Davos: um retrato do capitalismo em crise

Funcionário limpa o logotipo do 'World Economic Forum'
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Sem a presença de Barack Obama ou dos famosos de sempre, Fórum Econômico Mundial teve clima de decadência, abalado pela crise. Protestos no centro de Genebra, Suíça, repudiaram o encontro e foram reprimidos.O Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, foi o retrato do capitalismo em crise. Nem mesmo os famosos artistas, como Bono Vox e Angelina Jolie que, lamentavelmente, se prestam a dar algum tipo de credibilidade a este evento, subiram aos Alpes este ano. Nem o novo presidente dos Estados Unidos deu muita importância ao Fórum. Barack Obama enviou apenas uma assistente para a reunião.

O presidente Lula também foi prudente. Uma das vedetes das edições anteriores, Lula preferiu não ir ao Fórum Econômico para não associar sua imagem a um evento que reúne os responsáveis pela atual crise mundial. Mas a ausência de Lula esteve longe de ser um boicote a Davos. O governo brasileiro enviou como representante o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Não foram apenas os famosos que desapareceram. Altos executivos foram barrados ou preferiram evitar o Fórum. O ex-presidente da Merrill Lynch, John Thain, demitido semana passada pelo Bank of America, que assumiu a instituição em perigo, foi excluído do evento no último minuto. O presidente do banco de negócios americano Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, também não participou do evento, como seu colega do Citigroup, Vikram Pandit. As ausências foram uma desesperada tentativa de salvar o que restou da credibilidade do evento. Não deu certo.

Fracasso
A reunião de Davos iniciou com o pretensioso título Moldando o mundo pós-crise. Ou, como disse o presidente francês, Nicolas Sarkozy, o Fórum pretendia “refundar o capitalismo”. Porém o fantasma da maior crise do capitalismo desde 1929 assombrou permanentemente o evento. Algo que o próprio fundador do Fórum, Klaus Schwab, reconheceu: “esse foi o encontro mais pessimista de toda a história”, disse.

O Fórum em Davos sempre foi uma conferência onde se elaboram as grandes linhas da política econômica responsável pela miséria dos povos de todo o mundo. Lá eram exibidos os supostos avanços do neoliberalismo e a globalização era apresentada como algo inevitável. Dessa vez, a petulância dos capitalistas deu lugar ao pessimismo e à resignação. A ideologia neoliberal, cantada em verso e prosa nas edições anteriores, foi devastada com a crise econômica.

O sistema mundial dos Estados e a hegemonia norte-americana estão seriamente questionados pela crise. Mas nos salões luxuosos de inverno da Suíça, a nata do capitalismo não encontrou fórmulas mágicas para moldar o mundo pós-crise. No lugar de uma nova ordem mundial, o que se viu em Davos foram mais cenas de crises políticas, bastante incomuns até pouco tempo atrás.

Foi o caso, por exemplo, do episódio do primeiro-ministro da Turquia, que abandonou um painel no Fórum após o presidente de Israel, Shimon Peres, defender o genocídio sionista em Gaza. O governo turco é um fiel colaborador dos EUA e está longe de qualquer postura antiimperialista. Mas o episódio mostrou o quanto é ampla a fragilidade e o questionamento das ações do principal aliado do império no Oriente Médio.

Em Davos todos defenderam uma maior presença do Estado na economia. Isso significa simplesmente mais dinheiro público para injetar nos bancos e nas empresas a beira da falência.

Até agora os Estados nacionais obedecem à determinação dos grandes capitalistas. Segundo o premiê britânico, Gordon Brown, os pacotes de todos os países de socorro a bancos já atingiram US$ 7 trilhões. Esta monstruosa soma representa mais de seis vezes o Produto Interno Bruto brasileiro. Tudo isso, entretanto, não foi suficiente para alimentar a voracidade dos banqueiros e empresários. O Fundo Monetário Internacional recomendou a utilização de mais de meio bilhão de dólares para salvar os capitalistas.

O megaespeculador George Soros defendeu a criação da recapitalização dos bancos pelo Estado. O governo britânico chegou a oferecer aos banqueiros um presente ainda maior: um seguro que cobrisse os enormes rombos das instituições financeiras. A proposta é tão absurda que foi contesta por um economista norte-americano. “Nunca vi alguém fazer seguro de algo que já aconteceu”, disse.

Em Davos, os representantes do capital sentiram que a conseqüência da crise econômica não foi apenas a falta de champanhe e o caviar nos opulentes banquetes dados pelos bancos agora falidos.

Um discurso que não convence mais
No sábado, dia 31, centenas de manifestantes se reuniram em Genebra contra o Fórum Econômico Mundial. Eles protestaram apesar da proibição a manifestações ainda que pacíficas. Nos cartazes, os ativistas expressavam o que pensam sobre a atual crise. O principal deles dizia: “Vocês são a crise”.

A polícia atacou com gás lacrimogêneo e armas de efeito moral. Mais de 50 pessoas foram presas. Houve, ainda, protestos regionais.

Agora a crise começa a ganhar a rua, na forma de protestos. As greves na França são demonstrações atuais. Em Davos Christine Lagarde, ministra da economia francesa, não escondeu a principal preocupação dos capitalistas com a situação e seus explosivos efeitos sociais.