International Socialist League (ISL – Liga Socialista Internacional), seção britânica da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI).

Introdução

Publicamos abaixo dois textos relacionados ao brutal atentado realizado contra Sasha Johnson, ativista da seção de Londres da Rede Internacional do “Black Lives Matter” (“Vidas negras importam”) e da Direção Executiva do “Taking the Initiative Party” (TTIP, algo como Partido pela Tomada de Iniciativa ou Atitude), fundado em 2020, com o objetivo de dar voz a representantes das comunidades periféricas, principalmente as chamadas “pessoas de cor” (vide nota, abaixo).

Sasha, que tem 27 anos e é mãe de dois filhos, encontra-se hospitalizada em estado crítico, depois de ter sido baleada na cabeça, na madrugada de domingo para segunda. Considerada uma das principais figuras públicas do BLM na Inglaterra, ela também é reconhecida pelo seu trabalho distribuição de alimentos e mantimentos para famílias periféricas.

O primeiro texto, que localiza o atentado dentro da trajetória de Sasha e do contexto das lutas negras no Reino Unido, foi produzido pela Liga Socialista Internacional e foi distribuído, no dia 25, numa vigília que já havia sido convocada em homenagem a George Floyd (cuja morte completaria um ano naquela data) e incorporou a solidariedade a Sasha, seus familiares e companheiros(as). O segundo, é um depoimento pessoal que nos enviado por Chantelle Lunt, fundadora do “Aliança BLM” de Merseyside, condado onde se localiza Liverpool, onde Martin também residi e milita.

Construir a unidade nas ruas com o BLM! Defender as pessoas de cor por todos os meios necessários! Documentos para todos, os refugiados são bem-vindos! Acabar com o racismo em todos os níveis!

A Liga Socialista Internacional condena o atentado a tiros contra Sasha Johnson, cometido em Londres.  Enviamos a nossa mais profunda simpatia a Sasha, à sua família, ao seu partido político e ao BLM.  Sabemos que será necessária uma operação, e lhe desejamos tudo de bom.

Foi um ataque brutal e ela sofreu um ferimento de bala na cabeça. Ela encontra-se atualmente sob cuidados intensivos, em estado crítico e à espera da cirurgia. O ataque aconteceu nas primeiras horas desta manhã (24), após numerosas ameaças de morte em função de seu ativismo.

Como destacado na nota publicada pelo TTIP, “Sasha sempre lutou ativamente pelos negros e contra as injustiças que rodeiam a comunidade negra, além de ser membro do BLM e do Comitê Executivo do ‘Take the Initiative Party’, Sasha é também uma mãe de duas crianças e uma voz forte e poderosa para o nosso povo e a nossa comunidade”.

Como parte de sua militância para construir o BLM e o TTIP, Sasha veio de Londres para apoiar a fundação da Aliança do BLM de Merseyside (MBLMA), em Liverpool. Naquela noite, um dos militantes de nossa organização, o ISL, passou algum tempo conversando com ela, como também aconteceu com muitos outros, e ela se tornou uma figura bem conhecida, em Liverpool, como uma lutadora da comunidade negra e do seu partido, o TTIP.

Uma pantera e uma guerreira

Logo após o atentado, Chantelle Lunt, dirigente do MBLMA, sintetizou aquilo que todos e todas que conhecem Sasha pensam neste momento: “Você é um Pantera e uma Guerreira. Se alguém pode sobreviver a isto, é você. Você já chegou até aqui, Rainha, por favor, continue lutando. Lute para viver!”

Em Londres e outras cidades, Sasha se tornou conhecida como uma dirigente negra em meio ao movimento que surgiu, mais fortemente em Londres, depois de que George Floyd foi morto. O surgimento de seu partido também remonta àquele terrível episódio.

Por isso, aqueles que dizem que os tiros disparados de um carro em movimento não têm nada a ver com política, devem olhar para a história recente de negros e negras no Reino Unido. E, também, checar todos os comentários monstruosos e cruéis feitos contra Chantelle e outros líderes negros. Não, este ataque foi realizado por reacionários que querem silenciar o movimento! Foi um ataque racista. Mas, não conseguirão silenciar o povo negro e os seus fortes aliados nos bairros, sindicatos e grupos marxistas, como o ISL.

