Debate aborda Revolução Russa e governo Chávez em Porto Alegre

Uma platéia de mais de 200 pessoas atentas às falas dos debatentes
PSTU-SP

Porto Alegre contou com a presença de Valério Arcary, historiador e dirigente nacional do PSTU, para o debate que marcou os 90 anos da Revolução Russa. Roberto Robaina, presidente estadual do PSOL e ex-candidato a governador pela Frente de Esquerda no estado, debateu com Valério a respeito das lições de 1917, a história da esquerda e as conclusões que se podem tirar para nossa ação nos dias de hoje.

Pouco depois das 19h30, o auditório do Instituto de Educação General Flores da Cunha contava com mais de 200 pessoas. Ativistas da juventude, funcionários dos Correios, trabalhadores da educação, municipários, entre outros, esperavam pelo inicio da atividade. No plenário também estavam trabalhadores e estudantes vindos do interior do estado. O evento teve, ainda, a presença de estudantes do ensino médio de Gravataí que estavam fazendo um trabalho sobre a Revolução Russa.

Na primeira intervenção, Arcary enfatizou quatro legados principais da Revolução Russa: o papel do proletariado como sujeito, a importância do partido revolucionário, a necessidade de uma internacional e a independência de classe. Robaina destacou a importância da revolução de 1905, como ensaio geral para os acontecimentos de outubro na Rússia, e falou sobre o caráter excepcional da conjuntura que permitiu a revolução de 1917.

Mas a principal polêmica, como era esperado, surgiu em torno do tipo de atuação que a esquerda deve ter frente ao governo Chávez. Robaina disse que não é chavista, mas defendeu que é necessário escolher um lado na Venezuela: apoiar a reforma constitucional de Chávez, como expressão do processo revolucionário local, ou ficar junto ao imperialismo. Fez questão de caracterizar essa reforma como um avanço, apresentando aprovação da jornada de seis horas como exemplo. Segundo ele, o governo Chávez, apesar de ser bonapartista e aplicar medidas antidemocráticas, cumpre um papel progressivo no sentido de garantir que a Venezuela seja um país independente, um pólo de resistência frente a uma conjuntura mundial regressiva para a classe operária.

Valério Arcary afirmou que quando governos capitalistas fazem concessões transitórias e instáveis, o fazem para que a burguesia ganhe tempo e para que as massas abandonem a perspectiva de luta pelo poder. As reformas propostas por Chávez cumprem o mesmo papel que as propostas de Duhalde durante a revolução argentina. Ele lembrou que a análise de dois pólos na Venezuela – um revolucionário com Chávez e outro da contra-revolução – é oriunda da fórmula “stalinista” clássica usada, por exemplo, na Espanha em 37.

Criando a ilusão de um “governo em disputa”, ela também foi muito propagada no Brasil, passando a idéia que ou se estava com Lula ou com a contra-revolução. Arcary aponta que há um terceiro campo na Venezuela, assim como no Brasil: o do proletariado – pois no capitalismo tudo é uma luta de classes. O regime da Venezuela não pode ser defendido politicamente, disse Arcary, pois mesmo que este fosse um estado independente, sua natureza de classe continua sendo burguesa.

O debate misturou momentos de exaltação, de fina ironia, de descontração e de riso. Serviu para enriquecer a compreensão do público sobre história e as tarefas da esquerda.