Em São Paulo, “dar um role” é crime

Quem tem medo da periferia? Passear no shopping virou crime

Os “rolezinhos”, que surgiram na véspera do Natal de 2013, quando jovens, pobres e negros das periferias de São Paulo decidiram passear pelos shoppings, e estão sendo reprimidos com uma violência impressionante e criminalizados

Estamos assistindo a uma demonstração inquestionável, não somente de racismo e preconceito, mas de segregação e apartheid social na medida em que o Estado passa a cumprir o papel de elemento discricionário e aparato de repressão. A violência com que a Polícia Militar de São Paulo atacou os jovens que foram no sábado, 11de janeiro, a shopping Itaquera, na Zona Leste, deveriam escandalizar qualquer um. Eles utilizaram golpes de cassetetes, socos e chutes. Foram utilizadas bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os jovens que se concentravam do lado de fora. Dentro do shopping, pessoas foram agredidas ao descer a escada rolante.
 
Segundo a PM, houve um arrastão, mas somente duas pessoas foram detidas. Mais ainda, os dois detidos foram liberados durante a madrugada de domingo dia 12, pois de acordo com a 24º DP, foi registrada apenas uma ocorrência por furto qualificado a uma loja de games. Mas a assessoria de imprensa do Shopping Itaquera informou, em nota, que não houve registro de furto ou roubo.
 
Encontros semelhantes foram marcados pelas redes sociais também para o Shopping Campo Limpo e para o Shopping JK Iguatemi. Incrivelmente, ambos obtiveram liminares do Poder Judiciário que “limitavam a entrada de jovens” no centro de compras, “sob pena de incorrer cada manifestante identificado na multa de R$ 10 mil por dia”.
 
O papel do Poder Judiciário
Vejamos a que ponto chegou a burguesia brasileira, que consegue uma liminar no Poder Judiciário, com o apoio da Policia Militar, passado por cima da garantia constitucional de igualdade entre os cidadãos e do direito de ir e vir, para impedir jovens pobres da periferia de simplesmente passearem. O artigo quinto da Constituição Federal diz: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, (independentemente de censura ou licença) (…) XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens.
 
Cabe lembrar, inclusive, que a Constituição, no inciso XVI do artigo quinto garante que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”, bastando “prévio aviso à autoridade”.
 
No entanto, os que têm a ousadia de desafiar as determinações dos empresários donos de estabelecimentos e da PM são recebidos a balas, bombas e cassetetes. Eles alegam que os “rolezinhos” atentam contra o direito à propriedade e à livre iniciativa, assegurados na Constituição (artigos 1º, inc. IV; 5º caput; e 170), e que isso não pode ser perturbado por “jovens infratores, ferindo o legítimo direito de pais, mães e filhos a um lazer sossegado e seguro que vão buscar nesses ambientes privados e protegidos”, pretensamente dando base à argumentação de que o direito de propriedade deve prevalecer sobre os direitos individuais. Isso carece de total sentido.
 
Esquecem que os shoppings são empreendimentos privados sim, mas abertos ao público para atividades como compras, lazer, diversão e passeio. Shoppings são espaços de livre circulação. Impedir a entrada de alguém em estabelecimento comercial por motivo de discriminação ou preconceito é crime. Admitir que só algumas pessoas podem circular, com liminares, policiais e oficiais de Justiça analisando quem pode ou não entrar, oficializa a discriminação, e estabelece a segregação social e um apartheid sustentado pelo Estado.
 
Quando passear é crime
Os “rolezinhos” são encontros marcados pelas redes sociais que atraem centenas de jovens a shoppings que entram e permanecem pacificamente nestes espaços.Mas para a burguesia brasileira, os shoppings foram construídos para manter a juventude pobre do lado de fora.
 
O objetivo é, nas palavras de seus organizadores: “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. Como disse o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira: “Se fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe média, como aconteceu várias vezes, seria interpretado como um flashmob?”.
 
Mas, por isso, jovens estão sendo intimados a comparecer à Polícia e ao Poder Judiciário para explicar sua participação no rolezinho. Logo poderão ser enquadrados em crimes de formação de quadrilha, pois as convocatórias dos rolezinhos são feitas via internet e Facebook, ou enquadrados na nova Lei de Organizações Criminosas, como está ocorrendo com os manifestantes de junho, os estudantes da USP e da Unicamp. Os jovens dos rolezinhos agora são “Os novos ‘vândalos’ do Brasil”,. expressão cunhada por Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista, no artigo “O que estes jovens estão, de fato, ‘roubando’ da classe média brasileira?”
 
Falsidade da democracia racial no Brasil
Cai por terra, novamente, a máscara da tal democracia racial no Brasil, demonstrando que, em nosso país, há muito preconceito e discriminação sim. Mais ainda: há um regime segregacionista, respaldado pelas instituições do Estado. Esses jovens são classificados como criminosos antes de entrar no shopping, só por serem pobres e negros.
 
Novos rolezinhos
Segundo a Polícia Militar, cerca de mil pessoas participaram do encontro marcado por meio de redes sociais, enquanto o shopping estima em 3 mil. Ao que parece, mais uma vez, a brutalidade e a repressão policial geraram, em vez de intimidação, solidariedade e mais manifestações. Em todo o país, eventos estão sendo marcados em solidariedade aos jovens paulistanos da periferia.


 
Já há um novo encontro marcado para este sábado, 18, no Shopping Itaquera, onde a violência da polícia foi a mais brutal. Ao menos 600 pessoas já foram convidadas para se encontrar no local às 16h30. No JK Igatemi, onde liminares impediram a entrada de pessoas, vai ter também no sábado, às 13h.
 
Um grupo carioca marcou, no Facebook, um rolezinho no Shopping Leblon, Zona Sul do Rio, no próximo domingo, 19. Os organizadores destacam a solidariedade aos participantes dos eventos em São Paulo: “Em apoio à galera de São Paulo, contra toda forma de opressão e discriminação aos pobres e negros, em especial contra a brutal e covarde ação diária da polícia militar no Brasil, seja nos shoppings, nas praias ou nas periferias”
 
Em Porto Alegre, dois dos principais shoppings terão rolezinhos. No Praia de Belas, será no domingo, 19, e no Moinhos de Vento, dia 25. Ambos eventos no Facebook dizem que estão fazendo o rolezinho “em apoio ao povo da Zona Leste de São Paulo e das periferias das grandes cidades de todo o Brasil. Contra toda forma de opressão aos pobres e negros, em especial contra a brutal e covarde ação diária da polícia militar no Brasil, seja nos shoppings, nas praias ou nas periferias. E contra o vandalismo e crimes também”.

Em Brasília, haverá rolezinho no dia 25, sábado da semana que vem, no Shopping Iguatemi Largo Nortepara protestar contra a privatização dos espaços públicos, o subfinanciamento governamental das políticas sociais, a criminalização da pobreza e, claaaaaaro, para conhecer uma rapaziada esperta, dizem os organizadores. Em Salvador, também haverá o evento.