Embraer precisa ser dos trabalhadores

A empresa se apresenta como uma empresa nacional. Chega a despertar o orgulho de muitos brasileiros. Afinal, é a terceira fabricante de aviões do mundo e a segunda responsável pelas exportações do país. Mas há muito que a empresa não é brasileira…Em dezembro de 1994, uma batida de martelo concluiu a entrega de um patrimônio do povo brasileiro. Os 57 minutos de espera não foram suficientes para o preço subir. O lance de R$ 154,1 milhões foi apenas 0,3% maior do que o mínimo. E pago com “moeda podre”, com títulos da dívida pública comprados com deságio.

Poucos meses depois, a Embraer valia R$ 1,7 bilhão. Não foi uma valorização recorde. A empresa já valia mais. Ou seja, os compradores abocanharam uma empresa de 25 anos por um valor muito abaixo do real. Hoje, estima-se que o valor possa chegar a dez vezes mais – R$ 17 bilhões.

Apenas uma multinacional
Após a privatização, veio a entrega ao capital internacional. Apesar de o edital de privatização limitar em 40% a participação estrangeira, hoje mais de 50% das ações ordinárias estão em mãos internacionais. A entrega foi através de uma operação em que a Embraer transformou todo o capital em ordinário, permitindo que empresas de qualquer nacionalidade pudessem comprar as ações.

O governo, o BNDES e o fundo de pensão Previ, juntos, possuem quase 20% das ações. Mas não interferem, sequer para evitar as 4.200 demissões. Na prática, o controle está na Bolsa de Nova York e com fundos de investimentos norte-americanos, como o Janus Capital Management, o Oppenheimer e o Thornburg Investments. A Embraer foi entregue. Não é uma multinacional brasileira, como faz crer, e sim mais uma multinacional instalada aqui.

Elefantes
No início dos anos 1990, o governo apelou para a imagem de um elefante para simbolizar as estatais. A campanha convenceu parte da população. Uma ideia fundamental foi a de que o Estado não era capaz de administrar as estatais. Que estas eram lentas, pesadas, inchadas. Como elefantes. Era preciso a agilidade da iniciativa privada.

A outra ideia era a de que as estatais davam prejuízo. Logo, significavam um peso do qual Estado e sociedade deveriam se livrar. A privatização foi alcançada a partir dessa campanha. Na prática, subproduto da campanha ideológica que tomou conta do mundo, afirmando que o capitalismo havia triunfado no “fim da história”.

Os mesmos políticos burgueses que apadrinhavam parentes e manipulavam licitações amanheceram como implacáveis críticos das estatais. Os trabalhadores, sempre mantidos longe das decisões, foram apontados como privilegiados e preguiçosos. Na Embraer, em 1995, 3 mil perderam os empregos após a venda. Metade foi demitida pelas mãos do mesmo Francisco Curado, então vice-presidente responsável pela reestruturação.

Toda a propaganda sobre a competência e a capacidade das empresas termina de ruir agora, com a crise do capitalismo. Os patrões não são capazes de garantir suas empresas e a economia dos países. Com a sutileza dos elefantes, sacodem-se em desespero para manter seus lucros, pisoteando milhões de postos de trabalho.

Reestatização da Embraer
Grandes mentiras deixam marcas. Os trabalhadores do país perderam empresas estratégicas como CSN, Vale, Embraer e Usiminas. Todas altamente lucrativas. Até mesmo Ozires Silva, ex-presidente da Embraer que preparou a privatização, admite as mentiras. “Quando se diz que a Embraer só se tornou um sucesso depois de privatizada, que não era uma boa companhia como estatal, isso não é verdadeiro”, declarou ao jornal Vale Paraibano.

Atualmente, qualquer pesquisa de opinião indicará a repulsa às privatizações. Os trabalhadores as reprovam e tudo o que elas provocam: alta de preços, queda na qualidade dos serviços e demissões. Hoje, grande parte já apoia propostas de reestatização, como as levantadas por sindicatos.

A ideia da reestatização está muito longe de parecer absurda. No caso da Embraer, menos ainda. Os lucros são recordes, ano a ano. As encomendas de aeronaves superam as de 2008. Há recursos em caixa para manter todos os funcionários por dois anos, a ponto de os diretores terem dividido R$ 50 milhões entre si, como bônus.

Há plenas condições de manter os funcionários, inclusive reduzindo a jornada sem reduzir os salários. Mas a prioridade é o lucro: cerca de 60% do faturamento vai para os acionistas.

Os trabalhadores exigem do governo Lula uma medida concreta, impedindo as demissões. E querem também a reestatização da empresa sob controle dos trabalhadores. Não faz sentido o governo usar o dinheiro público, do BNDES, para os financiamentos. Na prática, a Embraer depende de dinheiro público. A ajuda do governo, inclusive através do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), já financiou mais de 500 aeronaves e investimentos.

Ao todo, R$ 19,7 bilhões foram liberados desde 1995. Dinheiro que, no fim das contas, serve para garantir o lucro dos acionistas da Embraer na Bolsa de Nova York, enquanto milhares são demitidos. Esse sim é o verdadeiro absurdo.

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