliferação de doenças e bueiros entupidos, que na primeira chuva transbordam.

Enquanto a cidade se depara com o caos, o dinheiro que deveria ser aplicado para evitar tragédias como estas, serve para pagar os juros da dívida externa. O Brasil segundo manifesto entregue a Câmara dos deputados para que fosse instaurada a CPI da dívida pública, destina mais de 282 bilhões de reais para empresas do setor financeiro privado e especuladores privilegiados do Brasil e exterior, este dinheiro poderia estar sendo utilizado em educação, moradia e saúde. Enquanto os governantes passam férias em paraísos que ainda não foram devastados pela “tragédia da natureza” e presenciam com seus helicópteros particulares a cidade alagada, o povo brasileiro sofre com o descaso e chora seus mortos.

FONTE: Redação Conlutas