“De punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos”. A esquerda petista diante de uma encruzilhada decisiva

O destino da esquerda petista parece perturbador. Não estão de acordo com a política econômica do Governo Lula, opõem-se às metas do superávit primário, à elevação dos juros, à liberação do fluxo de dólares, que são, como é óbvio, a principal orientação do Planalto. Mas, atenção, não estão satisfeitos, também, com a política para a Reforma Agrária. Não fosse o bastante, não estão de acordo com a reforma universitária, nem com a sindical, nem falar na trabalhista. Nunca foram entusiastas do Fome Zero, nem da lógica das políticas compensatórias do Bolsa-família. Já perderam as ilusões na política do Itamaraty, depois do silêncio mais que embaraçoso diante da moratória argentina, e da presença das tropas no Haiti. Em resumo, é preciso procurar com muito boa vontade, minuciosamente, para encontrar alguma política do Governo Lula que a esquerda apóie. Estas posições são fáceis de entender. No entanto, as três principais correntes nacionais da esquerda petista, DS (Democracia Socialista), Força Socialista e Articulação de Esquerda, insistem em permanecer no Governo, o que, admitamos, é mais do que estranho – depois de dois anos – é bizarro.

A decisão de focalizar a disputa em torno de nomes para a presidência do PT – enquanto a resistência popular procura abrir um debate sobre o futuro do Brasil – priorizando mais uma vez, na vigésima quinta hora, a luta interna não é muito animadora. Se antes, em condições muito mais favoráveis, quando a Articulação não dispunha de recursos, de todo o tipo, hoje ao seu alcance – nunca se deve subestimar a capacidade de persuasão que o poder exerce – não foi possível deslocar, seriamente, a supremacia do aparelho de milhares de funcionários, imaginar que seria possível derrotar Genoíno, justo no terreno que lhe é mais favorável, parece preocupante.

Alguns explicariam esta insistência tática com um argumento politiqueiro, portanto, estritamente eleitoral: a maioria dos dirigentes da esquerda petista teria que se resignar a um cálculo ‘realista’ de possibilidades de renovação de mandatos, considerando que a sobrevivência eleitoral exterior ao PT seria muito difícil nas condições impostas pelo coeficiente eleitoral. É um argumento muito simples, mas poderoso. Esta teimosia estratégica que desafia o bom senso, exige, todavia, uma explicação marxista mais complexa, portanto, uma explicação que deve condicionar os enfoques da análise política às pressões de classe.

As relações entre sujeitos políticos e sociais não pode ser harmoniosa, já que todas as classes são socialmente heterogêneas e a disputa pela direção é um processo exasperado. O movimento operário dos últimos cento e cinqüenta anos à escala internacional, embora menos heterogêneo que outros movimentos sociais – ao contrário do que, geralmente, se admite – esteve dividido, grosso modo, em três grandes correntes históricas: a reformista, a centrista e a revolucionária.

Se existe um padrão regular e recorrente na história da esquerda mundial é o que nos ensina que, em situações defensivas, a tendência moderada, portanto, programaticamente reformista, foi sempre esmagadora maioria. Nessas circunstancias, o centrismo, que oscila no terreno da tática, erraticamente, porque não tem âncora estratégica, permanece em sua órbita de atração, enquanto as posições revolucionárias estão condenadas a ser uma minoria. Isso não é difícil de compreender. Só em situações revolucionárias as idéias anti-capitalistas podem conquistar maioria, porque somente diante de uma profunda desmoralização e divisão burguesa, a perspectiva do poder é, politicamente, visível por milhões. Ocorre que esse processo depende, e muito, da capacidade das forças revolucionárias vencerem obstáculos que estão inscritos, por ironia da vida, na sua própria História. Expliquemo-nos: já foi dito que a maldição dos revolucionários é a de passar décadas à espera de uma situação revolucionária, e não a reconhecer quando ela começa a se desenhar em frente dos seus olhos. Parece incompreensível, mas, é freqüentemente assim.

No entanto, a experiência histórica sugere, também, que acontece uma inversão no descompasso relativo das relações políticas das massas trabalhadoras e suas organizações, quando se abre uma situação revolucionária. Expliquemo-nos: em situações reacionárias, em que as pressões sociais hostis são imensas, as direções dos partidos marxistas-revolucionários estão à “esquerda” das suas bases, estes militantes estão à “esquerda” da vanguarda e a vanguarda está, por sua vez, à “esquerda” das massas. Quando reina o cepticismo, e o senso comum é que não é possível mudar a sociedade, é preciso ousadia para marchar contra-a-corrente.

Sabemos como este processo de isolamento pode conduzir, involuntária ou até imperceptivelmente, a um “exílio social” dos revolucionários. Quando a massa dos trabalhadores perde a confiança em suas próprias forças, resistir às pressões de adaptação política não é fácil, e as aventuras arrivistas de integração são generosamente recompensadas. O afastamento dos grandes fluxos de opinião majoritários entre os trabalhadores favorece pressões doutrinárias e, marginalmente, até “patologias” sectárias. Os “nomadismos” intelectuais e as “diásporas” políticas são uma das conseqüências das inevitáveis rupturas que se precipitam em série, cisão após cisão.

Estas relações políticas entre representantes e representados se invertem, porém, quando as relações de força começam a mudar a favor dos trabalhadores e do povo. As massas giram abruta e velozmente à “esquerda” e ultrapassam a sua vanguarda, e superam até mesmo as organizações revolucionárias que, pela pressão das forças de inércia política, reagem sempre, tendencialmente, atrasadas à evolução acelerada das relações de força. Se este processo se confirmou como uma recorrência em todas as revoluções urbanas, e atingiu seriamente até o bolchevismo, seria ingênuo ou ligeiro imaginar que não voltaria a se repetir no futuro. Porque estaríamos imunes no Brasil a um processo que se confirmou quase como um padrão? Não estamos ainda em uma situação revolucionária no Brasil, mas não é difícil reconhecer, relembrando o que foi a segunda metade dos anos noventa, olhando à nossa volta na América do Sul e perscrutando o longínquo Oriente Médio, que a realidade mudou e a relação de forças ficou mais favorável.

Ocorre que a inércia política, os acomodamentos mentais, e um certo conservadorismo tático – além das pressões sociais hostis, que anos de baixa atividade política das massas não puderam contra-balançar – são uma das piores heranças dos anos de refluxo. Historicamente, não existe nada como as grandes lutas para que os líderes sintam a pressão e a vigilância de suas bases. Não nos deveria surpreender, portanto, se muitas das forças mais combativas do movimento sindical e popular brasileiro hesitaram, durante anos e anos, quando se tratava de romper com o PT, antes de Lula chegar ao Planalto.

Mas, depois da frustração que tem sido o Governo Lula, e diante da perspectiva torturante de um segundo mandato ainda mais à direita, parece incrível que ainda priorizem a luta interna. Quantos milhares de ativistas de base honestos já não estão se perguntando se não passou da hora de iniciar mobilizações de massas contra o Governo Lula?

Se os melhores militantes nas fábricas, nos acampamentos, nas empresas e escolas – os mais lúcidos entre os veteranos e os mais corajosos entre os jovens – já estão se fazendo a pergunta, então é porque os seus líderes estão muito atrasados. Como dizia Rosa Luxemburgo, “estão de punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos”.