E no Brasil, passou o pior?

Governo Lula utiliza desigualdades nos setores da indústria para montar farsa da retomada. Mas até o FMI diz que a economia brasileira vai ter queda em 2009Como não poderia deixar de ser, o governo Lula assumiu o discurso do “pior já passou”. Depois de afirmar com toda certeza que em março as coisas melhorariam, agora o governo renova a aposta para o segundo semestre.

No entanto, como o país não é uma ilha, a evolução de sua economia está condicionada pela crise internacional. Isso se confirma pelos dados gerais da economia. O país, globalmente, já está em recessão.

Houve uma queda do PIB no quarto trimestre de 2008, de 3,6% e neste primeiro trimestre de 2009 a previsão é de nova queda de 1,5%. A queda na produção industrial nesse primeiro trimestre foi de 14,9%. Assim, está se confirmando o que viemos dizendo desde o início do ano, que o país já está em recessão.

Uma desigualdade
Existe aqui, porém, uma discussão que envolve os ritmos da economia como um todo. Há um setor que está em um ritmo distinto – ainda em desaceleração, mas não em recessão – ao redor das empresas que produzem para o mercado interno. Como a recessão vem de fora, com epicentro nos países imperialistas, são os setores dependentes das exportações que estão mais em crise.

O agronegócio voltado para exportação (queda 9,4% nas exportações), a Vale (redução de 25,9% na produção de ferro no 1º trimestre de 2009) são exemplos dos setores mais afetados pela crise.

Mas, setores como a indústria automobilística, alimentos, petróleo, construção civil estão em um momento de desaceleração e não em recessão no momento. A indústria automobilística, com o estímulo da redução do IPI, aumentou a produção em 34% em relação a fevereiro, mas caiu 4% em relação a março de 2008. A diminuição se deve em grande parte à queda de 48% nas exportações.

Por outro lado, os bancos brasileiros não vivem a quebradeira dos bancos imperialistas. Pode ser que a explicação seja a farra dos juros estratosféricos no Brasil e a mamata da dívida pública, que podem ter sido ainda mais atraentes que a especulação com derivativos. O fato é que os bancos brasileiros não vivem a mesma situação dos países imperialistas, e o governo ainda conta com o BB, CEF e BNDES para o controle da situação financeira.

A campanha do governo e a realidade
O governo se apóia nessas desigualdades para dizer que o pior já passou. Mas existe uma totalidade em declínio na economia brasileira. Até o FMI prevê recessão no Brasil, com queda do PIB de 1,3% em 2009. No próprio setor automobilístico, já se observa o limite da recuperação: como a redução do IPI levou a um estímulo apenas temporário das compras, as vendas de automóveis já caíram 13,9% em abril em relação a março. A própria Anfavea – a entidade da patronal automobilística – prevê queda na produção de 11% em 2009. O desemprego segue crescendo, já atingindo 15,1% pelos dados oficiais em março. As demissões com a crise já se aproximam de um milhão de pessoas.

Não existe uma possibilidade de saída para o Brasil via mercado interno. A situação atual do capitalismo internacional é distinta inclusive da época de 1929. A globalização implicou em um salto na internacionalização da economia, que inviabiliza uma alternativa do tipo substituição de importações e mercado interno. Isso ocorreu no passado brasileiro e teve importância no desenvolvimento industrial. Mas hoje a economia é controlada de forma muito mais intensa pelas multinacionais, inclusive nos setores voltados para o mercado interno, como o alimentício e as próprias automobilísticas.

A crise afeta o país fortemente pela queda nas exportações. A Vale do Rio Doce está ameaçando a demissão em massa (chega a se falar em 17 mil trabalhadores) depois da licença que vence no final de maio. A empresa é mais uma das que foram privatizadas (como a Embraer) por um preço ridículo, teve lucros brutais nos últimos anos e agora na crise está atacando duramente os operários.

Mas o Brasil não é afetado só pelas exportações. O país é atingido pela crise das empresas multinacionais, como a GM que está à beira da concordata nos EUA. Ou ainda pelo envolvimento de muitas das grandes empresas instaladas no país na especulação financeira.

A economia brasileira já está em recessão, e ela vai se aprofundar, ainda que com ritmos desiguais em cada um de seus setores.

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