Diário secreto de um rei inconformado

`FotoQuarta, 16 de junho de 2004

Quando caminhei pelo tapete vermelho do Itamaraty, hoje de manhã, não imaginava que o dia seria tão complicado. Fui tranqüilo para minha reunião com o primeiro-ministro da Tailândia no palácio real. O companheiro Marinho disse que estava marcado um ato contra as reformas, mas garantiu que ia ser uma meia dúzia de vermelhinhos. E não é que tinha vinte mil!

O companheiro tailandês não entendeu nada. A gente teve que sair por uma porta lateral e mudar o que estava programado. Esse povo quer me fazer passar vexame, mas aproveitei que tinha uns bonecos de Olinda e falei pro intérprete dizer que era um carnaval fora de época. Acho que ele acreditou.

Aquela multidão não foi como a da festa da posse ou como nos velhos anos em que eu fazia atos e era oposição. Eu estava do lado de dentro e a manifestação era contra mim.

Não é que eu sinta saudades dos tempos de sindicalista. Não, hoje estou muito melhor! Tenho companheiros mais importantes e troquei as bandeiras vermelhas pelo manto vermelho de rei… Eu me modernizei, amadureci. Meus aliados hoje não são plebeus de megafone, exigentes e barulhentos. Minha turma atual é de governantes e empresários engravatados, gente que tem poder e bala na agulha, sabe?

`FotoÉ claro que para ter esses amigos é preciso fazer por merecer. Então, a gente faz umas reforminhas, uns agrados… Além do mais, era preciso amadurecer, deixar para trás o radicalismo.

Esse povo reclama demais! Eu até aumentei o salário mínimo! Por que eles não comem brioches? Mas vida de rei é assim mesmo: um dia abro o armário e salta um Waldomiro; outro dia abro a janela e tem uma multidão revoltada
Cada dia mais eu entendo o FHC…

Crônica escrita por Yara Fernandes
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