Do caráter libertário do trabalho ao estranhamento

Sempre se ouve que o que nos distingüe dos animais é racionalidade, capacidade de pensar. No entanto, a história de que a idéia prima sobre o fazer não é bem a verdade da própria constituição da Humanidade. A realidade nos mostra que nossa capacidade de raciocínio – para utilizar um termo comum – é oriunda da necessidade prática, portanto, da realidade. É uma dada situação real, um problema, que nos faz refletir (pré-idear) objetivando alcançar uma solução prática. Na verdade, este é mais um aspecto ideológico que a burguesia insiste em incutir na cabeça dos trabalhadores e que vai desembocar em ditados populares que nos dão a idéia de que só é preciso pensar para que a mudança aconteça. Como sabemos: só a luta muda a vida, isto significa: ação consciente.

A capacidade de transformar a natureza e retransformar-se neste infinito processo é, portanto, oriunda de uma necessidade real e não imaginária. E o ato de transformação que nos distingüe, de fato, dos demais animais, não é outro, senão o trabalho.

Desde que uma dada espécie de primata viu-se forçada a descer das copas das árvores em busca de alimentos – pois, em função de mudanças climáticas havia diminuído a quantidade de frutos e muitas vezes mesmo chegado-se a escassez; pois bem, desde este momento em que os macacos têm de ir ao chão buscar sua fonte de sobrevivência; desde que um pedaço de tronco transforma-se em ferramenta de defesa e em extensão, do que será, um braço para buscar alimentos: a transformação do macaco em homem está iniciada. O caráter libertário do trabalho não se estanca neste momento inicial. Há um processo de hominização e também humanização, pois, ao afastar-se da condição animal começávamos a nos hominizar e humanizar. Hominizar porque passávamos a utilizar mais as mãos e começávamos a manter a coluna ereta num processo gradual até nos consolidarmos como seres bípedes. E humanizar porque nos afastávamos das condições animalescas, desenvolvendo capacidades de transformação cada vez menos instintivas, desenvolvendo a linguagem, elaborando – sempre a partir da necessidade material – mecanismos mais sofisticados de vida em grupo.

Neste estágio de desenvolvimento, a humanidade vivia sob a égide do matriarcado; o que significava que toda a produção era comunal. Todos caçavam, pescavam ou produziam alimentos, ferramentas e roupas para todos. E também que as relações de reprodução sexual não eram restritas a um casal; um homem e uma mulher. Eram amplas. Assim se denomina o comunismo primitivo, que continha um elemento desagregador; o baixo desenvolvimento das forças produtivas (Homem, terra e técnica). E por conta deste baixo desenvolvimento, porque não havia abundância é que houve a necessidade da designação da herança da produção – para o (a) filho (a) – deixando de ser comunal o produto do trabalho e passando a ser privado. É necessário saber quem é o pai, por isso, as relações sexuais começam a se restringir até atingir a monogamia que conhecemos atualmente. É nesse processo que se desenvolve a propriedade privada e, concomitantemente, a passagem do matriarcado para o patriarcado na perspectiva de se conhecer o(a) filho(a) e deixar para ele(a) a herança. A estas distintas maneiras de como os homens em diferentes épocas construíam, através do trabalho, uma forma de sobrevivência, pode-se denominar, bastante genericamente, de modo de produção.

Modo de produção

Cada modo de produção corresponde a um dado estágio de desenvolvimento da humanidade – nem sempre significando evolução contínua. Das formas pré-capitalistas até o feudalismo, pautado na propriedade da terra, decorrem mais de dois mil anos. No entanto, as forças produtivas – gênese do próprio desenvolvimento do Homem e das técnicas necessárias para transformação da natureza e de sua própria retransformação – ainda apresentam-se abaixo das reais necessidades da humanidade.
Ocorre que há aproximadamente 500 anos, um tempo ínfimo na dimensão de história da construção da humanidade, um fato inédito aos poucos vai tomando corpo. Pela primeira vez, uma classe domina as ferramentas para o trabalho; e a outra a sua força de trabalho. Os primeiros são os burgueses (capitalistas); os outros – aqueles que constroem a riqueza – e que vendem a força de trabalho: somos nós, os trabalhadores. Aos capitalistas cabe o planejamento (a pré-ideação que já foi coletiva, como no comunismo primitivo) e aos trabalhadores cabe a execução.

Divisão social do trabalho

Mas a divisão social do trabalho produz mais que mercadorias, produz o que se denomina de estranhamento; que é o não reconhecimento daquilo que se produz pelo trabalhador. Isto porque a produção é planejada por quem não trabalha, pelo capitalista; e não pelo trabalhador, transformado em mero executor. Mas não participar efetivamente do planejamento é o aspecto final. O trabalhador sequer pode escolher as melhores ferramentas com as quais deve trabalhar. Além disso, é explorado duplamente porque o capitalista não paga todo o tempo de trabalho, mas apenas uma parte do tempo que o trabalhador despende na produção – o que se denomina de mais-valia (tempo de trabalho não-pago). O tempo trabalhado também sofre intensificação, isto significa: aumento de produção, em princípio, sem aumentar a jornada de trabalho. O trabalhador é obrigado a produzir mais no mesmo tempo sem, no entanto, receber sequer por aquilo que produzia antes da intensificação. E mesmo que recebesse, a exploração e o estranhamento não acabariam. Um trabalhador assalariado, que depende do salário, não deixa de ser trabalhador estranhado só porque seu salário é maior que o de outro trabalhador.

O estranhamento não está presente somente no ambiente de trabalho, mas em todas as esferas da sociedade. Os capitalistas produziram um mundo estranho, inclusive, para eles próprios que precisam viver em redomas de segurança. O estranhamento reverte o papel fundante do trabalho; o papel da humanização e o caráter libertário e, ao contrário, de propiciar uma maior humanização e prazer e ser o condutor do estímulo à virtuose; o trabalho é transformado em fardo, em elemento de sufocação. Sob o modo de produção capitalista o trabalho transforma-se em emprego, em venda de força de trabalho, em troca de salário – “coisas” que não têm nenhuma relação com: humanização, prazer e afinidade com aquilo que se produz.

Somente quebrando a divisão social do trabalho pode-se romper com a exploração, tornando a produção racionalizada, segundo a verdadeira necessidade dos trabalhadores e não de acordo com a necessidade do mercado irracional que queima alimentos, destrói roupas e leva cada vez mais os trabalhadores a algo abaixo da linha da dignidade.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA