Depois do terremoto do dia 12 de janeiro

Leia abaixo a declaração da Batay Ouvriye (Batalha Operária) sobre a situação do Haiti depois do terremoto.Entre palavras vazias do governo e atos concretos de imposição por parte dos imperialistas, o povo atordoado, o caos, a desolação geral, e, sobretudo a tragédia… ultrapassam o que pode ser descrito.

Do terremoto do dia 12 de janeiro ficarão imagens que torturarão por um longo tempo o espírito, as memórias inacessíveis de mortos tão queridos, de cidades já fantasmas, de risos que desapareceram…

Mas é necessário, apesar de tudo, manter a cabeça fria; é obrigatório encarar os problemas reais para visualizar uma saída.

Contexto em que ocorreu o terremoto
Algum tempo atrás, o governo, junto com a burguesia e seus tecnocratas, falavam de uma “reativação da economia do país”.

Hoje em dia, com o aprofundamento da crise, a situação piorou. Uma situação que se agravou com a última temporada de ciclones em 2008: não só a construção de infra-estruturas anunciada pelo governo nunca se realizou, como também eles não conseguiram explicar o desaparecimento de uma enorme quantia de dinheiro arrecadada para atender a tragédia.

Outra característica do momento era a conjuntura política: o país passa por uma crise global de representatividade e de legitimidade do Estado. As eleições ao Senado, de abril de 2009, e a ridícula participação nelas (5% dos eleitores) colocaram a crise em evidência. Outras eleições, de deputados e prefeitos seriam realizadas no final de fevereiro, mas foram canceladas. Porém, já existem muitíssimos conflitos se dando com o Executivo, que trata de obter uma maioria quase completa nas duas Câmaras e, assim, assegurar sua permanência, preparando então as eleições presidenciais do final do ano. Um partido chamado “Unidade”, composto pelos mais vis representantes da canalha mafiosa e criminosa, era o escolhido de Préval para confirmar a “continuidade” deste processo de entrega total ao projeto neoliberal, marcado pelo cruel salário mínimo (de menos de 2 dólares ao dia), desemprego catastrófico e dominação/repressão extrema.

Para defendê-lo e assegurar sua implementação, diante da incapacidade crônica das classes dominantes haitianas e de seu Estado reacionário, forças militares da ONU, sob pretexto de terem sido “chamados” pelos dirigentes haitianos, ocupam o país há 6 anos. Seis anos, onde a repressão sempre aumentou e o papel das forças de ocupação foi ficando cada dia mais claro.

O principal e o verdadeiro “chefe” deste processo dominante, o imperialismo (particularmente o norte-americano), certamente tinha algumas contradições com um Estado tão mafioso e criminoso. Mais recentemente, o sustentava ainda claramente, através da presença dos militares internacionais e da submissão tácita do comando brasileiro.

O terremoto de 12 de janeiro, apesar de mascarar de certa maneira estas contradições, na realidade não as elimina em nada.

Diante de tudo isso, estavam as massas populares. Em várias ocasiões mostravam que estavam dispostas a defender seus interesses. Seu repúdio e a forte ausência nas últimas eleições de abril de 2009 ficaram bastante evidentes. Demonstraram assim que estavam fora das diferentes “jogadas” das classes dominantes. E, pouco antes do terremoto, a grande maioria dos trabalhadores e das massas populares se preparava, em silêncio, em boicotar as próximas eleições.

As massas lutavam, ainda que fosse de uma maneira certamente parcial e atomizada, mas decididamente. E isso foi uma das características mais importantes do momento anterior ao terremoto: o retorno da mobilização. Ocorreram grandes mobilização, como a da fome, em abril de 2008; a dos operários da indústria têxtil por aumento do salário mínimo; a mobilizações dos empregados de serviços públicos exigindo o pagamento de seus salários; a luta dos estudantes e as fortes mobilizações contra o processo de privatização dos serviços públicos; e a luta contra a ocupação militar. Diante de todas essas reivindicações legítimas e justas, o poder não teve outra resposta senão a repressão. Seja pela polícia nacional, seja pela Minustah. De repente, começou a se ver de novo a época dos assassinatos, tão comum no período duvalierista. Assassinatos políticos de militantes progressistas que encabeçavam as diferentes lutas mencionadas.

As contradições das massas populares com seus inimigos de classe, apesar do desvio objetivo provocado pelo terremoto, formam uma explosiva situação social no país. A qualquer momento, um levante é possível!

Perigos que temos pela frente
No marco da situação geral que acabamos de recordar, do projeto de dominação e de exploração sem limites do imperialismo e das classes dominantes, apesar de todos os tipos de “ajuda” que estão sendo oferecidas, a miséria só continuará aumentando.

Algumas fábricas têxteis, por exemplo, reabriram suas portas, mas com o mesmo salário de antes. Dobraram-se as jornadas de produção. Os proprietários dizem que é em função do “atraso”! Certos comércios, serviços e empresas locais se aproveitam da situação para não pagar o salário mínimo alegando que “não podem”!

Enquanto isso, o imperialismo invade com mais força sob a inesperada cobertura de “ajuda humanitária”. Realmente, nas condições que se encontra o país, precisamos de uma ajuda humanitária. Mas isso significa uma real solidariedade. Vários camaradas de nossa classe mobilizam-se e seguem se mobilizando no marco desta solidariedade.

Mas a “ajuda humanitária” que encontramos hoje é utilizada para consolidar a dominação imperialista e aprofundá-la ainda mais. Os norte-americanos, por exemplo, principais protagonistas desta “ajuda humanitária”, chegaram com uma força militar descomunal. Mais de 16 mil combatentes! Navios de guerra, com materiais de guerra, chegam de porta-aviões. Controlam qualquer reunião em espaços públicos, sobretudo em bairros populares.

