Dulce Muniz: 30 anos no palco e na luta pelo socialismo

Em meio ao corre-corre do teatro, Dulce e eu nos sentamos em uma das mesinhas do bar no Espaço dos Sátiros. Ela acaba de ser indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação em Antígona, de Sófocles. Atriz há 30 anos, ajudou a construir o PT e hoje está no PSTU.

Qual a importância do Prêmio Shell?
É o prêmio mais importante do teatro brasileiro, e funciona como o reconhecimento do trabalho. Eu sempre tive uma carreira muito marcada por uma opção política clara e o papel pelo qual fui indicada é muito pequeno. É claro que apliquei toda a experiência dos meus 30 anos de trabalho nesse espetáculo, que foi muito bem dirigido pelo Rodolfo, também indicado para o Shell.

Então, foi uma surpresa a indicação?
Sim. Primeiro, por minha trajetória política; depois, porque o espetáculo faz uma menção clara a essa hecatombe que é o império americano mandando no mundo e também porque fazemos menção a Heleny Guariba, que participou da luta armada e foi assassinada pelo Exército no Araguaia. Até hoje seu corpo não apareceu. Ela foi minha professora de teatro.

Você militou muitos anos no PT. Quando resolveu sair?
Na campanha da Erundina, em 88. Senti que o partido estava se burocratizando e abandonando suas primeiras bandeiras. Em 1989 eu ainda participei da campanha do Lula, organizei o encontro dele com os artistas e depois saí definitivamente. Ele continua com a mesma política do FHC, privatizando tudo e agora quer privatizar a cultura. Infelizmente, esse também é um governo do capital, não dos trabalhadores, e nós vamos ter como sempre de lutar, lutar, lutar… na perspectiva de uma outra sociedade. Eu, que sou socialista, digo: acho que nunca foi tão clara a necessidade de organização para que possamos construir uma sociedade socialista.
Desde janeiro há um Movimento de Oposição no Sindicato dos Artistas.
A Oposição à diretoria do Sated é algo que vem me corroendo por dentro há algum tempo. Eu me dei conta de que há 18 anos que a mesma pessoa preside o Sindicato. Eu não acredito nisso. Eu não acho que a construção das coisas passa por uma única pessoa.

E por que não dar as costas ao Sated, que está tão desprestigiado?
As entidades são representativas dos trabalhadores e se a gente não tiver nem isso, nós não vamos conseguir nos levantar. Quando você não tem algo que a represente, as categorias vão desaparecendo, vão sendo cada vez mais cooptadas por aquilo que há de pior. O Sindicato tem de ser recuperado, temos de descobrir uma forma nova de os artistas se organizarem e participarem politicamente.

Por que você foi presa?
Sob o governo Médici, eu participava do Partido Operário Revolucionário Trotskista. No 1º de Maio, nós fomos a um ato público na Zona Leste. Havia a luta armada, e para nós, do PORT, a luta armada naquele momento não era a saída. O Marighella já tinha morrido, as prisões estavam abarrotadas. Então, fomos ao ato no estádio Vila Maria Zélia, numa tentativa de nos aproximar e ajudar a construir um movimento de massas contra a ditadura. A polícia descobriu e cercou tudo. O Olavo Hansen, dirigente da minha célula, disse para sairmos por trás, mas não houve jeito. Fomos todos presos.

Vocês foram levados para o Dops? Você foi torturada?
Primeiro para o Batalhão Tobias de Aguiar, depois para o QG da Polícia Militar, depois levaram a gente pra Oban e pro Dops, onde fiquei 15 dias.
Não fui torturada fisicamente. O Olavo apanhou muito e morreu. Por isso nos soltaram. Jogaram o corpo por uma janela, dizendo que ele havia ingerido veneno, porque ele era operário químico. Mas era mentira. Então, fomos soltos e ficamos assinando o livro. Tinha de ir toda segunda-feira no Dops assinar o livro de presença.

Você já fazia teatro, nessa época?
Eu tinha feito o curso do Arena e já trabalhava como atriz profissional, com o Augusto Boal. Depois ele também foi preso e, quando saiu, exilou-se.

,i>Dulce Muniz faz o papel de Tirésias em Antígona, de Sófocles. A peça, dirigida por Rodolfo Garcia Vasquez, fica em cartaz até outubro, no Espaço dos Sátiros, em São Paulo (Praça Roosevelt, 214 – Metrô República)

Post author Cilinha Garcia,
especial para o Opinião Socialista
Publication Date