Das telas para a lousa: cinema e educação

Apesar de, potencialmente, serem excelentes aliados no processo de ensino-aprendizagem, filmes e documentários são geralmente muitíssimo mal empregados em sala de aula. Para isso contribuem inúmeros fatores, que vão desde a falta da necessária formação dos professores (fornecida pelo Estado) para trabalhar com este tipo de material, até a falta de estrutura nas escolas e a dificuldade de acesso, principalmente nas regiões mais periféricas.

Independentemente disto, e até mesmo em função da crescente crise na educação mundo afora, muitos diretores têm voltado suas câmeras para o interior das escolas e produzido obras que, no mínimo, nos permitem abrir um debate e provocar reflexões entre os alunos.

Filmes são “documentos”
Um dos maiores problemas no uso de filmes na sala de aula é que geralmente os professores menosprezam o fato de que, como todo produto da criatividade e do conhecimento humanos, os filmes são carregados de ideologia (na maioria das vezes sintonizada com a da classe dominante).

Professores de história, por exemplo, costumam utilizar este tipo de material apenas como “ilustração” de períodos ou eventos; enquanto os de literatura apresentam versões cinematográficas como alternativas à leitura de livros. Nada mais equivocado.

Acima de tudo, filmes (ficcionais ou documentários) são “documentos” da época em que são feitos e, como tal, devem ser tratados como “textos”, que compõem “discursos”, que precisam ser decodificados, interpretados e analisados em oposição a outros documentos do mesmo período.

Em outras palavras, a única coisa que não pode ser feita é tomar o filme como uma “aula pronta”. O ideal é inseri-lo como parte de um debate, como um elemento a mais para a reflexão. E, neste sentido, os filmes abaixo são excelentes pontos de partida.

“Entre os muros da escola” – Esta produção francesa, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2008, é certamente a que possibilita uma das melhores reflexões sobre os descaminhos da educação no mundo neoliberal. A narrativa acompanha as desventuras de um professor numa escola pública francesa que serve como palco para as muitas contradições da sociedade neoliberal que ecoam pelos corredores e salas de aula: a contraposição entre “multiculturalismo” e a hipervalorização da individualidade; a discriminação dos setores historicamente marginalizados (negros, imigrantes etc); a construção da sala de aula como “espaço social idealizado” (gênero imortalizado em filmes como “Ao mestre com carinho”, dirigido por James Clavell, em 1967) em contraposição à degeneração social que a cerca ou, ainda, a sempre conflituosa relação professor-aluno. O filme arranca boa parte de sua comovente força e perspectiva extremamente questionadora do fato de que foi realizado num processo de oficinas, a partir de experiências reais.

“A onda” – Há duas versões do filme, ambas baseadas numa história ocorrida na Califórnia, em 1967: uma para a TV alemã, dirigida por Denis Gansel, e outra para canais norte-americanos, produzida por Alexander Grasshoff, em 1981. O filme propicia um interessantíssimo debate sobre educação e autoritarismo através da história de Rainer Wegner, um professor que, para discutir o fascismo, propõe um experimento no qual ele próprio assume a liderança de um “movimento” denominado “A onda”, cujo principal lema é “força pela disciplina”. Em pouco tempo, a experiência sai de controle e os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e “A Onda” já saiu de seu controle. O filme é baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967.

São raros os filmes que conseguem retratar as contradições entre o universo escolar e o “mundo real” a partir do olhar das próprias crianças. Este, com certeza, é o principal diferencial de “A culpa é do Fidel” (França, 2008), filme de estreia de Julie Gravas, filha de Costa Gravas, diretor de filmes como “Z” e “Estado de Sítio”. No filme, Anna, uma garota de nove anos, vê seu mundo sacudido pelos embates permanentes entre a visão de mundo passada pela família “liberal” de classe média, o tradicional colégio católico onde estuda e o mundo que a cerca, “traduzido” muitas vezes pela empregada da casa, autora da frase que dá título ao filme.

Na mesma linha do “olhar infantil”, também vale revisitar “A Guerra dos Botões”, dirigido por Yves Robert, em 1962 (há também uma fraca versão norte-americana, de John Roberts, 1994). Rodado em meio à Guerra Fria, o filme é uma metáfora sobre os muitos conflitos da época, construída a partir da história de duas turmas escolares que transformam o confisco de botões e cintos na principal tática de guerra.

Dos filmes nacionais, “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim, é referência obrigatória. Rodado em seis escolas (Rio, São Paulo e Pernambuco), o filme traça um contundente retrato sobre as desigualdades sociais e como elas se refletem na educação. Apesar de suas contradições, o filme permite vislumbrar o gigantesco abismo existente, por exemplo, entre uma escola da cidade de Manari (PE) que, na época, possuía o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, o ultraelitizado Colégio Santa Cruz de São Paulo e qualquer outra escola pública do país.

Quando a rebelião invade as salas
Não poderíamos finalizar este artigo sem citar alguns “clássicos” que retratam o ambiente escolar ou a própria educação numa perspectiva mais “radical” ou “revolucionária”. Neste sentido, uma referência fundamental é “If…” (Se…), dirigido pelo inglês Lindsay Anderson em meio aos ventos rebeldes e revolucionários do Maio de 68. Subvertendo completamente a típica narrativa baseada na difícil convivência da diversidade nas elitizadas escolas britânicas (que tem em “A sociedade dos poetas mortos” um dos seus exemplos mais famosos), o filme apresenta um grupo de jovens que, por diversas razões – ideológicas, sexuais, sociais etc. –, se rebelam contra o sistema opressivo de sua escola.

Do mesmo período é “Fahrenheit 451” (François Truffaut, França, 1966), uma das melhores metáforas sobre os efeitos de qualquer sociedade autoritária sobre o conhecimento humano. O filme é situado em um futuro hipotético no qual os livros são proibidos, sob o argumento de que eles fazem as pessoas infelizes e improdutivas. Se uma casa tem muitos livros e um vizinho denuncia, os “bombeiros” são chamados para incendiá-la. Daí o título: “fahrenheit 451” é a temperatura necessária para incinerar o papel. O conflito se estabelece quando um destes “bombeiros” se apaixona pela leitura e descobre que existem outros como ele.

Como todos nós sabemos que, para construirmos a educação queremos, ainda teremos que remover muitos obstáculos e, principalmente, reconstruir uma educação que realmente atenda aos interesses da maioria, é sempre bom rever “The Wall”, a lisérgica fantasia que Alan Parker dirigiu, em 1982, com o grupo Pink Floyd.

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