Ao mesmo tempo, está claro que esta “ajuda” corresponde apenas aos objetivos geopolíticos dos imperialistas, no marco de seu plano de controle da região, como expressa as diferentes bases militares dos EUA na America Latina, a reativação da 4° Frota, ou nos acordos assinados entre Obama e o colombiano Álvaro Uribe. O Haiti representa um ponto importante e inesperado (há muito tempo almejado) deste plano. A dependência que estão realizando através da “ajuda” transforma abertamente a ocupação em uma tutela que pretendem ser definitiva (tempo “útil”, dizem agora). “É verdade, estamos perdendo ‘algo’ de nossa soberania”, disse nosso premiê fantoche. Mas isso é pura mentira. Hoje em dia, o Haiti perdeu completamente toda sua soberania!

Por isso, devemos de nos perguntar: a “reconstrução” da qual falam será em beneficio de quem? De que classe? Nós estamos certos que essa reconstrução é realizada na contramão dos interesses dos trabalhadores.

O próprio Bill Clinton [ex-presidente dos EUA] acaba de retirar a máscara quando disse [aos capitalistas no Fórum Econômico de Davos] que este “é o momento de fazer dinheiro no Haiti”, através do salário de miséria que conhecemos, e o saque das últimas reservas naturais do país.

Acima das decisões dos Haitianos, os imperialistas vão tratar de decidir somente entre eles, ainda que a cada um fale sobre fazer algo “junto com as instituições legais em sítio”.

Mas o papel do podre Estado “em sítio”, nos leva diretamente ao uso das ONGs. Elas que sempre têm desviado as massas populares de suas mobilizações de luta; que se impuseram em tudo o que se referia à saúde, educação e demais problemas sociais, representam hoje em dia outra forma de tutela.

O que fazer para levantar este desafio?
Desde o começo do período histórico que se abriu com a saída de Jean-Claude Duvalier, em 1986, o desafio já era muito grande para as massas populares. Hoje em dia é ainda maior.

Teremos que encontrar a melhor forma para transmitir nossas mensagens e a articulá-las com a concreta realidade vivida de cada lugar, em cada momento. Não devemos de maneira estática esperar pela “ajuda”.

Temos que denunciar o verdadeiro “jogo” que está sendo travado, com nossa presença direta nos bairros ainda em pé, nas praças públicas ocupadas, nas fábricas e indústrias que já estão funcionando.

Devemos receber a solidariedade de nossos camaradas, amigos e aliados. Temos que nos organizar para isto. Sobre isso, porém, fazemos uma clara diferenciação entre essa solidariedade e a “ajuda” dos imperialistas. Certamente, essa solidariedade representará muito pouco frente à “ajuda” que se chega, mas será fundamental. Devemos considerá-la com um espírito de luta, ao mesmo tempo em que devemos ter a meta de construir um Campo do Povo, único campo que pode tirar o país do abismo que se encontra.

Para organizar essa ajuda, propomos comitês que devem ser autônomos, deixando, assim, bases para a construção e desenvolvimento de organizações autônomas das massas populares.

Nossos comitês devem ser honestos, sérios, transparentes, coletivos, organizados da melhor forma, firmes, dinâmicos e combativos, pois teremos que lhe fazer frente, sobretudo, à ofensiva das classes dominantes, no marco de seu projeto de dominação-exploração. Para isso, nossos comitês de recepção da “ajuda”, devem de se transformar conscientemente em comitês de luta. Sabemos, por exemplo, que já estão planejando mover campos de “refugiados” longe da cidade, sem preocupação de como e onde trabalharemos, sem escolas, universidade ou outros centros sociais de nossa conveniência.

Junto com tudo isso, devemos o mais rápido possível retomar as lutas globais que nos tocavam antes do terremoto. Lutar contra a privatização, contra a dominação e contra a ocupação. Devemos voltar o mais rápido possível, com as principais reivindicações da cada classe de nosso campo, de cada setor das massas populares.
Para começar, precisamos defender que todo mundo esteja trabalhando, como parte de um plano geral voltado aos interesses dos trabalhadores, sob o controle dos próprios trabalhadores.

Para tudo isto, temos que estar conscientes de que o Estado não poderá fazer nada. Esse não é o Estado dos trabalhadores. É um Estado burguês, das classes dominantes e pró-imperialista. Se desejamos concretamente realizar nossos interesses a curto, médio e longo prazo, precisamos de outro Estado, de um Estado dos trabalhadores.
Como já mencionamos, as classes dominantes, junto com o imperialismo, trabalham para consolidar sua própria política. Eles não têm nenhum interesse de que a “reconstrução” se faça fora deste plano, com os interesses dos trabalhadores à frente. Nós temos que propor a reconstrução do nosso país, a partir dos interesses das massas populares, dos interesses dos trabalhadores. Isto nunca se fez no Haiti, mas é a única solução para retirar o país do abismo onde eles o levaram.

A atual “reconstrução” resultará numa dependência fatal, sob uma ocupação efetiva que vai se transformar numa tutela objetiva, que aumentará dia a dia, apesar de todas as palavras mistificadoras dos “governantes”, que simplesmente expressam a sua insatisfação por ainda não terem recebido uma quantia satisfatória para seus bolsos.
Com os interesses dos trabalhadores sempre à frente, nós do Campo do Povo, realizaremos a reconstrução devida. A Batay Ouvriye trabalha neste sentido.

Porto Príncipe, 7 de fevereiro de 2009

Post author BATAY OUVRIYE
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