Em cada morro ou quebrada, há um André

Depois de ter de provar que não era bandido, André ainda ficou quase três dias preso
(Foto: Reprodução)

André Luiz Ribeiro, negro e jovem professor de História, tinha como rotina fazer cooper na região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo


Quando André passava por uma rua, percebeu que os moradores de lá lançavam olhares de raiva, como se a simples presença dele causasse algum incômodo. Mesmo assim, o jovem professor continuou com sua atividade, até que percebeu um carro o seguindo. Um grupo de homens, sob o comando do dono de um bar, desceu brutalmente do carro e, violentamente, se direcionou a André.
 
Com um soco no estômago, o professor foi jogado ao chão, onde começaram a chutá-lo e golpeá-lo. Não satisfeitos com essa barbárie, acorrentaram o professor e continuaram a bater nele. O dono do bar então diz para outro rapaz pegar seu facão. Felizmente, o Corpo de Bombeiros chegou, evitando uma tragédia.
 
Da Bastilha a Parelheiros
Os bombeiros desacorrentaram o jovem, mas questionaram se ele realmente não seria o bandido que aquele grupo de ditos justiceiros estava procurando. André informou aos bombeiros que ele não era bandido, mas professor. Um bombeiro, então, desconfiando do jovem, num ato que o humilhou mais ainda, pediu que ele provasse que era professor e falasse sobre a Revolução Francesa.
 
O jovem, que ainda estava desconcertado com os golpes na cabeça, improvisou uma rápida aula, como se aquilo garantisse que ele sairia dali morto ou vivo. “Falei que a França era o local onde o Antigo Regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução”, disse o jovem, concluindo, depois, que nada mudou na vida dos pobres.
 
Essa situação me fez refletir sobre a ligação da Revolução Francesa com os dias atuais. Dos ricos burgueses que realizaram sua revolução e chegaram ao poder, destruindo toda a monarquia e o clero, sob a imagem da liberdade, fraternidade e igualdade, aos haitianos, que tinham seu país como colônia da França, era açoite, chibata e corrente. Ou seja, as três palavras de ordem chamadas por toda a França só seriam destinada aos franceses. Mesmo assim, não a todos: penas aos que chegaram ao poder, os ricos. Aos pobres da França e aos negros do Haiti, só a miséria e a barbárie.
 
Nada tão oportuno como essa comparação, quando um professor negro de História estava sendo acorrentado numa democracia que exalta, a plenos pulmões, a Revolução Francesa. Que enquanto os ricos desfrutam de sua democracia, nós, pobres e negros, somos alvos de ataques dos justiceiros, como se ser negro no maior país afrodescendente fora do continente africano fosse crime hediondo.
 
Em cada morro e quebrada, há um André
Após a aula de André, que de improviso não havia nada, pois continha o mais concreto relato sobre o caminho que a democracia dos ricos leva aos pobres e negros, os bombeiros o desacorrentaram e o levaram para a delegacia, onde ele seria preso. Um absurdo sem fim. Além de o jovem ser espancado, foi preso sem qualquer prova. Ele ficou preso por quase três dias. No terceiro, conseguiu sair da cadeia com um habeas corpus. Mas o seu nome não foi limpo. Ele ainda responderá por um crime que não cometeu: assaltar um bar. Enquanto isso, o líder do grupo que o espancou, que lembra muito aquelas milícias racistas que perseguiam os negros nos EUA, está livre e impune.
 
Obviamente que o líder do grupo não é o único responsável. Num Estado em que a PM, sob orientação do secretário de segurança pública, Fernando Grella, e aval do governador Geraldo Alckmin (PSDB), divulgam uma cartilha em Campinas orientando a população de como evitar assaltos, o bandido relatado na cartilha era negro, como se todos nós, negras e negros, por conta de nossa raça, fôssemos bandidos. Afirmar isso é o mesmo que afirmar que mais da metade no Brasil e, majoritariamente, entre a classe trabalhadora, é bandida. Não. Essa afirmação é racista e deve ser combatida. Compreensões como estas dão condições para os muitos justiceiros se sentirem no direito de se comportarem como açougueiros racistas que, com seus facões, perseguem nossas peles.
 
Outro jovem que recentemente foi confundido com bandido, Mateus, não teve sorte para relatar a injustiça. No Rio de Janeiro, ele e um amigo foram sequestrados pela polícia e levados ao Morro do Sumaré. Após serem torturados, levaram um tiro, fazendo com que seus corpos caíssem morro abaixo. O amigo de Mateus conseguiu sobreviver e relatou o que ocorreu com ele e seu amigo já falecido. Podemos citar inúmeros casos de jovens como Mateus, que tiveram suas vidas arrancadas, como DG, Jean, Alisson e Douglas.
 
Justiceiros ou auto-organização dos trabalhadores?
Lembro-me de que, no início do ano, surgiram vários casos que me chocaram. Grupos de populares, sob orientação racista, prendiam e espancavam qualquer pessoa que julgassem suspeitos. Obviamente, os suspeitos nunca eram ricos, engravatados e brancos.
 
Nós, do PSTU, repudiamos esse grupo de (in)justiceiros que se unem para reproduzir o preconceito, as falsas ideias e os interesses da classe dominante, mesmo que não a componham. O racismo é uma importante arma ideológica para que os ricos continuem sendo ricos, e os pobres continuem sendo pobres. Defendemos a auto-organização dos trabalhadores, que vai no sentido contrário ao que essas pessoas vêm praticando. A auto-organização estabeleceria grupos eleitos democraticamente de autodefesa nos bairros, com um programa a defender: um bairro sem racistas e sem milícias. Ajudaria a defender os trabalhadores da violência policial, dos roubos e também dos (in)justiceiros.
 
Desde já, nos solidarizamos com os familiares e amigos de André. Compreendemos que o fato ocorrido não é isolado. Em cada morro ou quebrada, há um André. E mais: cobramos que os responsáveis por essa covardia sejam punidos.
 
Cláudia Durans, pré-candidata a vice-presidência pelo PSTU, e eu, como mulheres negras e trabalhadoras, colocaremos nossas candidaturas a serviço dos muitos jovens trabalhadores e negros, no combate ao racismo que tira os filhos das mães trabalhadoras num só golpe. Queremos construir, junto com as trabalhadoras e trabalhadores, uma candidatura socialista, que denuncie as mortes de nossos filhos, e as prisões de nossos amigos e familiares.
 
 
– Pelo fim do massacre à juventude negra e pobre!
– Por um país onde nós negros não sejamos tratados como ladrões!
– Pelo fim dos (in)justiceiros!
– Pela autodefesa nos morros e quebradas, organizada e dirigida pela classe trabalhadora!
– Por uma São Paulo sem (in)justiceiros e racistas!
– Pelo fim da violência policial: desmilitarização da PM já!