A luta contra o racismo vai continuar

O governo quer que as pessoas acreditem que a Grã-Bretanha, pós-Brexit, é um lugar de diversidade e um modelo para “países de maioria branca” em todo o mundo. Quer nos fazer acreditar que, aqui, não há problema alguma. Por isso, os governantes e a política tentarão atribuir o atentado a tiros contra Sasha à “matança entre gangues”.

O racismo institucional está profundamente enraizado em todos os níveis do Estado. Está nas estátuas, no culto ao belicista e racista Winston Churchill [o ultra-conservador primeiro-ministro britânico, entre 1940 e 1955), na defesa do sionismo e de sua máquina de guerra.

É por isso que, através de nova proposta de lei policial, o governo Tory [nome pelo qual é conhecido o Partido Conservador] quer tornar qualquer dano feito a estátuas (ou qualquer coisa que eles considerem um monumento) em um delito criminal. E ameaçam com uma sentença de dez anos de prisão. Foi isso que fez emergir, em todo o Reino Unido, um poderoso movimento, liderado pela juventude, conhecido como “Kill the Bill” [“Matem o Decreto”, numa referência aos famosos filmes do diretor Quentin Tarantino].

Para a monarquia e para a classe dominante, a sua história de escravidão, colonialismo e imperialismo deve ser preservada a qualquer custo. Os museus de História britânicos estão repletos de artefatos importantes saqueados de muitos continentes, incluindo a África, o Oriente Médio e a Ásia.

A profundidade do racismo não é novidade para ninguém, como demonstrado pelo Instituto de Relações Raciais num estudo publicado já há sete anos. “Um incidente racista, segundo a polícia, é qualquer incidente, incluindo qualquer crime, que seja percebido pela vítima ou qualquer outra pessoa como sendo motivado por hostilidade ou preconceito baseado na ‘raça’ ou ‘raça percebida’ de uma pessoa. Em 2013/14, as polícias da Inglaterra e do País de Gales registraram 47.571 incidentes racistas. Isto é, em média, ocorreram cerca de 130 incidentes por dia”, constatou a pesquisa.

Em defesa da vida, é preciso destruir o racismo e o capitalismo

Quando a pandemia da Covid começou, o capitalismo manteve os negócios e empresas abertos. No entanto, os migrantes, muitas vezes fugindo de perseguições e degradação em seus países de origem, têm de enfrentar os “controles de imigração”, tanto da União Europeia quanto do Reino Unido, com barcos de patrulha, drones, e câmeras especiais, numa tentativa de impedir a travessia do Canal da Mancha. O governo do Reino Unido também quer acabar com o direito de asilo em todos os casos, com exceção de um punhado de casos, através do “Novo Plano para a Imigração”, tornando a entrada no país praticamente ilegal.

Existe um racismo profundamente enraizado no Reino Unido e foi por isso que o movimento explodiu logo depois de ver os assassinatos nos Estados Unidos. Aqui, também se conhece a dor e o peso do racismo sobre as pessoas de cor.  A cada segundo de cada dia. Em todos os níveis da sociedade capitalista.

Em maio, o BLM começou a se vincular aos ativistas palestinos. Isto mostra que eles e os seus aliados não vão aceitar este ambiente hostil. É impossível viver neste ambiente. Ele tem de ser e será destruído.

Por isto, também, agora, os nossos pensamentos estão com Sasha, sua família e os seus entes queridos. Sua luta, neste momento pela própria vida, também é nossa luta.

“Sasha tem, literalmente, vivido e respirado a libertação negra”

Shasa e Chantelle (dreads)

Chantelle Lunt, fundadora da Aliança BLM de Merseyside

Sasha tem sido amplamente mal representada e visada pela extrema-direita, o que causou muitos mal-entendidos sobre quem ela é. Contudo, eu tive a sorte de ter passado algum tempo ao seu lado e conversado com ela. E o que vi foi alguém imensamente indignada com o que se passa com sua comunidade e determinada a lutar contra isso.

Ela angariou dinheiro e alimentos para os membros da comunidade, sempre militando junto a eles, mas também determinada a fortalecer e unir uma comunidade negra bastante diaspórica [dispersa].

Ela tem, literalmente, vivido e respirado a libertação negra. E, para exemplificar, foi lhes dar algum contexto. Vivo em Liverpool, que fica no Noroeste, e na periferia da cidade. Muitas vezes os debates sobre as experiências dos negros são centradas em Londres e, por isso, viajei para lá, para participar da “Marcha de um Milhão de Pessoas” [realizada em agosto de 2020, tendo Sasha dentre uma de suas principais organizadoras] e disse ao movimento negro em Londres que também temos casos bastante sérios aqui na minha região (…).

Expliquei que também estamos sob ataques e que muitos, como eu, estamos isolados. Vivo em uma comunidade onde apenas 1% da população é negra e experimentamos um racismo realmente violento, todos os dias: o “overt racism” [“racismo manifesto”, termo usado para as expressões escancaradas de racismo, como segregação, ofensas públicas, distintas formas de violência, ataques de supremacistas etc.].

Pedimos ajuda e dissemos que seria ótimo se o movimento londrino pudesse ir nos apoiar, porque é muito diferente militar em Liverpool, onde não há tantos negros, e é bastante difícil lutar pela libertação dos negros quando se está isolado.  Logo depois de ter falado neste evento, um rapaz negro foi atacado por facão, num episódio realmente terrível, em que os racistas tentaram decepar suas pernas ao mesmo tempo em que gritavam para que ele fosse para sua casa [na África].

Diante disto, eu fiz um chamado e comecei a organizar um protesto. E Sasha foi a única ativista de Londres que veio até Liverpool. Ela veio de carro, dirigindo por cinco horas, apenas para me apoiar, porque disse que era isso que precisávamos fazer como comunidade. Ninguém jamais tinha feito isto antes. Ninguém fez isto depois.

Acho que foi apenas isso que a tornou única: ela fez o que disse que iria fazer.  Ela disse: “Eu vou te apoiar. Como pessoas negras, nós precisamos apoiar umas ás outras, como partes de uma mesma comunidade na luta contra o racismo”. E quando o BLM de Merseyside estava precisando de alguém, ela veio até nós.

Há muitas narrativas e histórias contadas sobre ela pela extrema direita, mas quando me sentei e falei com ela, ela não era “essa” pessoa. Se eu acreditasse no que estava nas redes sociais, acreditaria que ela era uma pessoa má. Mas quando me sentei e falei com ela, pude ver que ela não passa de uma pessoa apaixonada. E, por isso, lhe dei um conselho naquele momento: “Deixe as pessoas verem o seu verdadeiro eu, deixe as pessoas verem o que eu vi conversando com você, se abra um pouco para as pessoas, não tenha medo de ser vulnerável”. E eu acho que foi por isso que compartilhamos algumas outras experiências.

Hoje, apenas rezo para que ela escape da situação em que está e sobreviva. À noite, faremos vigílias em Londres e Liverpool em homenagem a George Floyd. Parte destas vigílias serão dedicadas a Sasha, apenas com a intenção de enviar vibrações e energias positivas, na esperança de que a ajudem a superar este momento. Estarei lá e vou lembrar, sim, que ela foi uma das poucas pessoas que, alguma vez, veio me apoiar.

 

Tradução: Wilson Honório da Silva, da redação

(*) Nota do tradutor: No Reino Unido, assim como nos Estados Unidos e outros países, o termo “pessoas de cor” não tem o mesmo tom pejorativo que no Brasil (onde é reflexo do mito da democracia racial). É usado (como também, muitas vezes, “black”/negro) em referência a todos e todas descendentes das muitas áreas colonizadas pelo imperialismo britânico (na África, Ásia, Américas etc.). Termos colocados entre colchetes [xx] foram agregados para explicar alguma questão específica.